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24/06/2010
Eloísa Lacerda*
Uma verdade sobre o desmame

Amamentar seu bebê até o sexto mês de vida é a recomendação geral, praticamente oficial, das instituições e dos profissionais das redes pública e privada que se ocupam com a valorização do Aleitamento Materno. De fato, essa primeira forma de alimentação oferece ganhos tanto do ponto de vista do organismo quanto da saúde da relação mãe/bebê.
Apoiando-me no “bom senso”, penso ser fundamental para ambos manterem a amamentação até essa época, sempre que possível. Bancos de Leite de vários países têm nos mostrado a importância das características desse alimento para o aumento de peso de prematuros. Também é verdade que, por ter uma composição bastante rica, o leite materno garante uma experiência nutricional importante e contribui para aumentar a imunidade de todos os bebês. Acredito ainda que os registros de prazer das mamadas têm um sentido ímpar para o equilíbrio emocional e que essa experiência de satisfação será “guardada dentro do bebê” pelo resto de sua vida, muito possivelmente também influenciando sua mãe.
Mas o tema aqui não é a importância, já consagrada e defendida por todos, do aleitamento materno, e sim o questionamento dessa verdade que incentiva o desmame somente a partir dos seis meses de idade como uma norma rígida.
Se os momentos de alimentação oferecem ao bebê sentimentos e vivências agradáveis e satisfatórios, sem maiores incômodos à dupla, do ponto de vista emocional, essa experiência mútua que funda e organiza essa relação tanto pode ser interrompida aos seis meses, quanto se dar antes ou um pouco mais tarde.
Outros fatores também estão em jogo nessa decisão. Por exemplo, a introdução de outros alimentos durante os primeiros seis meses, a volta da mãe ao trabalho e, importante, sua disposição para este encontro com seu filho, sempre tão intenso, e difícil para algumas mulheres, o que temos de respeitar!
A verdade é que essa experiência pode muito bem variar de dupla para dupla, e devemos estar atentos às possibilidades de ambos para a continuação ou a interrupção do aleitamento e ajudá-los, preparando-os para a introdução da mamadeira e de outros alimentos. Geralmente, quando começa a ter mais autonomia (por exemplo, com a locomoção – deslocamentos com o rolar ou com o engatinhar), o bebê já vai demonstrando que pode se distanciar/separar de sua mãe, o que pode ser a dica para o desmame. Ele vai experimentando esse distanciamento, e se sua mãe o aprova pode ser animador e representar crescimento e não falta de cuidado materno. Uma situação bem comum e que ilustra o que estou querendo dizer é a seguinte: o bebê engatinha até a porta, e fala algo como “ãh!”; a mãe responde, com um sorriso tranquilizador: “estou aqui, tá tudo bem”. Ele sente então que pode ir mais longe e se arrisca até o outro cômodo, novamente chamando por ela: “Mã!”. Mais uma vez, ela lhe assegura que está ali e que gosta de saber que ele está experimentando e explorando outros locais sem que eles se vejam, apenas se escutem.
Em contrapartida, a mãe também vai experimentando esse distanciamento e aguçando sua percepção para detectar se o bebê também o aprova. Por exemplo, quando ele a solicita porque está com algum desconforto – fome, frio, sede. Antes de vê-la, ela pode dizer: “calma, a mamãe já está chegando com seu mamá morninho, espere um pouco...”. Geralmente, mesmo que num grande conflito interno, ela vai “lutando” entre liberá-lo e mantê-lo ainda totalmente dependente dela, até que possa ir se desprendendo dessa “tarefa” do aleitamento.
Ambos vão vivendo gradualmente esse distanciamento, essa separação corporal que o momento do desmame exige, o que também ganha corpo nas brincadeiras cotidianas. Por exemplo, quando os bebês repetidamente jogam um objeto longe para a mamãe pegar, se divertindo sempre da mesma maneira, ou quando escondem seu rostinho num paninho e mamãe tem de descobri-los, é sempre um encontro maravilhoso do ponto de vista do bebê, embora muitas vezes a mãe já nem ache mais tanta graça!
E assim, nesses ensaios de presença e ausência mútuas, sempre consentidos pela mãe e solicitados pelo bebê, eles vão encontrando uma possibilidade de organizar a mudança na alimentação, do seio para a mamadeira.
Para algumas duplas, isso é algo simples de ser garantido com satisfação, pois acaba sendo vivido como muito natural e, na maioria das vezes, desejado pela mãe que poderá continuar se sentindo competente para estar com seu filho em inúmeros outros momentos, também significativos como nas mamadas de mamadeira, nas horas do banho, nos passeios matinais, nas horas de dormir...
Em síntese: cada situação deve ser entendida como única e não como uma regra a ser seguida! O momento do desmame pode ser muito rico para a dupla, mas é também sempre muito trabalhoso. Enfatizo que profissionais e familiares próximos poderiam estar mais atentos aos sinais da mãe e do bebê e ajudá-los, com mais incentivos e menos críticas, nas passagens de uma etapa à outra.

Eloísa Lacerda é fonoaudióloga clínica, Mestre em Distúrbios da Comunicação pela PUC-SP e especialista em Tratamento Neuroevolutivo dentro do Conceito Bobath; Psicanalista membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae de SP, Coordenadora do Serviço de Acolhimento Relação Mãe/Bebê da Derdic/PUC-Sp e do curso de especialização “Clínica Interdisciplinar com o Bebê – a saúde física e psíquica na primeira infância” da Cogeae/PUC-SP (de 2003 a 2009).


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