6 de Dezembro de 2019


     Fale conosco     Fale conosco
 
ProfissionalProfissional
GeralGeral
ConsultoriaConsultoria
HomeHome
BibliotecaBiblioteca
ReflexõesReflexões

O transitar entre objetividade e subjetividade

Ponte para Terabithia
Claudia Perrotta

Poderíamos iniciar destacando um dos temas centrais: o bulling ou bullying - palavra inglesa usada com o sentido de zoar, tiranizar, humilhar, isolar, perseguir, discriminar, colocar apelidos maldosos. Fenômeno contemporâneo cantado em verso e prosa está longe de ser extinto, em especial no ambiente escolar. O filme trata o tema de forma bastante sensível e pertinente, mostrando que nem mesmo os algozes de hoje estão livres de se tornar vítimas no futuro. Até porque estas, embora sejam verdadeiros heróis no filme, também executam engenhosos planos de vingança.
Mas não é exatamente esse o aspecto que queremos abordar aqui, e sim como os dois protagonistas, Jesse e Leslie, interpretados por Josh Hutcherson, de ABC do Amor e Zathura - Uma Aventura Espacial, e AnnaSophia Robb, a Violet de A Fantástica Fábrica de Chocolates, lidam com a humilhação que sofrem de seus colegas e a aliança que estabelecem para se fortalecer.
Queremos falar de imaginação, sonho, do brincar, dos riscos e das possibilidades do viver criativo.



A aliança entre Leslie e Jesse

Quem faz a proposta de aliança é Leslie. Recém-chegada na escola, logo se identifica e se afeiçoa a Jesse – ambos são chamados de esquisitinhos. Ele por ser tímido, morar no campo e não no centro da cidade, o caipira da classe, vindo de uma família que enfrenta grandes dificuldades financeiras para sustentar os cinco filhos; além disso, ele é um grande desenhista, “coisa de menina”... E ela, menina rica, filha de escritores profissionais, por se vestir de um modo exótico, ser mais intelectualizada, escrever muitíssimo bem e não ter televisão em casa.
O que os une é o prazer de correr – no início competem, Leslie ganha, e Jesse, antes sempre um vencedor nas corridas, se vê perdendo sua única possibilidade de se diferenciar de forma positiva no grupo de alunos. Depois, correm livremente pelos campos, simplesmente pelo prazer do movimento, de sentirem, juntos, o vento nos cabelos, o coração bater disparado, de desafiarem os próprios limites. Em uma dessas corridas, chegam a uma parte desabitada da floresta vizinha às suas casas, e nela encontram uma grossa corda, com nós, sobre um riacho. Jesse “não bota fé” na firmeza da corda, mas Leslie logo se pendura, dá um impulso e fica lá, balançando-se. Jesse teme fazer o mesmo, mas acaba tentando. Ambos se soltam cada vez mais, enroscam firmemente mãos e pernas na corda, e deixam a cabeça solta pra trás, olhando para o céu, “é como voar”, diz ela.
Mas Leslie vai além. E faz o convite:
- Precisamos de um lugar só nosso, que não tenha nenhuma Janice ou Scott [colegas que encabeçavam as humilhações, “líderes do mal”]. Um lugar que não seja meramente fora da escola.
Jesse não está muito convencido...
- Mas quando voltarmos à escola, eles estarão a nossa espera...
Leslie insiste:
- E se houver um reino mágico que só nós conhecemos? E se só nós pudermos entrar nele balançando nessa corda encantada? Vamos!
Leslie dá, então, um impulso mais intenso e passa para o outro lado do riacho. Jesse se assusta, mas decide seguir a amiga, que já está adiante, na floresta.
As árvores são imponentes, o vento sopra forte, o fundo musical anuncia perigo - o lugar é deserto, e é por isto justamente que atrai e amedronta. Jesse logo apanha um galho para se proteger, vai caminhando com cautela, chamando por Leslie. Ela demora a aparecer, está escondida atrás de uma árvore, diverte-se com o medo dele e vai adiante, destemida, sempre convidando o amigo a acompanhá-la. “Não devíamos estar aqui, não é nosso lugar!”, ele adverte, mas Leslie o ignora e vai buscando elementos para compor seu universo, atribuindo significado aos sons, aos objetos, aos animais: a casa abandonada no alto de uma árvore vira a ruína de uma grande fortaleza, cujos donos foram aprisionados por um inimigo comum, Mestre das Trevas; as libélulas se transformam em aliados, guerreiros que irão ajudá-los em sua missão heróica: “Você e eu fomos enviados para libertá-los!”. Mas Jesse resiste:
- Não conheço essa brincadeira...
- Brincadeira? Que brincadeira? É de verdade, é real!
De fato, assim como Jesse, já havíamos conhecido a capacidade de inventar de Leslie um pouco antes, em uma redação que lera para os colegas de classe, cujo título era: “Aparelho autônomo para respiração subaquática”. A professora havia se encantado com o emprego de adjetivos, com o repertório da garota e com a descrição minuciosa da sensação que vivera ao mergulhar - o mundo lá embaixo, silencioso, as bolhas de ar subindo para “o lugar de onde vim e para onde vou voltar depois. Não tenho tempo para ver tudo – escreve Leslie – mas é isso justamente que torna a experiência tão especial”... E assim como Jesse, ficamos sabendo que tudo “não passara de imaginação”...
- Você já viu um tubarão enquanto mergulhava?
- Eu nunca mergulhei!
- Então o que escreveu era tudo mentira?
- Não, eu inventei, e inventar é diferente de mentir.

Caixa de ferramentas e caixa de brinquedos

Reino mágico, invenção, mentira em contraposição ao que pensamos ser realidade, verdade. Ou onipotência em contraposição à impotência. Temos ainda esperança de vencer, de superar dificuldades e a desesperança de mudar alguma coisa, de encontrar a felicidade ou simplesmente ser visto, reconhecido pelos outros. Leslie encarna o primeiro elemento e Jesse, em grande parte do tempo, o segundo.
Ela é a coragem em pessoa, destemida, vivaz, olhar vibrante. Ele é um garoto visivelmente triste, se fragiliza diante das humilhações, sofre as conseqüências das dificuldades financeiras enfrentadas pela família, oscila entre se entregar à força da inventividade da amiga e manter os pés assentados na terra. Sua única saída é o caderno de desenhos, os personagens que nele cria, mas, mesmo assim, espera um reconhecimento que nunca chega, em especial por parte do pai. Em certo momento, este lhe diz: “Seja útil e desenhe dinheiro!”.
Mas desenhar não é e nem pode se tornar útil. Rubem Alves escreveu sobre isso no interessante texto “A Caixa de Brinquedos”, contrapondo a ordem do “UTI” à do “FRUI”. A primeira seria o lugar do poder, dos utensílios e ferramentas inventados para aumentar o poder do corpo; enquanto a segunda diz respeito ao amor, às coisas que não são utilizadas, não servem pra nada, são inúteis, mas por isso mesmo mais valiosas. Baseando-se no pensamento de Santo Agostinho, Rubem Alves argumenta que as coisas da caixa de ferramentas, do poder, são meios de vida, necessários para a sobrevivência, mas não nos dão razões para viver, são apenas chaves para uma outra caixa, que Alves denominou caixa de brinquedos: “arte e brinquedo são a mesma coisa, atividades inúteis que dão prazer e alegria. Poesia, música, pintura, escultura, dança, teatro, culinária são brincadeiras que inventamos para que o corpo encontre felicidade, ainda que em breves momentos de distração” (Alves, 2004). Podemos ir além: arte e brinquedo nos constituem como pessoas. Mas vamos explorar essa idéia mais adiante.
Será que Leslie e Jesse estavam mesmo construindo suas caixas de brinquedos? E estariam eles afinados em suas buscas?

Sonho de futuro

Eles buscavam um lugar paradisíaco, que os fortalecesse para encontrarem formas de lidar com dificuldades, com a crueldade. Buscavam a liberdade. Esse lugar lhes possibilitava a experiência de unidade, de cumplicidade, terreno firme a partir do qual poderiam ir adiante; nele, suas necessidades, anseios eram atendidos, eles viviam a ilusão, necessária e saudável, de que o mundo poderia estar sob seu controle mágico, não escapava das mãos.
Mas por que estaríamos aqui qualificando ilusão como saudável e necessária? Afinal, essa palavra nos remete a engano, erro de interpretação, percepção deformada... ilusão de ótica, por exemplo. Vejamos.
Todos os dias, logo que voltavam da escola, Jesse e Leslie mandavam a irmã menor de Jesse para casa e juntos atravessavam o riacho, balançando-se na corda encantada. Equipavam a casa da árvore, reconstruíam as ruínas, criavam novos personagens e continuavam vencendo os inimigos imaginários, mas que eram bem reais. Isso porque eles reproduziam as humilhações que sofriam na escola, ou “o detector de perdedores” zunindo nos ouvidos de Jesse, ou se transformavam em figuras da família, ou ainda incorporavam sentimentos que viviam junto aos familiares – Jesse se sentia desprezado pelo pai e também pelas irmãs mais velhas; ou seja, o bulling já começava em casa. E Leslie, filha única de pais escritores, intelectualizados, nem sempre recebia a atenção e o cuidado de que necessitava: “Não quero ser uma réplica dos meus pais”.
Leslie nunca titubeava, não tinha dúvidas de que Terabithia era o caminho. Onipotente, dizia:
- Aqui podemos fazer qualquer coisa!
Jesse por vezes incorporava a figura do herói corajoso, em outras buscava o registro da realidade:
- Não é um troll gigante, é um árvore gigante que quase nos matou! - disse certa vez após uma árvore seca ter caído sobre a casa em ruínas.
Mas Leslie não desistia:
- Governamos Terabhitia e nada vai nos destruir!
Para ela, bastava fechar os olhos e deixar a “mente bem aberta” para que visse o que queria ver. Mas Jesse talvez não visse exatamente o que Leslie via...
E assim, habitando o mesmo lugar, mas criando imagens diferentes a partir de suas necessidades, unidos, ambos de fato se fortaleceram diante do grupo. Chegaram até a planejar e colocar em prática uma engenhosa vingança contra Janice, conectando-se com o lado da maldade, da crueldade do mundo, com as trevas.
Tudo isso indicava que Terabithia ofertava-lhes uma experiência compartilhada, a partir da qual podiam experimentar ser eles mesmos. Ou seja, uma ilusão que contribuía para que se constituíssem como pessoas. Não se tratava, pois, de um engano, de uma ilusão de ótica..., e sim de um gesto que rompe com o estabelecido, com as coisas que nossos olhos se habituam a ver, de criar o novo, tendo o si mesmo, as próprias inquietações e questões como referência.
Mas é na aula de música que Jesse dá um passo maior rumo ao seu fortalecimento, ou gesto criativo. Atraído pela professora, começa a cantar a música (Someday) que repete a temática do filme, fuga e retomada da esperança: “Um dia vou me libertar, uma forma melhor deve haver. O que há atrás daquele arco-íris, eu quero saber. Daqui, um dia, eu vou me mandar... As coisas vão melhorar, vão ficar mais fáceis. Vamos juntar as partes e montar, quando sua cabeça bem leve ficar...”.
E é essa professora que descobre o talento de Jesse para o desenho e o convida para acompanhá-la em uma exposição. Lá, apresenta-o a artistas renomados, dizendo: “eles podem ter começado como você, com um caderno de desenhos”.
Finalmente, Jesse é colocado em sintonia com um universo cultural, uma ponte lhe é oferecida - ele faz parte do mundo, de uma comunidade, não é um outsider, um esquisitinho, é um artista, tem futuro, pode ser integrado à realidade compartilhada sem se submeter a humilhações, sem abandonar seus desenhos, seus projetos. A professora lhe diz: “uma mente aberta como a sua pode criar um mundo novo!”.
E quanto à Leslie? Continua destemida. E enquanto Jesse está na exposição, arrisca-se mais uma vez na corda sobre o riacho. Já há algum tempo vinha chovendo forte na região, e o riacho foi se transformando, transbordando. Mas Terabithia não pode ficar sem sua rainha, a heroína que nunca será vencida, e além do mais, a corda jamais arrebentaria, pois não se tratava de uma corda qualquer...
Dessa vez, porém, o criar trouxe uma outra ruptura, e Leslie não volta à superfície, não volta para o lugar de onde veio. Interrompe precocemente suas possibilidades de explorar as profundezas, vendo uma coisa de cada vez.


