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04/08/2011
Lucia Masini
Será o fim da letra cursiva?

A cada entrada de um novo produto tecnológico na vida cotidiana, todas as práticas sociais anteriores a ele são colocadas à prova. A televisão trouxe desconfiança em relação à manutenção das rodas de conversa e de escuta em torno do rádio, o cinema abalou a crença na sobrevivência do livro e do ato da leitura, a invasão de games eletrônicos ameaçou a existência dos jogos de tabuleiro, assim como o computador e a busca no Google colocaram em xeque o papel do professor na sala de aula. O mesmo está acontecendo com a letra cursiva. Já são inúmeros os artigos e reportagens, nos jornais de grande circulação, que falam sobre o assunto.
É inegável o aumento do número de pessoas, cada vez mais jovens, que fazem uso de algum aparelho em que haja um teclado onde possam digitar algo, ainda que não saibam o quê. Por esta tecnologia (celulares, computadores, games eletrônicos) estar presente na vida da grande maioria dos cidadãos do mundo é natural que o letramento digital esteja sendo desenvolvido mais precocemente.
Já abordamos os assuntos letra cursiva e avanço tecnológico aqui no site,(/www.ifono.com.br/ifono.php/adeus-esferografica e www.ifono.com.br/ifono.php/a-que-servem-os-novos-estudos-do-cerebro-). Num dos textos citados, falamos da condição que a criança e o jovem têm hoje de usar as novas tecnologias. Muitas vezes, a criança vê no uso do computador uma possibilidade de atingir mais rapidamente seu objetivo. Temos o exemplo de um garoto que, mesmo não sabendo ler e escrever formalmente, soube encontrar o game desejado nas páginas do Google, valendo-se de seu conhecimento das ferramentas da web e da cópia, letra por letra, do título homônimo do jogo de tabuleiro. Depois, por tentativa e erro, aprendeu suas regras e se divertiu um bocado.
A hipótese lançada agora, nas sociedades modernas, é a de que experiências como essa afastem o jovem cidadão da necessidade de escrever à mão, por ter sempre um teclado à disposição que o leve mais rapidamente à satisfação de seus desejos. E, nessa direção, algumas escolas americanas, antecipando-se à confirmação ou não dessa hipótese, já adotaram uso de tablets pelos alunos, dispensando as aulas de caligrafia.
O uso dos tablets será válido se for tomado como uma experiência a ser analisada. Se for como uma certeza imposta, trata-se de uma precipitação perigosa. A história da humanidade tem nos mostrado que os avanços tecnológicos somam-se a outros anteriores, transformando as práticas sociais, mas não as substituindo por completo. A TV não acabou com o rádio, o cinema não acabou com o livro, o game eletrônico não acabou com o tabuleiro e o Google não acabou com o professor. O que se vê é que novos sentidos são criados ou reinventados. Nada desaparece por completo.
Sempre haverá de existir um momento em que uma pessoa sentirá a necessidade (ou o desejo) de escrever à mão. E para isso ela precisa experimentar o ato da escrita, qual seja, segurar o lápis na pressão adequada ao papel e traçar as linhas que originam as letras. Precisa, portanto, passar pelas aulas de caligrafia e seus diversos tipos de letra, que podem agora, em tempo de tablets, ganhar um pouco mais de ludicidade e leveza. Assim, entendemos que é a relação ensino-aprendizagem da caligrafia que deve ser revista nos currículos escolares. Eliminá-la, admitindo-se estar a letra cursiva ameaçada pelos tablets, é um equívoco por negar ao jovem cidadão o direito de escolher a forma como ele quer escrever em diferentes situações de sua vida cotidiana.
Só para ilustrar a questão, o garoto de que falamos aqui no texto está em seu processo de alfabetização e, ainda que seja fascinado pelas facilidades que o computador lhe oferece, não tem se furtado a aprender a usar lápis e caneta e a traçar a letra cursiva. Aliás, a passagem da letra bastão para a cursiva significou para ele uma evolução em seu status de escritor. Sente-se mais autor dos seus textos porque imprime, agora, sua marca pessoal no traçado de algumas letras.
O que estaremos fazendo com os diversos e diferentes cidadãos do mundo se, paulatinamente, a cada avanço tecnológico, eliminarmos, por decreto, marcas de sua pessoalidade?
Somos favoráveis à pluralidade e à diversidade. Que venham os tablets, sim, por sua inegável contribuição ao processo educacional, mas que isso não signifique a formatação dos modos de escrever.

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