16 de Dezembro de 2018


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04/04/2010
Claudia Perrotta
Romance: Os Espiões

Luis Fernando Verissimo

Mestre da ironia, Luis Fernando Verissimo chegou às livrarias no final de 2009 com o divertido e ao mesmo tempo trágico “Os Espiões” (Editora Alfaguara). Ótima leitura, também para quem prefere não sambar na avenida. Não só pela leveza da narrativa, outra marca do autor, mas porque “papo para o ar”, cerveja gelada e pé na areia não são necessariamente sinônimos de cabeça vazia. Em especial neste início de ano, com tantos desastres naturais que, embora imprevisíveis, confirmaram a incompetência crônica e oportunismo de nossos governantes e não nos deixaram descansar em paz...
De mal com a vida, com o trabalho em uma pequena editora e com a raça humana em geral, principalmente às segundas-feiras, o protagonista dessa cômica história de espionagem lidera um grupo de intelectuais de boteco que se reúne no bar do espanhol e, entre uma cachaça e outra, começa discutindo colocação de vírgulas e dúvidas gramaticais até chegar à condição humana - “Era uma maneira de dramatizar nossa própria mediocridade sem saída, uma forma de flagelação mútua pela banalidade”. E foi uma banalidade que acabou levando o grupo a uma empreitada pra lá de estranha. Fascinado com o texto que chegou à editora justamente em uma segunda-feira, enviado pela instigante Ariadne, o mau-humorado editor decide investigar a veracidade da história, uma “tragédia iminente” narrada em capítulos por uma “suicida em formação”. Autobiografia? Ficção? “Falso desespero literário”? Para descobrir, acaba envolvendo seus amigos do bar do espanhol, que se tornam então os hilários espiões do título, determinados a desvendar o mistério que tem como cenário a desconhecida cidade de Frondosa, supostamente no interior do Rio Grande do Sul. E tudo isso apesar dos erros ortográficos gritantes no manuscrito e da infantil florzinha que enfeitava o i no nome da autora... O que a salvara, além da qualidade literária, fora a falta de vírgulas, da qual nosso editor era adepto.
Bem, de crítico feroz e avesso às experimentações literárias de todos os aspirantes a autores de sucesso, o anti-herói do livro vai se tornando um “benevolente paternal”. Suas observações aos autores novatos deixam de ser ácidas, como aquela em que sugere à futura escritora que se ocupe dos afazeres domésticos e poupe “o mundo de sua óbvia demência”, e vão sendo substituídas por palavras de incentivo e esperança , destacando que “uma eventual rejeição” não poderia prejudicar uma “vocação literária”... O que o amor não faz... Além de ter abandonado o álcool, o enfeitiçado editor passa a valorizar a necessidade de escrever, independente do talento: “todos nós merecemos pertencer à irmandade dos que escrevem, só por querer”.
Na ânsia de encarnar Dionísio em missão de salvar a sofrida Ariadne, editando seus escritos e o próprio destino, o ilustrado, cultíssimo e arrogante editor cai em um “conto do vigário” pra lá de manjado no universo da literatura. Não deixe de ler. Verissimo brinca com o próprio ofício, desconstrói a arte de escrever, diverte e faz pensar.
Será mesmo que “em vez de endeusar escritores deveríamos louvar os milhões que resistem e não escrevem, e cuja grande contribuição à literatura universal são as folhas que deixam em branco”? Para quem acompanha a carreira deste escritor, a resposta é óbvia...


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