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29/09/2011
Jason Gomes
Planeta dos Macacos: a origem

Rupert Wyatt

Planeta dos Macacos: a origem (Rise of the planet of the Apes – Ascensão do Planeta dos Macacos) traz de volta à tela dos cinemas um dos títulos de maior sucesso entre os anos 60 e 70.
Para quem não conhece, o filme original é uma adaptação do livro de Pierre Boulle “Planeta dos Macacos”, um clássico da ficção científica, que nos apresenta a história de um astronauta que, após problemas em uma missão, aterrissa em um planeta dominado por macacos que falam e escravizam humanos. O filme termina com uma cena clássica: após caminhar solitário por um longo campo, o astronauta se depara com ruínas da Estátua da Liberdade.
O atual filme dirigido por Rupert Wyatt se passa nos dias de hoje e apresenta uma explicação para a dominação do planeta pelos macacos. Will (James Franco) é um cientista que pesquisa o uso de um vírus para a cura do Alzheimer, doença de seu pai. Testes são realizados em macacos e o efeito do vírus no cérebro desses símios produz um incremento significativo de sua inteligência. Os testes caminhavam bem, até que “Olhos Brilhantes” (a macaca que apresentou ótimos resultados após efeito do vírus) é assassinada por seguranças por ter tido um ataque de fúria. A pesquisa é cancelada e todos os macacos envolvidos são sacrificados.
É aí que o personagem principal da ascensão dos macacos nos é apresentado: Cesar, o filhote que a macaca tentara proteger - por isso a fúria - e que foi gerado sob efeito do vírus. Tocado com a fragilidade do filhote, Will o leva escondido para casa. Basta pouco tempo para que o cientista perceba as capacidades incríveis de Cesar, muito além do desenvolvimento de um bebê humano, resultantes da ação dos experimentos com sua mãe.
A partir daí, o filme gira em torno de Cesar e seu incrível progresso: aquisição da língua de sinais, destreza no jogo de xadrez, realização de jogos lógicos com extrema facilidade. Mas o mais impressionante é sua capacidade de abstração que aparece em suas atitudes, reflexões e ações. Cesar é capaz de perceber que o pai de Will não sabe mais como usar os talheres à mesa e o ajuda com delicadeza.
Num momento em que entende que o velho está em perigo, envolve-se em um conflito que resulta em seu aprisionamento em um abrigo de símios. É lá que Cesar entra em contato com seus semelhantes e com o pior lado dos humanos, a arrogância e o menosprezo ao diferente.
Macaco burro é como passa a ser chamado pelos funcionários do abrigo que não percebem que Cesar tudo observa com atenção: mecanismo de fechamento das portas e janelas do local, dinâmica diária dos macacos, instrumentos usados para coibir os animais.
É na arrogância dos homens que Cesar encontra espaço para planejar e implicar seus semelhantes numa mobilização em busca da liberdade. Apesar de todos os sinais de organização dos símios, os humanos só se dão conta do que está acontecendo quando Cesar fala. Isso mesmo, o macaco fala. E sua primeira palavra é bastante emblemática. Mostra resistência, personalidade e defesa de sua condição de ser pensante: não. Palavra do símio que é repetida inúmeras vezes após Cesar retirar da mão do homem opressor a ferramenta/arma de controle.
Mas o que se segue ainda é a subestimação dos humanos em relação aos macacos: diante de suas estratégias em atingir seu habitat natural, a floresta das imensas sequóias, os humanos só agem na irracionalidade: a solução é o massacre de todos os macacos.
Como o filme termina deixamos para os leitores que ainda não o viram, mas o que queremos destacar é o fato de os humanos só darem conta da capacidade do macaco quando ele fala, isto é, quando faz uso de algo fundamentalmente humano. Antes disso, total descrença nas capacidades do símio.
Deixando a ficção de lado e pensando um pouco na maneira como os humanos lidaram com Cesar, não seria o mesmo o que acontece com as crianças que apresentam dificuldades na sua linguagem oral? É comum as atenções dos adultos se voltarem muito mais para o modo como a criança fala que para o conteúdo que ela deseja comunicar. Enquanto as palavras da criança não se encontram à semelhança das dos adultos, muito deles não consideram suas investidas como falante, nem suas outras capacidades. Afastam-nas das situações de comunicação, estigmatizando-as.
Menino burro também costuma ser o apelido de crianças que escrevem fora dos padrões esperados pelos adultos responsáveis. Enquanto a norma não é atingida, a capacidade da criança é mais dúvida que certeza. Quem sobrevive a tanta descrença?
Cesar fugiu para seu habitat natural e para onde fogem as crianças desacreditadas em suas capacidades?


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