16 de Abril de 2021


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Palavras de amor, ou o dom de consertar o que se partiu

Claudia Perrotta

Bee Season ou Palavras de amor é um filme americano lançado em 2005, dirigido por Scott McGehee e David Siegel, baseado no livro de Myla Goldberg.
Traz no elenco Juliette Binoche (Mirian) e Richard Gere (Saul), que interpretam os pais de Eliza, uma garota de 11 anos, e de Aaron, um adolescente com não mais de 17.
Logo de início, somos apresentados a uma família que vive em harmonia, unida, com crianças compenetradas que se dedicam ao estudo de forma exemplar, e um pai que foge à regra: além de cotidianamente preparar as refeições da família, ritual que cumpre com alegria e prazer, acompanha bem de perto e com empolgação o desenvolvimento dos filhos, em especial seus talentos artísticos. Aaron toca violoncelo e Elly surpreende a todos com um dom especial para soletrar palavras, exercício popular em várias regiões dos EUA, que inclusive promove inúmeros concursos nacionais para estudantes.
Só que toda essa dedicação paterna tem um preço: os filhos são de alguma forma pressionados a corresponder aos ideias e às crenças religiosas de Saul, que não necessariamente estão em consonância com o que desejam viver. Longe de ser um algoz, como os pais do filme Magnólia, o poder que o pai de Bee Season exerce sobre todos é mais sutil, aproximando-o dos pais de Vitus (já comentado aqui no site): ele transborda vivacidade, é um homem envolvente, vai fundo em seu objeto de estudo – cabala hebraica, tikkun olan, que seria o conserto do mundo, uma tarefa atribuída por Deus aos homens, que teriam de juntar as peças de um vaso que fora quebrado pelo excesso de luz divina:
Qualquer ato de bondade, altruísmo, gentileza que ajude essa ideia é considerado tikkun olan; é algo extraordinário e é responsabilidade de todos tentar consertar o que se partiu.
O brilhantismo das palavras de Saul, a verdade de suas convicções contaminam, apesar do ceticismo de alguns. Sua intelectualidade se realiza na sala de aula da universidade, nas teses que defende, e também no escritório que mantém em casa, lugar sagrado, respeitado e temido pelos filhos, que nele desejam penetrar para além do batente da porta e ganhar o amor e reconhecimento do pai. No início, Aaron tem seu lugar garantido, mas depois perde esse espaço, que é então conquistado por Elly, que vai sendo preparada pelo pai, orgulhoso do sucesso da filha, para o concurso nacional de soletrar palavras. Mirian assiste a tudo, se sensibiliza com o sofrimento de Aaron quando deixa de ser o filho querido e preocupa-se com excesso de expectativas depositadas em Elly, mas se fecha em sua angústia, também se submetendo aos ideias e convicções de Saul. Afinal, todos deveriam seguir buscando formas de realizar o tikkun olan, juntar os pedaços do vaso quebrado, para que ele volte a conter a essência luminosa e divina.
Toda essa situação, ou dinâmica familiar, como costumamos denominar, poderia perdurar ainda por muito tempo, ou mesmo jamais ser revelada ou dita com todas as letras, como é comum em tantas famílias, que vão então encontrando formas de manter as aparências, encobrindo dores e ressentimentos que acabam por se constituir em legados transgeracionais, com consequências muitas vezes bastante avassaladoras para as novas gerações. Mas filmes nem sempre imitam a vida. E este tem uma heroína, Elly, que, destemida, ousa ir além de si mesma para revelar segredos...
"Meu pai me disse uma vez que letras e palavras guardam todos os segredos do universo, que em seus sons e formas eu poderia encontrar tudo, e ir além de mim mesma, a um lugar especial e perfeito. Meu pai me disse que eu poderia chegar aos ouvidos de Deus".
Elly leva esse projeto a sério, tanto que, diante de plateias cada vez mais numerosas, pois ganha vários concursos até chegar ao nacional, nos momentos em que começa a soletrar palavras, entra numa espécie de transe: as letras se movimentam e se iluminam ao seu redor, transcendem a significação porque, paradoxalmente, tomam corpo, se materializam. Pelas palavras ir além das palavras. É uma viagem, com todos os seus prazeres e riscos...
- Quando tenta soletrar uma palavra, quando fecha os olhos, o que acontece com você? – pergunta Mirian, quando presenteia a filha com um caleidoscópio – adoro o jeito como ele prende a luz, revela.
- Eu primeiro a ouço na minha cabeça, na voz de quem a pronunciou. Aí a voz muda e se torna outra coisa. A voz da palavra. Então eu posso vê-la.
Também a mãe tem seus momentos de fechar os olhos, o que significa abrir-se para outra dimensão, ou deixar-se penetrar por outra luz, para a possibilidade de criar algo genuíno, a partir de si, da própria história, de suas inquietações e segredos. E é essa busca que a distancia de Saul, justamente quem a apresentou ao conceito de tikkun olan. No momento em que nos é revelado o segredo que leva Mirian a sempre voltar muito tarde para casa, ela rompe a submissão e o confronta:
"Você me mostrou como consertar o que se partiu, como prender a luz. Eu fiz um poema, achei que entenderia, mas você não compreende. Você adora falar, falar de coisas que não vêm do seu coração. Você fala, fala e fala, mas são só metáforas, são palavras vazias".
Preso a conceitos, Saul esperava que a filha realizasse o que ele jamais poderia alcançar. Mas vencer concursos, submeter-se às projeções alheias seriam formas de chegar aos ouvidos de Deus? Que palavra é essa que não potencializa ou revela algo de si e nem possibilita o encontro com o outro? Que não abre campo de interlocução e nem busca um terreno comum de existência? Sua obsessão pelas palavras revela-se de fato vazia, excesso de luz que pode cegar. Reflexão importante que sempre devem fazer os profissionais que lidam com a linguagem no cotidiano de seu trabalho: quantas vezes a utilizamos apenas para exibir conhecimento, domínio de teorias, explicações e interpretações, o que nos distancia daqueles que nos procuram justamente para um reencontro com uma palavra mais genuína, que ganha materialidade a partir das próprias necessidades e inquietações?
No final do filme, tendo a mãe como testemunha, Elly nos surpreende então com uma verdadeira forma de realizar tikkun olan, dom que talvez pertença às crianças e aos artistas.


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