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10/11/2011
Claudia Perrotta
Teatro: 12 HOMENS e uma sentença

Direção: Eduardo Tolentino de Araújo/ Texto: Reginald Rose

“Fatos são fatos”, afirma categórico o jurado 3 (Zécarlos Machado). Mas todos sabemos que, diante das versões, os fatos são escassos.
No julgamento encenado e dirigido brilhantemente por esses 13 homens do teatro brasileiro, saímos apenas com uma certeza: pouco há de objetivo em nossos julgamentos, em nossas ações. E nem poderia ser diferente.
Mas, ainda assim, vejamos como a subjetividade que banha nosso modo de ser e agir pode operar ou não a favor de nossos compromissos como cidadãos que zelam pela ética nas mais diversas situações.
A história é conhecida, pois se trata de um texto clássico adaptado para o cinema por Henry Fonda, em 1957. Reunidos em uma sala pouquíssimo ventilada, já cansados das inúmeras horas passadas no tribunal, 12 jurados devem chegar a um acordo sobre a condenação ou não à morte de um garoto de 16 anos que, supostamente, teria assassinado o pai a facadas.
A questão é que, diferentemente do sistema judiciário brasileiro, no americano há necessidade de um posicionamento unânime entre os jurados. Mas, diante de tantas evidências, não há muito que discutir... Os depoimentos de duas testemunhas são decisivos para a condenação: o do vizinho do andar de baixo, que escutou a briga entre pai e filho, a ameaça deste: “eu vou te matar” e, em seguida, sua saída apressada pela escadaria; e o da vizinha do prédio à frente, que afirmava ter visto claramente o rapaz esfaquear sua vítima pela janela do último vagão de um trem, que seguia vazio àquela hora da noite. Os horários também batiam: tudo teria se passado por volta de meia-noite e quarenta. Há também o álibi pouco convincente: depois da briga acalorada, comum desde que o rapaz perdera a mãe com 9 anos de idade, ele teria ido ao cinema, deixando cair, no caminho, a faca que havia adquirido recentemente, exatamente igual a que matara o pai. Mas não se lembrava do filme e nem havia sido identificado pelos funcionários e frequentadores da sessão da meia-noite.
Os jurados decidem então fazer uma primeira votação entre eles, contando que tudo seria resolvido em poucos minutos. Surpresa: um deles, o jurado 8 (Henri Pagnoncelli), vota pela inocência do rapaz. Indignados, os outros o criticam com veemência, acusando-o de negar o óbvio, de se deixar levar por sentimentalismos, tentando proteger o rapaz apenas pelo fato de ter tido uma infância difícil, com um pai violento que o agredia constantemente. Mesmo que isolado em seu posicionamento, o jurado 8 esclarece que não tem certeza da inocência do suposto assassino, mas que possui “dúvidas razoáveis” que o levam a querer discutir o caso com mais profundidade; e aquela sala, com os 12 homens reunidos, é o local para isso. Afinal, a vida do rapaz está nas mãos deles... Depois desse primeiro embate, nova votação. Mais uma surpresa: agora são dois os jurados que votam inocente (ou not guilty, no texto original).
Ainda mais indignados com o fato de o jurado 8 ter conseguido convencer o de número 9 (Oswaldo Ávila), vamos assistindo a um interessantíssimo embate de posicionamentos, argumentações e contra-argumentações, conhecendo cada homem. E cada homem somos nós.
Qualquer um de nós pode agir por impulso, apegar-se aos fatos como forma de não pensar, conchavar descaradamente, usar a estratégia de desmerecer o adversário para esconder a falta de consistência em nossos raciocínios, julgar unicamente motivados por preconceitos (contra o velho, o estrangeiro, os "moradores de cortiço").
Mas há também os reposicionamentos, a partir dos repertórios, das histórias de vida dos personagens, que vão sendo também desenhados pelo lugar que ocupam socialmente e que, de certo modo, ganha expressão em seus idiomas pessoais: temos o jurado 12, que trabalha em uma agência de publicidade (Ivo Müller), com suas metáforas banais (“vou jogar a sardinha pra ver se a foca vem pegar”); o de número 7 (Haroldo Ferrary), um alienado comerciante, para quem a vida não passa de uma partida de beisebol e seus times rivais; o 10 (Riba Carlovich), o mais truculento e que, com seu discurso reacionário, representa nossa face mais desprezível.
Mas, para nosso alívio, entre os 12, há também homens que ainda se deixam tocar: de humilde e submisso, vemos o jurado 2 (Ricardo Dantas), um simples bancário, transformar-se e afirmar suas convicções diante da ferocidade daqueles que insistiam em condenar o rapaz, ainda que as dúvidas tenham se tornado pra lá de razoáveis.
Aliás, mais do que convencer seus “colegas” de tribunal, o que o jurado 8 consegue, com sua lucidez, racionalidade, no melhor sentido da palavra, e coragem de discordar da maioria, criando novas possíveis narrativas para o fato objetivo, é exatamente isto, tocar cada um deles de modo que desvendem suas verdadeiras motivações. Com isso, o jurado 3, o mais veemente e assertivo na defesa da condenação, prova do próprio veneno, e acaba desbancando, ele mesmo, cada um de seus frágeis argumentos.
Temos aqui então um exemplo claro de subjetividade que é pura projeção de frustrações, ressentimentos e decepções – o jurado 3 trazia a amargura de ter sido agredido pelo filho, e por isso necessitava condenar o rapaz. Justamente ele que dizia não haver nada de pessoal em seu julgamento.
Mas a subjetividade com que o jurado 8 opera é de outra ordem: tocado pela história de maus-tratos do réu, solidário e empático, começa a questionar as certezas, com minúcia e precisão. Sua lucidez está na condição de transitar entre objetividade e subjetividade, sem perder o outro de vista, sem impor uma forma de pensar e agir. É isso que acaba por potencializar nos homens que, como ele, buscavam ser justos, dignos e éticos.
O bacana nesta montagem do diretor Tolentino, além de o teatro de arena favorecer e muito a encenação, é que nos sentimos coautores da história, participando ativamente da criação dos personagens; e, assim como eles, saímos definitivamente transformados.
Não dá pra perder: em cartaz até 29/04, no TUCARENA

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