15 de Dezembro de 2018


     Fale conosco     Fale conosco
 
ProfissionalProfissional
GeralGeral
ConsultoriaConsultoria
HomeHome
NósNós
Na Boca do PovoNa Boca do Povo
Linguagem com PipocaLinguagem com Pipoca
Mito ou VerdadeMito ou Verdade
PublicaçõesPublicações

08/10/2009
Lucia Masini
P vc ou para você, dependendo de onde for

Kd vc? intaum qria dize q foi so nu finalzibnho do ano q nos conheçemos...
Este é um típico texto encontrado em sites de relacionamento da internet. Uma escrita oralizada, com grafia peculiar e, ainda, acréscimos ou troca de letras, que poderíamos até considerar como erros ortográficos, mas que não comprometem a comunicação: na web, todos que assim escrevem ou leem garantem que se entendem.
Ler este tipo de texto requer habilidade, melhor dizer, uma aprendizagem. Faz parte do letramento digital.
Há quem fique muito preocupado com o avanço desta escrita nos meios digitais e consequente recuo do uso da ortografia. Será que as crianças e jovens desaprenderão a escrever corretamente ou, num cenário mais pessimista, será que aprenderão a escrever correto um dia?
Há muitos educadores e pais apreensivos com essa questão. Mas ela não é a central. A preocupação não deve focar apenas o como a criança e o jovem escrevem, mas sim um combinado de perguntas: como se escreve, o quê, onde, para quem, com que finalidade? E por que isso?
Vejamos o próximo texto:
Eu sei que vc deve estar ultra ocupado com seus novos melhores amigos da faculdade, fazendo peças, gravando textos no ipod, escrevendo livros, etc... Mas eu adoraria que vc pudesse reservar uma parcela de seu tempo para amizades de longa data como a minha... Grato.
Ortografia assimilada, poucas abreviações já convencionalmente aceitas, texto conciso e bem escrito, em que é possível observar, inclusive, certa ironia contida na mensagem, obtida, em particular, pela escolha das palavras. O curioso a se observar é que este texto foi produzido pelo mesmo autor do primeiro aqui exposto e divulgado no mesmo site de relacionamento.
É certo que algum tempo separa os dois textos, e isso só vem a tranquilizar pais e educadores apreensivos: sim, as crianças aprendem a escrever correto um dia. Mas esta, de novo, não é a questão principal. O fundamental aqui é compreender que a escrita de todo e qualquer texto está relacionada às suas condições de produção. Para quem o texto é dirigido, com qual finalidade, em que momento?
O primeiro foi escrito para uma amiga de classe, fim do ensino fundamental, um início de mensagem de afirmação de amizade. Ali, no momento da afirmação, não havia disputa, nem diferenças entre os interlocutores, dois amigos na mesma situação, o que leva à escrita de um texto mais informal, menos preocupado com convenções formais do uso da língua e mais com as convenções particulares definidas pelo grupo que partilha as informações.
O segundo foi escrito para um amigo de longa data que entrou na faculdade e estaria um tanto afastado dos velhos companheiros do colégio. O tom de reclamação se evidencia na formalidade do texto que explicita, inclusive, certa hierarquia entre os interlocutores: o amigo ‘mais letrado’ por estar numa determinada faculdade, com novos amigos igualmente letrados e voltados para interesses mais nobres que os vividos anteriormente, na época do ensino médio. Para marcar estranhamento em relação ao amigo, a escolha foi abandonar convenções particulares e valer-se das formais, ainda que o tom seja irônico.
E o autor de ambas mostra que sabe transitar bem entre os dois pólos, de acordo com a exigência da ocasião. E é aí que reside a questão fundamental. Não se trata de proibir o uso da internet e forçar a leitura de um clássico, para que o jovem aprenda a escrever bem. A vida está repleta de situações letradas que exigem posturas, capacidades e conhecimentos diversos das pessoas. A educação formal tem de abarcar todas essas situações de modo que os estudantes sintam interesse, necessidade e gosto por aprender. Só assim deixaremos de nos arrepiar com qualquer transformação no uso da língua, sabendo que ela sempre vem a somar e a enriquecer nossas já variadas formas de expressão.

Para saber mais sobre gêneros discursivos, clique aqui


Voltar

Compartilhe: