16 de Dezembro de 2018


     Fale conosco     Fale conosco
 
ProfissionalProfissional
GeralGeral
ConsultoriaConsultoria
HomeHome
NósNós
Na Boca do PovoNa Boca do Povo
Linguagem com PipocaLinguagem com Pipoca
Mito ou VerdadeMito ou Verdade
PublicaçõesPublicações

04/03/2010
Lucia Masini
O bom nome

É conhecida na publicidade a máxima de que não basta ter um bom produto. É fundamental que se tenha um bom nome, pois ele será sua força vital. Não é à toa que José Simão, em sua coluna diária no jornal Folha de São Paulo (http://www2.uol.com.br/josesimao/), coleciona, em sua heróica e mesopotâmica campanha “Morte ao Tucanês”, nomes de diversos estabelecimentos espalhados pelo Brasil. Basta citá-los e apresentar a natureza da atividade neles desenvolvida para se ter mais uma piada pronta. E invariavelmente ele completa o texto dizendo: “mais direto impossível”.
Seria com a intenção de tornar o sentido da instituição “mais direto impossível” que o governador de São Paulo, em fevereiro de 2010, propôs a mudança de nome da Polícia Militar para Força Pública?
A proposta que estava em estudo na cúpula da Polícia Militar desde o ano passado foi considerada “necessária, positiva e oportuna” pelo governador, pois faz parte de um processo de transformação da corporação que vem sendo implantado desde 1990. De combate ao inimigo interno e defesa do Estado, a PM vem capacitando seus policiais para o trabalho de proteção da comunidade. Sai o foco da guerrilha revolucionária para se compreender e combater o crime organizado. Mas se o nome continuasse o mesmo a população acreditaria na mudança de postura?
Toda palavra carrega consigo um conteúdo, um sentido ideológico ou vivencial. Não há compreensão de uma palavra isolada de seu contexto. E isso acontece seja com termos característicos de uma teoria, seja com nomes próprios. Ninguém duvida da força que uma palavra pode adquirir. Tente usar, no discurso acadêmico, um vocábulo recorrente de uma teoria num contexto que refuta esta mesma teoria... Ou ainda, na vida cotidiana, dizer que seu nome é Amélia, Patrícia, Maurício, Ricardo, Alice ou Bráulio* sem ouvir as surradas piadinhas que gravitam em suas órbitas.
O nome Polícia Militar carrega o fardo de uma história de ação violenta e abusiva contra diversos cidadãos brasileiros. A mudança para Força Pública não apenas resgata o antigo nome da corporação policial, dado na época da proclamação da república, como faz alusão à Declaração dos Direitos do Homem de 1789, feita pela Revolução Francesa, que dizia que "a garantia dos direitos do homem e do cidadão necessita de uma força pública".
Se, por um lado, a mudança busca uma maior aproximação da população à corporação, por outro, encontra resistência entre alguns oficiais que veem na supressão das palavras “polícia” e “militar” a perda de sua força e autoridade. Vai adiantar mudar o nome por decreto? Estamos de fato diante de uma nova postura da polícia? Tomara ação e nome da nossa conhecida corporação policial não virem material para mais uma piada pronta de nosso país. Ela não teria graça nenhuma.
*Em uma campanha publicitária de utilidade pública cujo objetivo era difundir a idéia do uso da camisinha, Bráulio foi o nome escolhido para representar o órgão genital masculino. O slogan era “Cuide bem de seu Bráulio”. Vários Bráulios protestaram e a propaganda saiu de circulação mais cedo do que o desejado.


Voltar

Compartilhe: