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01/04/2010
Jason Gomes
Politicamente correto para quem?

Recentemente, Rubem Alves publicou o texto “Linguagem politicamente correta” (Folha de São Paulo, cotidiano 16/03/10) em que aponta o quanto essa preocupação da atualidade se torna ridícula em certos casos, como no uso de “melhor idade” para se referir aos mais velhos. O autor afirma que todos sabem que a melhor idade é a juventude e questiona se não seria mais “bonito” ligar a velhice à ternura, chamando-a de idade terna.
A questão é que, há muito, procuramos palavras para amenizar o que aparentemente é inadequado de se dizer. Ora, não seria bonito um neto chamar seu avô carinhosamente de “meu velho”? Não há preconceito ou desrespeito no uso da palavra “velho”. Ao contrário, é justamente o seu uso, nesse contexto, que revela o respeito e a ternura entre avô e neto.
Se há algo que está posto é que as palavras estão intimamente ligadas ao contexto de produção. É fundamental considerar como, em que situação, de que forma, para quem foram ditas. Podemos, por exemplo, usar o termo afrodescendente com a mesma carga de preconceito associada ao termo negro, considerado hoje politicamente incorreto.
Ainda que a intenção seja justamente investir na ética e respeito no que se refere à diversidade, é preciso tomar cuidado para que o politicamente correto não extrapole o bom senso. O colunista Zé Simão, com seu humor habitual, mostrou o risco que corremos nesse sentido, sugerindo: pessoa verticalmente prejudicada para anão, e pessoa de porte avantajado para gordo.
Também a escritora Lya Luft (revista Veja, 27/03/2010) alertou para o problema, no que se refere às histórias e cantigas infantis, que, como bem disse, "alimentaram nossa fantasia e continuam a alimentar a das crianças que têm sorte, cujos pais e escolas lhes proporcionam contato cotidiano com esses livros". Há um movimento que propõe mudanças, distorções: Não se deve atirar o pau no gato, nem o lobo deve comer a vovozinha. O que seria dito do ogro que come crianças e do Pequeno Polegar, travesso e maldoso?
Rubem Alves tem razão, o politicamente correto pode soar ridículo. Principalmente quando se determina o que pode e o que não pode ser dito, ou o que é melhor, mais suave. E, voltando ao exemplo dos velhos, há um estigma social que relaciona a velhice a doenças, à dependência física, à improdutividade e à falta de função social. A sociedade não os respeita nem mais nem menos, nem acha melhor ou pior essa fase da vida por chamá-la de melhor idade.
Politicamente correto em relação à velhice é estabelecer políticas públicas e equipamentos sociais que possam modificar o imaginário popular e garantam a produtividade e o acesso aos espaços públicos a essa população e não, simplesmente, mudar como a chamamos.


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