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10/12/2009
Jason Gomes e Lucia Masini
Por que há uma bola na bandeira do Brasil?

Museu do Futebol

"O futebol civiliza o pé. Ele mostra que esta parte aparentemente mais atrasada e bárbara do corpo pode ser submetida não só às sutilezas do jogo, mas à civilidade do saber ganhar e perder sem ódio, de modo transparente e por esforço próprio". (Roberto da Matta)

A praça Charles Miller, em São Paulo, abriga um dos estádios de futebol mais tradicionais do país: o Estádio do Pacaembu. E não é à toa que ela tem esse nome. Charles Miller era filho de um escocês e de uma brasileira de ascendência inglesa, nascido perto da estação ferroviária do Brás, em São Paulo. Como era costume de todos os cidadãos das classes abastadas, foi estudar na civilizadíssima Inglaterra. No final do século XIX, ao retornar, trouxe na bagagem o “football”, esporte inicialmente jogado apenas pelos pés bem cuidados da elite brasileira. Mas foi nos calejados pés de ex-escravos e do povo mais humilde que ele ganhou força e colorido.

De lá para cá, brasileiros de todos os credos, raças e grupos sociais reinventam este esporte a cada partida. Talvez, um dia, encontremos num dicionário de sinônimos o seguinte verbete, já utilizado no exterior, Brasil: o mesmo que futebol.

Já estava na hora, então, de o país ganhar um museu que guardasse com carinho esta história recheada de lances emocionantes. Em setembro de 2008, foi inaugurado o Museu do Futebol, e o local não podia ser outro: Praça Charles Miller, nas entranhas do Estádio do Pacaembu.

Com uma concepção semelhante à do Museu da Língua Portuguesa, ele reúne tecnologia e interatividade para, de forma muito criativa, levar o visitante pelos três eixos que norteiam a exposição: emoção, história e diversão. É uma visita agradável e reveladora, mesmo para as pessoas que não gostam ou que só assistem aos jogos da seleção na copa do mundo.

A entrada se dá pela sala do torcedor, um espaço que reúne os mais diversos objetos utilizados pelos fãs desde a chegada do futebol em terras tupiniquins: bandeiras, broches, flâmulas, chaveiros, faixas, miniaturas dos jogadores e muito mais.

Seguindo o caminho sugerido por seus idealizadores, no andar de cima, a recepção é feita pelo rei Pelé, não em pessoa, mas num vídeo em tamanho natural, em que, em três línguas, saúda o visitante e o convida a se deixar levar pelos sentidos. A apreensão e compreensão do que se está prestes a conhecer se dá pela pele, olhos, ouvidos e, sobretudo, coração.

E isto já começa pela sequência de imagens em movimento de pés, calçados ou não, de meninos correndo e fazendo piruetas com uma bola, em diversos lugares, como campo, asfalto, terra, areia. Forma bastante precisa de dizer que o futebol é a primeira paixão de um homem e não é propriedade exclusiva de determinada classe social.

Aqui no Brasil, joga-se futebol em qualquer lugar com qualquer coisa que role e nos instigue a ir atrás, pouco importando o material: latinha amassada, bola de papel, de meia, de couro, tampinha de garrafa... Vale tudo quando existe a disposição de duas ou mais pessoas em mergulhar nessa disputa lúdica. A molecagem, aqui, é bem vista: o drible, a embaixadinha, a paradinha antes do chute, a pedalada, o jogo de corpo para o lado. Nossos melhores “moleques” são os anjos barrocos do museu: Bebeto, Carlos Alberto Torres, Didi, Djalma Santos, Falcão, Garrincha, Gérson, Gilmar, Jairzinho, Julinho, Nílton Santos, Pelé, Rivaldo, Rivellino, Roberto Carlos, Romário, Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo, Sócrates, Taffarel, Tostão, Vavá Zagallo, Zico, Zizinho

O futebol exige uma memória fotográfica. Aqueles que narram seus gols preferidos, fazem-no com uma precisão cirúrgica dos movimentos dos jogadores e dos detalhes da cena. São sempre relatos apaixonados e intermináveis. Numa roda de conversa, em que o assunto é futebol, certamente não faltam lembranças de jogadas espetaculares. É o futebol agregando, reunindo, recheando a vida das pessoas. O filme “Boleiros, era uma vez o futebol” (direção de Ugo Giorgetti, 1998) fala disso: o encontro de jogadores aposentados, ao redor da mesa de um bar, como forma de se sentirem vivos, porque ali rememoram e celebram seus dias de potência e criatividade.

E a caminhada pelo museu nos convida a esse encontro com o passado. Ouvimos depoimentos de personalidades sobre seus momentos preferidos. Também ali mergulhamos no tempo e revivemos o modo como Ary Barroso e Osmar Santos, dentre outros radialistas, anunciavam o gol: as narrações são acompanhadas de letras que saltam aos olhos, em telões, no ritmo e intensidade da voz do locutor.

Mais alguns passos e o visitante se vê exatamente nas entranhas do estádio. Dispostos nas vigas de sustentação das arquibancadas, enormes telões projetam as torcidas de diversos times brasileiros. Um momento indescritível tamanha é a emoção: os hinos, os gritos, a ansiedade, o silêncio no instante que antecede o gol e a festa que contagia o mais descrente dos visitantes. Difícil de esquecer este local que ganhou o nome Sala da Exaltação.

Mas o Museu ainda reserva mais surpresas como o Rito de Passagem, local silencioso, em que só se escuta um coração pulsando: o coração de 173 mil pessoas que viram o Uruguai fazer um gol, na final da copa de 50, em pleno Maracanã. Precisávamos do empate: perdemos. Silêncio absoluto.

Na sala das copas, novamente a história do país e a do futebol se entrelaçam. A taça do tricampeonato, Pelé, Rivelino e Tostão, a pressão da ditadura, a Tropicália, o Chacrinha, o Tetra com Bebeto, Romário e Tafarrel, Airton Senna na F-1, Mamonas Assassinas, carnaval, Diretas Já, Lula, Collor, FHC, apagão, Pentacampeão.

Satisfeitos? Quase... Futebol também é palco de renovação da língua portuguesa falada no Brasil. Todo mundo sabe, por exemplo, que gandula é aquele sujeito que fica à beira do gramado recolhendo as bolas que saem para devolvê-las ao jogo. Mas o que pouca gente conhece é que o nome gandula vem de Bernardo Gandulla, jogador argentino que defendeu o Vasco, em 1939, e nunca entrou num jogo. Ficava na beira do campo, buscando as bolas que dele saiam. Com o tempo, todos os "buscadores de bola" receberam este nome, num autêntico exemplo de metonímia e da força da vida que penetra na língua.
Gostando ou não de futebol, é impossível sair deste local sem se encantar, seja pela beleza do estádio municipal e da praça Charles Miller, seja pelo bom gosto do museu, ou pela história brasileira contada por meio dessa paixão nacional.

MUSEU DO FUTEBOL
Onde: Estádio do Pacaembu, Praça Charles Miller, Zona Oeste de São Paulo.
Horário de Funcionamento: de terça a domingo, das 10h00 às 18h00.

Quanto custa: R$6 a inteira e R$3.00 a meia (para estudantes). Gratuito para crianças de até 7 anos, idosos a partir de 65 anos e professores da rede pública e estudantes de escolas públicas municipais e estaduais mediante visitas agendadas.

Visitação gratuita às quintas-feiras, mediante a retirada de ingresso na bilheteria.

www.museudofutebol.org.br


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