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21/08/2009
Claudia Perrotta
Livro: O clube do filme

DAVID GILMOUR - EDITORA INTRÍNSECA

O que deve fazer um pai quando descobre que seu filho adolescente mata as aulas, detesta estudar, ler e escrever e vai mal em todas as matérias? Simples: pergunta se ele quer continuar indo à escola, e se a resposta for negativa, acata a ideia e propõe: “quero que você assista a três filmes por semana, comigo. Eu escolho os títulos. Essa é a única educação que você vai receber”.
Inusitado, não? Difícil resistir à tentação de lembrar que se trata do tipo de coisa que cabe bem em um bom livro, mas que não se deve repetir em casa! Foi de fato necessária uma boa dose de coragem para que esse pai, também autor de O Clube do Filme, levasse a proposta adiante, que, aliás, como fica claro no decorrer da narrativa, não deixou de suscitar dúvidas e temores: “E se eu estiver errado?”, e se deixando de frequentar a escola Jesse perdesse um tempo importante de sua vida e se tornasse um homem fracassado, perdido, sem perspectivas de realização?
Mas vamos nos dando conta de que, apesar de arriscada, a ideia surtiu efeitos bem interessantes e invejáveis: pai e filho se aproximaram e foram estabelecendo um genuíno vínculo de confiança, conversando sobre as coisas da vida, compartilhando suas questões, angústias, dúvidas, amores, erros, lembranças, e até explicitando conflitos e confrontos próprios dessa relação.
A escolha dos filmes certamente contribuiu para essa parceria: não havia uma ordem particular na apresentação, clássicos eram misturados a filmes comerciais e despretensiosos, pois um dos objetivos era mesmo atrair o garoto com uma boa trama, sem deixar de alimentar seu “apetite por entretenimento”. Havia também todo um cuidado por parte do pai em selecionar histórias que trouxessem possibilidades de reflexão, e que correspondessem ao momento vivido pelo filho. Por isso, o primeiro filme escolhido foi: “Os Incompreendidos”, de François Truffautt, cineasta que abandonou a escola e passou a infância nos cinemas.
Uma breve biografia dos autores, assim como curiosidades sobre as filmagens e algumas orientações sobre a que aspectos se ater, observações sobre a engenhosidade da montagem, dos roteiros, enfim, a gramática da coisa fazia parte das conversas, mas de modo que não soassem como aulas, com excesso de informações acadêmicas. Não se tratava de uma “educação sistemática sobre cinema”. Tudo era muito contextualizado, livre, com o pai compartilhando algo que o encantava, seus repertórios, procurando criar um ambiente propício para trocas e crescimento.
E foi o que aconteceu: Jesse cresceu, como é natural, em alguns momentos buscando o colo do pai para aplacar suas angústias e temores, em outros, afastando-se para buscar sua independência. Paciente, procurando conter suas frustrações e por vezes com a sensação de “tatear em um quarto escuro”, David procurava acolher os sofrimentos do filho, acompanhá-lo em sua vulnerabilidade, e muitas vezes escolhia filmes apenas para tentar distraí-lo de sua agonia.
Foram três anos fora da escola, até que David se deu conta de que, de fato, Jesse havia aprendido muito sobre cinema, além de mostrar certo talento para as artes. Pai e filho viveram intensamente, e juntos, esse momento tão crucial na vida de todos, que é a entrada para o mundo dos adultos. O livro termina surpreendendo, não só ao leitor, mas ao próprio autor. Não deixem de ler, é simplesmente um livro verdadeiro, de amor, e isso sim devemos repetir em casa.


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