16 de Abril de 2021


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Para Esmé, com amor e sordidez

Claudia Perrotta
J. D. Salinger*

O que um rapaz de vinte e tantos anos pode querer com uma garota de 13? Eles não se conhecem, encontram-se casualmente em um local público - ela entra, ele a encara, ela se aproxima, senta-se perto do rapaz...
Calma, leitor, a sordidez que aparece no título não se refere a alguma possível crueldade cometida pelo rapaz contra a garota, como temos assistido com certa frequência nestes tempos de tantos crimes que têm crianças como alvos.
Estamos em 1944, na Inglaterra. O rapaz, um combatente americano, está em missão secreta. Neste dia, depois de se dedicar a escrever inúmeras cartas, como era seu costume, saiu do alojamento e foi caminhando sem objetivo, apenas para se distrair naquela terra estrangeira. Acabou então entrando em uma igreja e ficou assistindo à apresentação de um coral de crianças. Encantado com as “vozes melodiosas, em nada afetadas, um convite a levitar”, observou uma em particular: soava mais doce, firme e liderava as outras vozes, embora sua dona parecesse entediada com sua habilidade vocal.
Mas o encantamento não durou muito – ao fim da cantoria, a regente do coro começou a dissertar longamente sobre quais seriam os comportamentos adequados às crianças: “Alguém já ouviu falar de algum passarinhozinho que ouse cantar sua linda canção sem antes abrir o biquinho bem aberto?”; “Todas as criancinhas devem absorver o significado das palavras que cantam, e não apenas repeti-las como um papagaio”. Voz dissonante com os diminutivos de praxe usados pelos adultos quando se dirigem aos menores...
O rapaz resolve então se retirar, caminha mais um pouco, vai até uma casa de chá e lá permanece, lendo e relendo cartas de seus familiares. Até que justamente a garota que lhe chamou a atenção na igreja entra na sala junto com seu irmão de 5 anos e de uma senhora, certamente a governanta de ambos.
Eles trocam olhares - ela se aproxima, senta-se à mesa com o rapaz: “Pensava que os americanos detestassem chá” – foram as primeiras palavras que Esmé lhe dirigiu. A partir daí vamos sendo envolvidos em um jogo dialógico primoroso, por vezes desconcertante.
Esmé, como é comum nos contos de Salinger, é uma garota excepcionalmente inteligente e madura para a idade, embora mantenha a graça e inocência das meninas, ao menos dos anos 40. Isso exige que seu interlocutor se esforce por trazer temas interessantes para a conversa: “Você está frequentando aquela escola do serviço secreto, não é?”, ela pergunta, surpreendo o combatente, que tenta despistá-la, evitando revelar a missão bélica que o levara à Inglaterra. “Pois sim, eu não nasci ontem, sabia?”, Esmé retruca e a conversa entre eles continua a nos surpreender – há uma busca constante de afinação, ambos mostrando-se abertos para compartilhar impressões, fatos da vida cotidiana, mas nada que se torne enfadonho, extenso nem excessivamente sentimental, apesar dos revezes que cada um enfrenta. Há uma economia na maneira de abordá-los – o terreno comum a partir do qual se dá a troca entre eles se estabelece muito de imediato. É como se logo se reconhecessem, irmanados em suas percepções sobre as coisas da vida, ainda que inseridos em culturas diversas, com tarefas bem diferentes a realizar de acordo com suas idades. A guerra certamente os une, poderíamos pensar; ou, melhor dizendo, a maneira como são afetados por esse terrível acontecimento é que abre campo para uma cumplicidade imediata – a conversa dura pouco, mas afeta a ambos de tal forma que cada um passa a fazer parte da vida do outro. Eles se oferecem mutuamente um lugar dentro de si, de tal ordem e intensidade que ganha uma marca como lembrança/vivência de compreensão e solidariedade na dor, ocorridas no momento exato. É alimento para a alma.
E tudo isso ganha corpo na escrita.
Temos uma história que é contada em três tempos: no primeiro, resumido acima, o narrador se apresenta e compartilha com os leitores a lembrança que tem da garota Esmé, detalhando a maneira como se conheceram. Tudo isso motivado pelo convite de casamento que, no presente, recebe pelo correio da amiga, agora com 20 anos. A conversa entre eles termina com a troca de endereços para correspondência e um pedido de Esmé, depois de saber que, antes da guerra, o combatente era um “contista profissional”, ainda que sem qualquer escrito publicado: “Ficaria muito grata se você algum dia escrevesse um conto exclusivamente para mim. Basta que não seja um conto bobo e infantil. Prefiro histórias sobre sordidez e sofrimento. Você tem alguma experiência pessoal da miséria humana?”. Por fim, ela diz: “Espero que você saia da guerra com suas faculdades mentais intactas”.
E é esse conto que conhecemos no segundo tempo da história, a “parte sórdida ou comovente”. O contraste em relação ao primeiro tempo é evidente – nada de terreno comum, cumplicidade, troca. O “diálogo” se dá entre dois combatentes americanos, “companheiros” em várias campanhas militares, algumas semanas depois do Dia D, da vitória contra as tropas alemãs – ou seja, não só pertenciam ao mesmo contexto cultural, mas viveram juntos o sofrimento da guerra, tendo também a mesma idade. Isso, porém, nada garante. Um deles não saíra dos combates “com todas as faculdades mentais intactas”..., enquanto o outro estava mais preocupado com souvenires de guerra e programas musicais de rádio. Impossível para o segundo alcançar a profundidade do sofrimento do primeiro – tremores, dores da cabeça aos pés, cabelos sujos e empoeirados e sempre com aquela sensação de que sua mente “se deslocava e ficava balançando como bagagem em um porta-malas”. X, designação que recebe no conto, tinha consciência agora de que a vida é um inferno – “O que é o inferno? Sustento que é a dor de não poder amar”. Nem mesmo as cartas a que tanto se dedicou com afinco durante toda a guerra faziam sentido... Resta-lhe a ironia, o sarcasmo como formas de defesa em um ambiente tão hostil ao que é humano - ao contrário do encontro com Esmé, não há comunicação possível entre estes dois interlocutores.
Finalmente, temos o terceiro tempo da história: trata-se, na verdade, de uma mistura de passado e presente – a identidade de X nos é revelada e ele passa a falar diretamente com Esmé. É pela carta dela, lembrança do encontro genuíno que viveram, que nosso combatente/narrador consegue voltar a ter esperança: “Tenho pensado frequentemente em você e na tarde agradabilíssima que passamos juntos no dia 30 de abril de 1944, entre 3h45 e 4h15, caso você tenha esquecido” – não , ele não se esquecera, nem da tarde, nem do relógio de pulso “de feitio militar, grande demais para pulso tão fino”, que Esmé lhe enviava, como um “talismã de boa sorte”.
O que queremos destacar neste conto de Salinger, entre inúmeros outros aspectos, é principalmente esse contraste entre as "falas" das personagens: temos a forma estereotipada como os adultos se dirigirem às crianças, sempre impondo padrões de comportamentos a serem seguidos; temos também os vários ruídos que surgem no diálogo entre iguais que, embora tenham vivido situações semelhantes, não partilham as mesmas percepções e entendimentos, sendo afetados pelo inferno da guerra de maneiras díspares, dificultando a troca e o compartilhar de experiências.
E como uma ilha em um oceano de tantos descompassos e sordidez, surge a conversa entre Esmé e o rapaz combatente, na verdade um escritor – “extremamente solitário e de rosto muito sensível”, nas palavras da garota. O que temos entre eles é uma troca a partir do idioma pessoal de cada um (1) – há confiança, harmonia de vozes, reconhecimento mútuo de gestos, escuta a partir do lugar em que os interlocutores se encontram, sem imposições de modos de ver ou sentir, uma verdadeira abertura em que um é afetado pelo outro, pelo modo de ser de cada um, por suas questões e projetos de futuro. Operam-se transformações essenciais e genuínas a partir do encontro.
Pensando no contexto clínico, será que temos conseguido estabelecer diálogos dessa natureza com nossos pacientes? Ou, na pressa de fechar diagnósticos, emitir pareceres, aplicar técnicas e confirmar teorias temos mais imposto nossa autoridade em detrimento de uma verdadeira escuta das angústias e questões daqueles que nos procuram com um pedido de ajuda? Temos, de fato, essa disposição para o encontro, estamos nos permitindo ser afetados pelas crianças e adolescentes que atendemos? Afinal, que língua falamos com eles?
Salinger nos coloca diante essas coisas que continuamos buscando em nossas relações, apesar dos disfarces, apesar de tantas vezes nos deixarmos levar pelo anseio de persuadir e exercer poder sobre o outro.
É linguagem que salva, coloca o sofrimento em trânsito, aponta caminhos de recuperação diante do caos e de faculdades mentais afetadas pelo horror, pela face infernal da vida.
Precisamos de testemunhas que se disponham a ensaiar contornos e sentidos para a dor. Só assim ela pode se tornar s-u-p-o-r-t-á-v-e-l.

(1) Idioma pessoal é conceito formulado por Safra (in “A pó-ética na clínica contemporânea”, 2004, www.sobornost.com.br). Diz o autor: “... o idioma pessoal aparece na maneira de ser do indivíduo, em seu discurso, em seu gesto, nas coisas que ele colhe para compor seu ambiente, na maneira como ele constitui seu percurso de vida. [Conversar com a pessoa em seu idioma pessoal] significa a possibilidade de se compreender a maneira como formula as grandes questões da existência, o modo peculiar que ela tem de portar seu sofrimento e a maneira como sonha seu porvir” (p. 116).

Para ler mais sobre Salinger clique aqui


*J.D.Salinger, in Nove Estórias, Editora do Autor, 1948-1953


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