Trânsito entre objetividade e subjetividade: o lugar da cultura

Agora era fatal
Que o faz-de-conta terminasse assim
Pra lá deste quintal
Era uma noite que não tem mais fim.
Pois você sumiu no mundo
Sem me avisar
E agora eu era um louco a perguntar
O que é que a vida vai fazer de mim.
(João e Maria, Sivuca e Chico Buarque/1977)


O tema do filme é mesmo complexo, com inúmeras facetas e possibilidades de olhares.
Vamos retomar então a imagem da caixa de brinquedos, de Rubem Alves
O que será que nossos personagens traziam em suas caixas de brinquedos?
Jesse: lápis de cor, caderno de desenhos. A amiga Leslie, devotada, foi a única a lembrar de presenteá-lo, no dia do aniversário dele, com uma caixa de tintas, caríssima, de qualidade, como se dissesse ao amigo: “acredito, confio em sua capacidade de ser criativo. Eis aqui instrumentos para que você se desenvolva, para que mostre ao mundo seu talento”.
Leslie: lápis grafite, caderno pautado. A redação de Leslie apresenta o tema de sua existência, por meio de seu idioma pessoal (termo utilizado por Safra em suas reflexões). A metáfora do mergulho nas profundezas do mar é apresentativa: Leslie ia fundo - nesse silêncio da alma, na solidão, recolhia matéria-prima, elementos para suas invenções, mas tinha a esperança de voltar. E quando voltava, buscava instrumentos que lhe permitissem dar forma, materializar suas visões, e compartilhá-las com os outros. Numa palavra, ela escrevia...
Podemos pensar na escrita como objeto cultural que está no mundo, que já existe antes de nosso nascimento, mas que só poderá ser por nós apreendido criativamente se nos for possível viver um momento inicial de onipotência e, depois, de transicionalidade: para encontrá-lo, precisamos criá-lo, também de acordo com nossas necessidades; para nos apropriarmos de suas leis, constituídas historicamente pela coletividade, de sua realidade, e para contribuirmos com seu aperfeiçoamento, precisamos concebê-lo, concomitantemente, como objeto criado por nós, subjetivo, e presente no mundo objetivo.
Esse paradoxo não deve ser resolvido, pois, pender para um dos dois pólos pode levar ao adoecimento – assim, se o centro da experiência é a objetividade, a pessoalidade desaparece e operamos no falso self; e se pendemos para a subjetividade, ficamos na experiência alucinatória e delirante, difícil de ser compartilhada (2008, informação verbal). A saúde esta na transição. É o trânsito que nos faz criativos, com possibilidades de compartilhar nossas inquietações com o outro sem nos submetermos às suas leis. Podemos, e precisamos imprimir no mundo nossas marcas, contribuindo eticamente para que se torne lugar colaborativo, de realizações, de compartilhar experiências tendo em vista a busca do bem comum.
Mas, para que todo esse processo transcorra bem, é necessária presença humana, um outro que nos apresente aos objetos culturais em pequenas doses, de acordo com nosso ritmo próprio de apreensão das coisas do mundo.

Muito bem. Ambos os personagens tinham elementos em suas caixas que eram recursos genuínos para que desenvolvessem seus potenciais e talentos. Mais do que isso: essas caixas de brinquedos, que todos nós temos condições de construir, nos constituem como pessoas, nos fortalecem e nos permitem sonhar com o futuro, ter projetos, ter esperança em nossa condição de contribuir para o mundo dos homens, e também confiança de que outros podem também fazê-lo. São veículos, trazem diferentes possibilidades de nos situarmos no mundo e na existência (Safra, 2008, informação verbal).
Mas o que ocorreu então com Jesse e Leslie, que acabou por interromper abruptamente a aliança entre eles, que tanto contribuía para seu fortalecimento, para que fossem adiante?
Difícil responder a essa questão, mas podemos sim levantar aqui algumas suposições.
Winnicott (1975) faz uma distinção importante entre fantasiar e sonhar. Diz ele: “o sonho se ajusta ao relacionamento com objetos no mundo real, e viver no mundo real se ajusta ao mundo onírico por formas familiares. Em contraste, o fantasiar continua sendo fenômeno isolado a absorver energia, mas não contribui para o sonhar e para o viver”. Fantasias associam-se a defesas e remetem à dissociação. Fantasiar pode, ainda, paralisar a ação.
Já o sonhar pode ser integrado ao viver, e ambos podem se constituir em um só, pois o sonhar permite experimentar a própria interioridade como algo vivo. O brincar criativo pertence a essa esfera, e não ao fantasiar.
Leslie, então, em muitos momentos parece ter vida imaginativa, o que lhe possibilitava criar; porém, em outros, talvez mergulhasse em um fantasiar sem vida. Por que isso ocorria?
A vida imaginativa não nasce com o ser humano; como vimos, depende da presença materna, que é quem vai possibilitar que a criança possa criar fenômenos e objetos transicionais, para assim poder lidar, justamente, com a ausência do objeto (mãe) por um determinado período de tempo que seja suportável, o que vai mudando de acordo com os diversos momentos e tarefas do processo de amadurecimento pessoal. Ou seja: se a distância/ausência da mãe é excessivamente longa, o objeto também não sustenta a vida imaginativa e perde esse lugar de transicional. O fenômeno transicional depende, pois, da vida imaginativa, e a vida imaginativa, por sua vez, depende da presença materna (Safra, 2005, informação verbal).
De fato, em um momento do filme, Leslie revela ao amigo que nem sempre podia contar com seus pais, que, mergulhados em seus trabalhos (por sinal, ambos eram escritores), deixavam de atendê-la em suas necessidades de acolhimento, conforto, escuta. Certamente, mais do que lhe era suportável naquele momento de seu desenvolvimento.
Jesse, por outro lado, embora temesse o pai, sendo visto por este como estranho, nele encontra o colo e o conforto de que necessita em uma hora crucial de sua vida: “Está tudo bem, filho. O que aconteceu não é culpa sua. Não pense assim nem por um minuto. A vinda de Leslie aqui lhe trouxe algo especial. É a isso que deve se apegar. É assim que vai mantê-la viva”.
Depois desse reencontro com o pai, e com as próprias condições de ir adiante, Jesse então pode construir uma ponte sólida para a vida imaginativa, “um lugar incrível para brincar”, e que, ao contrário de frágeis cordas encantadas, lhe permitia ir, e voltar, o que justamente torna a experiência tão especial...

A ponte

Tente outra vez!
Você tem dois pés
Para cruzar a ponte
Nada acabou!
(Raul Seixas)

Podemos pensar então que Jesse e Leslie nos mostram como o criar não só abre possibilidades de nos constituirmos como pessoas, como também nos traz alguns riscos. Os dois personagens, então, nos apresentam muitas facetas humanas que nos constituem – a força para enfrentar a ousadia de um viver criativo, o descuido com limites, a negligência diante de perigos reais, a convivência conflituosa entre o temor e a coragem de ir adiante, a busca por um lugar protegido, mas que, ao mesmo tempo, permita o fluir da imaginação, por um espaço potencial que nos permita manter a mente aberta para o novo e tantas outras...
Interessante pensar ainda como cada um deles foi buscando formas de lidar com suas dores. Como se posicionaram e sustentaram sofrimentos. De que forma se organizaram diante das intrusões ambientais, das falhas, das ausências e negligências de cuidados, quais potenciais puderam acionar para seguir, ou não, adiante. E em que medida foram ou não acolhidos em suas angústias, em um momento tão crítico do desenvolvimento que é a adolescência.
Ficam, então, sugestões e alertas: assistam ao filme, leiam o livro, deixem a mente bem aberta e cuidem muito bem de suas pontes!


Este texto contou com a colaboração amorosa e valiosa de Alice Warschauer e Irmgard Birmoser de Mattos Ferreira, psicanalistas, parceiras no estudo de Winnicott, e também com apontamentos das aulas e cursos do professor Gilberto Safra (www.sobornost.com.br).

Referências bibliográficas

D.W.Winnicott (1975). O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago.

_____________(1990). Natureza Humana. Rio de Janeiro: Imago.

_____________(2000). Da Pediatria à Psicanálise. Rio de Janeiro: Imago.

_____________(2005).O Gesto Espontâneo. São Paulo: Martins Fontes.


Voltar

Compartilhe: