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10/02/2011
Claudia Perrotta
O Mágico: a beleza do cinema sem palavras

Direção: Sylvain Chomet/ Roteiro: Jacques Tatit

Animação em aquarela, L’Illusioniste tem direção de Sylvain Chomet, o mesmo de As bicicletas de Belleville. Igualmente belo, o roteiro é baseado no original de Jacques Tatit (1907-82), diretor e ator de comédias consagradas pela crítica nos anos 50, como “As férias de Mr. Hulot” e “Meu Tio”.
Reverência clara ao Chaplin do cinema francês, o tema de O Mágico e o modo de abordá-lo são tão delicados quanto a pintura impressionista que vai se desenhando na tela. O artista de aspecto triste e cansado – um sujeito alto e um tanto desengonçado, assim como Hulot – abandona Paris em busca de oportunidades para sobreviver de seu ofício. Em Edimburgo, encontra a menina pobre, Alice, que, encantada com suas mágicas, resolve segui-lo em suas andanças pelo mundo.
Acreditando que ele consegue tudo o que quer apenas com um ágil movimento de mãos, a ingênua Alice lhe pede presentes caros, vestidos, sapatos, joias, o que o obriga a aceitar empregos que o afastam de sua arte, para alimentá-la nessa ilusão. Tudo surge em um passe de mágicas, e ela não se dá conta da decadência e miséria em que vivem os artistas ao seu redor: o palhaço, os trapezistas, o ventríloquo, o ilusionista. Arcaicos, não têm mais recursos para fazer frente às novas modas, aos astros do rock, e não encontram lugar em uma sociedade cada vez mais voltada ao consumo, em que a arte perde certa pureza e seus grandes ideais, voltando-se cada vez mais ao mero entretenimento - temática presente na obra de Tatit, crítico sutil e bem-humorado da burguesia francesa e que resiste aos prazeres da modernidade.
O público, de fato, não parece mais disposto a entrar no jogo de ilusão que o mágico propõe – coelho e buquês de flores saindo da cartola, moedas surgindo atrás de orelhas de crianças não impressionam mais: sobram cadeiras na plateia, os aplausos são escassos, os olhares, céticos. Sem interlocutores, frustrado e já pressentindo a perda de sua única espectadora fiel, chega a hora da grande revelação. Afinal, a menina que um dia acreditou em mágicas também tinha de crescer...
Em forma de bilhete, surgem na tela as únicas palavras realmente necessárias nesta animação que segue a trilha do mestre Tatit - um cinema sem palavras. Só a ilusão materializada no jogo de luzes e sombras, cores e sons que nos convidam a contemplar a vida - bem distante do cinema frenético que tem nos bombardeado cada vez mais intensamente.
Será que essa outra forma de brincar e de fazer arte ainda tem lugar, ou mágicos como Tatit e Chomet realmente estão fadados ao silêncio? Silêncio que não é palavra, nem gesto, é desilusão, desistência, abandono de ideais.
Indicado ao Oscar de Melhor Animação, e tão comovente e sensível como outra animação para adultos que já comentamos aqui, “Mary e Max”, L’Illusioniste é poesia pura, não deixe de assistir!


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