16 de Abril de 2021


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Palavra, gesto, revelação

texto poético: Silvio Barini Pinto
comentário: Claudia Perrotta

Na seção Linguagem com Pipoca vimos as várias faces da morte ganharem contornos no filme A Partida. Em Na Boca do Povo mostramos como o gênero biografia, que ganhou espaço na esfera jornalística, pode contribuir para a elaboração do luto, assim como os rituais de despedida que marcam cada cultura. Destacamos também a importância de falar das pessoas que se foram, como forma de mantê-las vivas, reconhecendo sua importância em nossa história. E, aqui, nesta seção, temos um escrito poético que traz o mesmo tema.
Queremos chamar a atenção do leitor para a forma como as palavras vão se movimentando neste texto, como elas foram compostas, todo o cuidado do autor em abordar tema tão delicado, em compartilhar uma experiência que iguala a todos, permitindo uma comunicação própria do registro poético - uma comunicação silenciosa, por mais paradoxal que isso possa parecer.
Para penetrar neste escrito, e por ele se deixar reverberar, é preciso dispor-se a escutar tudo o que silencia, escapa, tudo que não alcança significação - não é pensamento que vigia o devaneio, não é preceito moral, não quer ensinar nada. Talvez seja apenas um gesto em busca de testemunhas para a dor da perda. Infelizmente, cada vez encontramos menos quem possa nos acompanhar em momentos como esse, de profundo desamparo... O tempo do luto vai sendo abreviado, terceirizamos rituais, usamos a tecnologia para estender a sobrevivência ou para afastar a proximidade da morte de nosso cotidiano. E quando ela chega, logo somos chamados a sair do recolhimento e voltar a sorrir.
Mas uma forma de resistir é justamente esta: jogar com as palavras, dar feição e contorno ao que se sente, trabalhar até que fiquem justas, na medida de nossas dores, sem pretender curá-las, apenas colocá-las em movimento, para assim seguir adiante.
Permanecer em trânsito, banhar de subjetividade esse momento que nos fere com a concretude de um corpo inerte, pálido, abre campo para a criação, para o brincar, aqui entendido como possibilidade de materializar em um texto uma experiência que foi vivida em estado de suspensão, entre a realidade compartilhada com os outros e nossa visão pessoal, nossa história, repertórios e impressões.
Estamos diante de um escrito-revelação, porque usa e abusa disso que é patrimônio comum, a escrita, e subverte, desconstrói, encanta e faz o corpo reverberar na palavra.
Boa leitura.

"Ele estava um pouco pálido, mas sua expressão deixava dúvida. Sempre foi difícil saber quando se punha sério ou brincava – jeito que ele me passou sem eu pedir. Fiquei ali ao lado esperando ainda que abrisse um olho, desse uma piscada e me chamasse à cumplicidade para mais uma das peças que gostava de pregar em todo mundo. Aos poucos, vi que só eu ainda alimentava um sorriso ali ao seu lado. Alguns me batiam nas costas, me abraçavam, insistiam em me dar a mão e, um tanto sem jeito, dizer coisas que ainda hoje nem sei quais foram, por mais que viessem de gente sincera, a quem eu gosto de dar atenção. Aquele momento era só nosso. Meu e dele. Poucas vezes experimentei tamanha união entre nós. A paz era profunda. Ao silêncio já estávamos acostumados. Ele, sem querer, me ensinou a desfrutar em silêncio a companhia dos queridos. Lembro de ter assistido a uma não-conversa com seu melhor amigo que durou mais de hora. Eles se entendiam, se comunicavam sem palavras. Depois levantaram de suas poltronas, se abraçaram felizes e satisfeitos com o encontro. Também me agrada essa forma de estar com pessoas muito íntimas. Dispenso as palavras. Assim parece que fico livre de artifícios. De alma nua. Uma plenitude. Foi assim também naquele dia. Eu quieto e ele calado. Apenas um pouco pálido. Continuei esperando o sorriso de canto de boca, a piscadela... e nada! Só sua alma se comunicava com a minha. Depois nos separamos. Digo, ele foi levado a se separar de mim. Se deixassem, nós ainda estaríamos lá. Antes de ele ir eu lhe beijei a testa e a mão pedindo sua benção como na infância eu fazia antes de dormir. Daí eu chorei... choro profundo e doído. Me quis judeu que rasga a roupa quando perde alguém. Era o que sentia, a perda desse pai havia me rasgado. Triste e zangado com o mundo, eu acho, saí caminhando por horas. Os olhos embaçados obrigavam a me esforçar para distinguir pessoas e lugares. De repente, vejo claro e me pego sorrindo com a palhaçada de uma criança que insistia em me chamar a atenção. Estranhei meu riso quase alegre no meio da tristeza sem consolo. Não, não estava começando a esquecer do pai que acabava de me deixar. Não estava traindo a memória que desejo tanto que dure. Apenas estava me recuperando do choque. A falta do pai será para a vida toda. Mas para viver com essa ausência é preciso lembrar dela sempre, mas aos poucos... Só assim é suportável. Ainda hoje, de vez em quando choro. Depois mudo de lembrança para poder brincar e rir também".
Silvio Barini Pinto


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