16 de Dezembro de 2018


     Fale conosco     Fale conosco
 
ProfissionalProfissional
GeralGeral
ConsultoriaConsultoria
HomeHome
NósNós
Na Boca do PovoNa Boca do Povo
Linguagem com PipocaLinguagem com Pipoca
Mito ou VerdadeMito ou Verdade
PublicaçõesPublicações

18/03/2010
Lucia Masini e Claudia Perrotta
Sem graça nenhuma

Em 13 de março, as tirinhas e charges brasileiras calaram-se em homenagem ao cartunista Glauco, assassinado junto com seu filho Raoni, em sua residência, na madrugada do dia anterior.

Dono de um traço simples e de humor popular e anárquico, Glauco retratava em suas tirinhas as mazelas das pessoas comuns e de quem tem uma vida sem muitos objetivos e cheia de pirações. Geraldão, nome derivado de geral, seu personagem mais famoso, passava o dia nu, em uma busca frenética por estimulação – comida, bebida, sexo, drogas – além de, passado dos 30, ainda morar com a mãe. A versão infantil desse personagem não foge à regra: Geraldinho já nasce querendo ver TV, sempre com pressa, odeia escola e adora guloseimas – caricatura de muitas das crianças de nossa época.

Não há como não observar, como alguns comentaristas, a semelhança entre o assassino de Glauco e o personagem que criou, Geraldão. No entanto, outro aspecto nos chama mais a atenção.

A relação entre os personagens nas tiras evidencia a pouca percepção que um tem do outro, a desconsideração pelo alheio, importando mesmo o desejo e as loucuras individuais. Uma relação desprovida de ternura e carregada na erotização desmedida.

No entanto, a relação das tiras com o leitor era afetiva e buscava chamar a atenção justamente para essa ausência do olhar para o outro. O Casal Neuras parece ser o ápice dessa denúncia: ali, o movimento de um nunca levava o outro para a mesma direção.

Se continuarmos na tese de que o assassino confesso não é a encarnação de Jesus Cristo e sim de Geraldão, devemos então complementar dizendo que sua família e pessoas ligadas ao seu cotidiano também carregam semelhanças com o espírito dos personagens de Glauco. Isso porque parecem ter resistido a olhar o que a realidade lhes mostrava: um jovem que certamente sinalizou de diversos modos a necessidade de ajuda especializada - abuso de drogas, desinteresse por uma vida produtiva e tendência ao fanatismo religioso como salvação para sua existência.
O resultado disso também se assemelhou ao fim de muitas das tirinhas do cartunista: um ato de violência inesperado. Só que, aqui, irreversível.

Glauco não estará presente em outros eventos. Em seu lugar, seu desenho inconfundível.


Voltar

Compartilhe: