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26/05/2011
Claudia Perrotta e Lucia Masini
Nossa língua brasileira

“Nóis vai, nóis vem”, “menas”, “pobrema”, “seje”, “de a pé”... Não faltam exemplos que fazem doer os ouvidos, desmerecem seus autores e denunciam o grupo social a que pertencem. De outra parte, construções como “melhor organizado”, “vai ter que ter ações para a Copa”, “eles pegaram o lixo e jogaram no rio”, “haviam poucas pessoas no evento”, muitas vezes passam desapercebidas ... ou seria despercebidas?
Em meio à polêmica sobre o novo livro didático adotado pelo Ministério da Educação (MEC), “Por uma Vida Melhor”, que ganhou a mídia e despertou reações exacerbadas, baseadas unicamente no senso comum e no temor infundado de que a escola passaria a ensinar a falar e escrever errado, algumas ponderações trouxeram alento, aplacaram os ânimos, e quem sabe até tenham levado os que se julgam guardiões da língua a alguma autocrítica...
É o caso da reportagem publicada na Folha de S. Paulo (22/05/2011), que revelou o seguinte: mesmo falantes ditos cultos não seguem a norma padrão. Segundo pesquisadoras do projeto Norma Linguística Culta Urbana (Nurc), da UFRJ, “os mais escolarizados têm maior cuidado com a concordância ao escrever. Na fala coloquial, porém, o monitoramento é menor e ela se aproxima das variantes populares”. Um erro comum dos mais letrados ocorre frequentemente no uso do pronome: só 5% de brasileiros com nível superior utilizam-no da forma recomendada nas gramáticas... A conclusão baseou-se em análise de mais de 1.500 horas de entrevistas, que foram gravadas desde a década de 1970 em cinco capitais do país.
Parece então que os famigerados “erros de português” têm peso e valor diferentes: soam mal aos ouvidos, incomodam apenas quando cometidos pelos menos escolarizados... E é isso que, no fundo, toda essa polêmica acabou revelando – preconceito, neste caso, chamado preconceito linguístico (confira comentário sobre o seriado: A Grande Família), termo utilizado pelo linguista e autor de livro homônimo, Marcos Bagno.
Ao contrário do que defende Evanildo Bechara da Academia Brasileira de Letras, para quem “o indivíduo vai para a escola em busca de ascensão social” e, portanto, não caberia ao professor discutir e apresentar aos alunos “a realidade de um objeto para entendê-lo”, Bagno adverte:
"Discutir preconceito linguístico na escola é fundamental para que alunos que vêm de classes menos favorecidas não se sintam reprimidos ou amedrontados. A atitude normal da escola sempre foi zombar da fala dos alunos. Esse debate é fundamental para criar um ambiente mais acolhedor" (Folha de S. Paulo, 18/05/2011).
Bagno lembra ainda que as regularidades, normas, regras de uma língua não são estáticas; são dinâmicas e mudam no decorrer do tempo: "Há 50 anos, dizer que alguém ‘poderia se mudar’ era crime bárbaro, pois o certo seria poder-se-ia. Hoje, no entanto, quase todos os manuais de redação de jornais orientam a evitar a mesóclise."
Na mesma reportagem, Thaís Nicoleti de Camargo esclarece: “A ideia é mostrar que mesmo realizações sintáticas como "os livro" ou "nós pega" têm uma gramática, que, embora diversa da que sustenta a norma de prestígio social, constitui um sistema introjetado por um vasto grupo social - daí ser possível falar em variante linguística”. E conclui: “Cabe a uma pedagogia preocupada em promover a inclusão tratar desse tipo de questão e fomentar entre os estudantes o respeito à forma de expressão de cada um. Isso não significa, porém, deixar de ensinar a norma culta, que é o código de mediação necessário numa sociedade complexa e um meio de acesso às referências literárias e culturais que constituem a nossa tradição e reforçam a nossa identidade”.
A questão está, portanto, na maneira como este objeto cultural que é a língua é abordado nas escolas. Como os professores-adultos podem apresentá-lo a seus alunos-crianças-adolecentes de modo que cada um o perceba como um genuíno meio de expressão ofertado pela cultura e construído historicamente?
Parece que estão em jogo duas grandes linhas de pensamento, melhor dizendo, duas ideologias: de um lado, aqueles que defendem a ideia de que a escola tem apenas como função ensinar a forma padrão de comunicação, legitimada, sem grandes discussões ou participação dos alunos. Aqui, o usuário apenas deve se submeter às regras, de forma mecânica e distanciada. De outro, aqueles que propõem outra “entrada” na cultura, permitindo que cada um, como representante de seu grupo social, de sua comunidade, traga seu repertório para a sala de aula, que cada um possa “sujar” a língua com suas hipóteses, suas ideias, suas lógicas; ou seja, que cada um possa pensar a língua e assim participar de sua construção, que nunca será concluída. Aqui, não há submissão, há contribuição pessoal ativa e criativa!
Se essa língua me é oferecida como objeto maleável, como falante, escritor, posso enriquecê-la, questioná-la, como aliás fizeram e ainda fazem autores renomados e artistas da música popular brasileira. Nessa perspectiva, o que o livro “Por uma Vida Melhor” procura esclarecer aos alunos é que vida e língua são indissociáveis, em constante mudança determinada pela força dos falantes ao longo da história. Procura também reforçar a ideia de que todos devem se sentir igualmente falantes de uma comunidade linguística, sem ingenuidade, porém, para que possam resistir e impedir a propagação de preconceitos dessa ordem.
E isso não significa desprezar a norma culta, até porque deixar de ensiná-la apenas reforçaria esse preconceito, apartando um determinado grupo de um circuito de comunicação que nos permite exercer plenamente nossa cidadania.
E por falar em cidadania, outro fato recente também gerou polêmica na mídia e nas rodas de conversa, e nos parece ter uma raiz semelhante à discussão sobre o material didático do MEC.
Em defesa da paz no bairro em que reside, uma moradora, pertencente à elite paulistana, deu uma declaração que entrou para a história: “Você já viu o tipo de gente que fica ao redor das estações do metrô? Drogados, mendigos, uma gente diferenciada...” A moradora usou de eufemismo para se referir à parte da população que considera indesejável no seu convívio social e, talvez sem se dar conta, cunhou um novo sentido à palavra, já que o vocábulo diferenciado/a é atributo à alguém ou a algo que possui qualidades a mais, e positivas.
Muitos dos que fizeram graça com a nova expressão, que já parece ter sido incorporada à nossa língua, são os mesmos que condenam o uso do livro didático em questão, que, em tese, defende a mesma mobilidade no uso da língua observada na expressão da moradora de Higienópolis.
Retomamos a questão: alguns usos da língua são válidos e outros não? Estamos diante de uma das mais fortes disputas pelo poder: a legitimação do uso da linguagem.
Os que, horrorizados, se colocaram contra o uso do livro didático não tiveram posição muito diferente da moradora de Higienópolis. Assim como ela também não aceitam que gente diferenciada possa circular e falar com a cabeça erguida por todas as ruas da cidade.


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