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27/05/2010
Claudia Perrotta
Pra que tanta aula particular?

O Jornal Folha de S. Paulo de 09/05/2010 trouxe uma importante matéria sobre indicação de aulas particulares e outros apoios, política que há muito vem sendo adotada por escolas privadas renomadas.
A argumentação utilizada por coordenadores pedagógicos que indicam esse tipo de serviço é a seguinte: esgotados os recursos da escola para atender esses alunos que apresentam dificuldades, os pais são “apenas” orientados a “contatar psicólogos, psicopedagogos, fonoaudiólogos e professores particulares”.
De outro lado, temos a indignação de alguns familiares diante dessa “orientação”. Afinal, estamos falando de mensalidades em torno de 1500 reais: "É uma escola muito cara. E eu vou ter que pagar uma outra pessoa para ajudar meu filho a se organizar, a ter uma complementação? É incoerente", afirma uma das mães entrevistadas. Outra, que recebeu esse tipo de indicação já no terceiro mês do ano letivo, conta ter a sensação de que a escola está desistindo de seu filho: “Parece que as escolas só estão querendo ficar com os alunos que assegurem a elas um ótimo posicionamento no ranking no Enem".
A reportagem traz também falas de estudiosos da educação, para os quais a escola tem sim de "dar conta" do aprendizado, ajustando-se à heterogeneidade e às diferenças de ritmos de aprendizagem entre os alunos (Silvia Colello, professora de psicologia da educação da Faculdade de Educação da USP). Alertam também para uma questão ética: "Recomendar um professor particular e às vezes indicar esse próprio professor não é correto. Além de ser eticamente condenável" (Cesar Callegari presidente da Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação).
Por fim, temos a orientação do Procon para que, caso se sintam prejudicadas em seus direitos, os familiares recorram ao código de defesa do consumidor, segundo o qual o reforço escolar deve sim ser disponibilizado pela instituição particular, garantindo a prestação de um serviço com qualidade.
“Sugerir” um determinado profissional e/ou empresa que presta serviços de reforço escolar, ou mesmo oferecer um leque de opções, logo nos primeiros meses do ano letivo, é mesmo uma prática questionável que pode indicar uma dificuldade da escola em lidar com a diversidade dos alunos em termos de aprendizagem ou mesmo uma supervalorização de rankings tipo ENEM, que têm levado sim a um investimento nos “bons alunos”; ou seja, naqueles que podem colocar as escolas em boas posições. As aspas nos termos deste parágrafo se justificam pelas seguintes razões: “sugerir” é um eufemismo - na realidade, o que temos presenciado, com frequência, é muito mais uma imposição para a busca de especialistas e/ou professores particulares; e são considerados “bons alunos”, não raras vezes, aqueles que se submetem às tarefas escolares, o que não necessariamente se traduz em uma aprendizagem significativa.
Mas vamos aqui trazer mais uma questão a esse importante debate: o que esse tipo de indicação gera nas dinâmicas familiares, nas relações entre pais e filhos? E mais: como afeta a autoestima dos alunos? É cada vez mais comum recebermos em nossas clínicas crianças que vinham caminhando bem em seu processo de apropriação da linguagem escrita, por exemplo, mas que, por não corresponderem aos ideais de ritmo de aprendizagem, despertam desconfianças por parte dos profissionais da escola. Os pais são então chamados, recebem as indicações, por vezes, inclusive, para a área médica. Fragilizados, acabam se convencendo diante de um discurso persuasivo que faz uso de hermetismo e de termos técnicos, dificultando o diálogo e despotencializando os pais para exercerem suas funções. Esquecem esses profissionais da escola que só se justifica a indicação a especialistas quando há, de fato, um bloqueio no desenvolvimento e quando o ambiente familiar pode não estar atendendo às necessidades das crianças.
Não estamos aqui negando a pertinência de algumas indicações realizadas pelas escolas, no intuito de ajudar determinados alunos e também seus familiares. Mas é preciso discernir quando há sim a necessidade de um profissional qualificado, para lidar com certa inibição, ou insegurança excessiva e paralisante diante de seus potenciais, dificuldades de se colocar no grupo de colegas, de contribuir com ideias, e quando a “sugestão” de apoio extra serve apenas ao propósito de se manter bem posicionada no ranking das melhores, atraindo mais clientela com a falácia da “escola forte”.
O excesso de indicações a outros profissionais revela sim um problema, que, aliás, temos tratado com frequência aqui no site: a dificuldade de algumas escolas em lidar com a diversidade nos modos de aprender, levando a diagnósticos apressados, à medicalização na área da educação e à insegurança dos pais diante dos potenciais de desenvolvimento de suas crianças e adolescentes.
Então, pais, procurem sempre dialogar com os profissionais da escola de seu filho. Não aceitem, de imediato, indicações de apoios extras. Questionem, informem-se e busquem avaliar se sua escolha de escola, de fato, combina com o modo, com o estilo de seu filho aprender e se há disposição por parte dos educadores de lidar com as inúmeras e salutares diferenças dos alunos.


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