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13/05/2010
Claudia Perrotta
(Re) Leia o livro. Não assista ao filme!

Lewis Carroll - Tim Burton

Tim Burton decepciona. Ao contrário da filmografia do diretor, com os intrigantes O Estranho Mundo de Jack, Edward Mãos-de-Tesoura, Noiva Cadáver entre outros, temos nesta adaptação para o cinema do clássico Alice no País das Maravilhas uma sequência constrangedora de equívocos. Na verdade, o diretor propõe uma continuidade da obra de Lewis Carroll – a personagem agora tem 19 anos de idade e é órfã de pai, seu único parceiro em um mundo que lhe parece incompreensível, repleto de regras e em que qualquer comportamento impróprio é condenado. Avessa às convenções da época, e desgostosa com o fato de sua mãe querer lhe impor não só o uso de corpetes como um casamento por conveniência, a garota sai em busca do impossível, tendo em mente o conselho paterno: “a única forma de alcançar o impossível é acreditar que é possível”. Cai, então, no mundo subterrâneo.
A Alice do filme continua sendo, de certo modo, perspicaz, mas não mais uma “interessante menina que gostava muito de fingir que era duas pessoas ao mesmo tempo”, entabulando aquelas instigantes conversas consigo mesma – aqui, ela é apenas uma heroína linear e previsível. Heroína porque, na verdade, no filme, o mundo subterrâneo está sendo governado pela tirana Rainha Vermelha, e só Alice poderá vencê-la, matando o guardião de seu reino, o Jaguadarte. Para isso, precisa empunhar a Espada Vorpal... Roteiro previsível, não?
Nada de litros de lágrimas despejados na hora do desespero e nem de questões sobre quem é na verdade, confusa diante de suas antigas crenças, convicções e conhecimentos. Sim, temos a grande queda, as pequenas portas, chaves que abrem campo para o universo onírico, Alice estica e encolhe, o coelho branco usa colete e tem pressa, mas falta, e muito, o estranhamento diante da inversão de lógica nos discursos das personagens, repletos de lugares comuns virados do avesso, tão essencial em Lewis Carroll.
No longa de Tim Burton não há espaço para as grandes questões sobre o crescer que tanto intrigavam Alice, entoadas com humor peculiar: “Será que nunca ficarei mais velha do que sou?”. Os diálogos com o senhor lagarta também perdem o tom, o tema da transformação não é tratado em sua complexidade. Da ironia do gato caçoador sobra apenas o mais do que básico efeito de desaparecer sem deixar vestígios e surgir novamente de modo inesperado.
E o que dizer do chapeleiro? Nem o figurino de Johnny Depp, com seus olhos superarregalados salvaram o personagem do constrangimento de uma dança “a la” Michael Jackson no final, o óbvio passomaluco – nada de frases corretas, porém ininteligíveis, de brincadeiras com o nosso falar cotidiano, de cochichos nos ouvidos do Tempo, que parou na hora do chá. Só a repetição do enigma: “em que um corvo é parecido com uma escrivaninha?”. No filme a família do Chapeleiro foi dizimada pela tirana – mas o que temos é apenas uma figura desvitalizada e sentimentalóide, falta o ar patético, que, obviamente, não está no figurino...
Talvez a Rainha Vermelha tenha sido a única a manter certa essência da original, repetindo sem cansar a sentença que marcou a personagem: “cortem-lhe a cabeça!”. Mas, no filme, ela rivaliza com a Rainha Branca, sua irmã... Adivinhem? Além de branca, boazinha, bonita e gentil.
Não é difícil resolver o enigma que é colocado logo no início: seria a mesma Alice que visitou, anos atrás, o País das Maravilhas, do qual nada se lembra? Não, não é a mesma Alice, o que, na verdade, como no livro, pouco importa, porque o País certamente também não é o mesmo! A personagem do filme volta ao “mundo real” mais confiante, insubmissa, pronta a lutar pelo que deseja – sim, não deixa de ser uma mensagem interessante para meninas. Mas o essencial no sonho da Alice de Lewis Carroll é que, assim como ela, suspendemos a realidade, com seus objetos, tempos, palavras, conceitos morais, cada um em seu devido lugar, e nos sentimos fusionados a todos eles – somos o sorriso cínico que permanece sem corpo, temos a pressa do coelho, somos patéticos como o Chapeleiro, tiranos como a rainha, trazemos em nós a lógica cruel de um tribunal, permanecemos repletos de dúvidas como meninas e meninos de qualquer idade. É esse rico jogo imaginário que se perde no diálogo proposto por Tim Burton com essa obra mais do que consagrada.
Filme de ação em que o bem vence o mal, em uma dualidade simplista, não vale nem como divertimento nem pelos efeitos especiais em 3D. O que salva é que a gente sai com vontade de ler o livro para voltar a se encantar com a história verdadeira...

Indicações:
Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll – Ed. Ática
Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll - contada por Ruy Castro – Ed. Companhia das Letrinhas.


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