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25/08/2011
Lucia Masini
Pelos quinze segundos de fama

Temos abordado aqui, em diferentes textos, as implicações da era digital. É fato que a internet e seus recursos tecnológicos estão transformando as relações sociais. O mundo e todas suas informações em tempo real, ao alcance dos dedos, estão mexendo e muito com as relações que estabelecemos com o outro. Por exemplo, estar fechado num lugar, diante do computador, mas, ao mesmo tempo, completamente solto no ciberespaço é algo vivido por grande parte da população mundial, sem que todos tenham a exata dimensão do que isso significa. As transformações evidenciam-se em toda parte, mas a que caminhos elas nos levam?
Vejamos a repercussão dos filmes caseiros que têm sido lançados na web.
Docentes de cursos de jornalismo são unânimes em dizer que a era digital muito beneficiou a produção de documentários. Hoje, um bom filme não ficcional não depende tanto de equipamentos sofisticados ou grandes verbas para sua realização e divulgação. A popularização das câmeras de vídeo e a facilidade de uso de ferramentas como o youtube.com revelaram novos talentos, na frente e atrás das câmeras. Improviso e precariedade amparados em uma boa ideia, em um olhar singular já renderam notoriedade a muitas pessoas, antes ilustres desconhecidos. Por vezes, algo inusitado, captado pela lente de um celular, ganha repercussão quase que imediata assim que é jogado na web. Isso é bom, é democrático, amplia as possibilidades de comunicação e veiculação das boas ideias.
Mas tamanha facilidade também leva a excessos. É impressionante o número de vídeos caseiros que exibem crianças em situações constrangedoras sob a falsa aparência de serem divertidas. Talvez embuídos do mesmo princípio das videocassetadas, da ideia de que rir de si mesmo ou das desgraças alheias traz leveza à vida, são inúmeros os pais que veiculam cenas cotidianas em que seus filhos aparecem, via de regra, em uma situação em que há um uso inusitado da linguagem que subverte o curso natural do diálogo e surpreende o interlocutor. De fato, existem registros muito bons e positivos desses momentos, que não expõem as crianças ao ridículo, como o dos bebês gêmeos conversando na cozinha (acesse). Mas há aqueles que preocupam pela falta de discernimento dos pais, na dada situação, do que fazer: filmar ou atender ao apelo do filho?
Comecemos com o caso já famoso David After Dentist, um garoto que é submetido a intervenção odontológica que necessitou de anestesia geral. Após o procedimento, já no carro, preso ao cinto de segurança, David, ainda sob o efeito da anestesia e visivelmente mal, questiona o pai se aquela era a vida real – Dad, is this real life? (acesse). Ainda que responda às questões do filho, o pai parece mais preocupado com a filmagem que está fazendo que com o modo como pode acolher a confusão mental do garoto. A veiculação na internet rendeu mais de 98 milhões de exibições, venda de camisetas com a inscrição Is this real life?, e a produção de outros vídeos de retornos ao dentista, já não tão inusitados quanto o primeiro. Na esteira desse “sucesso”, dois outros vídeos exibem crianças em pânico e, nestes casos, sem o acolhimento dos pais. Trata-se do vídeo do menino que chora copiosamente a morte de sua formiguinha, esmagada por seu irmão (acesse) e de um outro, também de um menino, que se aflige ao ver a boca de seu irmão menor suja de um líquido vermelho que ele confunde com sangue (acesse). Neste último, ante a impassividade do pai que filma e ri do seu desespero, o menino grita: Blood, it’s not funny (Sangue, isto não é engraçado!). No anterior, a mãe presente na situação apenas revozea o que a criança diz, talvez mais preocupada em fazer o público em potencial entender as palavras da criança que, aos prantos e transtornada, diz: "Não é pra matar a formiguinha, que dó, que dó, que dó".
Recentemente, no quadro das videocassetadas do Faustão, um pai deixou sua filha pequena bater a cabeça numa mesa de vidro (pois estava evidente que isso aconteceria), talvez só pra poder filmar e ter seus quinze segundos de aparição na TV.
A propagação da imagem a qualquer custo pode trazer consequências indesejáveis a médio prazo. Em nome da visibilidade por um número cada vez maior de pessoas estamos nos descuidando de nossos interlocutores mais próximos.
É urgente que a sociedade reflita sobre isso.


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