16 de Dezembro de 2018


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09/06/2011
Claudia Perrotta
Minhas Tardes com Margueritte (La Tetê en Friche)

Direção: Jean Becker


Essa senhorinha que aparece na foto, com seu casaco rosa e cabelos brancos, é Margueritte. E Margueritte é exatamente isso: uma senhorinha de casaco rosa e cabelos brancos, que passa as tardes sentada em um banco de praça – é a imagem perfeita que costumamos ter dos velhos. Ao seu lado, Gérard Depardieu, de meia idade, com um livro nas mãos – também ele passa muitas tardes na mesma praça. “O senhor não trabalha?”, pergunta Margueritte em certo momento, estranhando que um homem ainda produtivo tenha tempo para essas horas vazias. Ele responde que sim, que trabalha, e muito, mas, mesmo assim, frequenta a praça, tanto que conhece todos os pombos, deu nome a cada um eles observando suas “personalidades” e características físicas, e sabe reconhecer os novos que chegam. Depois, em casa, faz esculturas de pássaros na madeira.
Pois bem, o filme é isso: a história do encontro dessa senhora e desse homem de meia idade, da amizade entre eles. Além dos pombos e da praça, eles compartilham algo mais: leituras. Certa tarde, Margueritte conta a seu novo amigo, Germain, de sua paixão pelos livros e de como sentia necessidade de ler trechos em voz alta para os outros. Constrangido, Germain não revela de imediato suas limitações em relação à palavra escrita, disfarça, desconversa, mas enquanto Margueritte faz sua leitura, vai lembrando das humilhações que sofreu na infância. Rejeitado pela mãe, uma mulher pra lá de desequilibrada e imatura, submisso a ela, o menino Germain, um típico gordinho, era constantemente humilhado na escola. A cada tentativa de ler para os colegas na sala de aula, impunha-se a voz de professor-algoz, que fazia rimas com seu nome, marcando a identidade de incapaz, de burro, limitado. Nem em casa e nem na escola, Germain recebia dos adultos que lhe eram significativos algum olhar de esperança, não havia sonho de futuro a ele reservado. Nada de hospitalidade, só hostilidade.
Cumprindo essas profecias de fracasso, tornou-se um adulto limitado intelectualmente, igualmente ridicularizado pelos amigos, que o consideravam um ignorantão, voltado a trabalhos manuais, ao cultivo da terra para fazer germinar alimentos – bonita metáfora, por sinal, marcando a forma que Germain encontrou de enfrentar tanta desesperança e descrédito nele depositados; a única saída, até aquele momento, havia sido esta: especializar-se naquilo que lhe faltou, a dedicação para criar um ambiente, a terra fértil, propício ao crescimento, ao amadurecimento, ao desenvolvimento de potenciais, para assim contribuir alimentando os outros com verduras frescas e legumes carnudos e coloridos. Mais do que um sobrevivente de maus tratos, Germain se tornou um homem digno.
E foi essa dignidade que o levou a reconhecer em Margheritte a parceira que lhe faltara até aquele momento. E vejam que interessante: o que intermediou essa interlocução tão genuína foram os livros, em especial de Albert Camus. Margueritte não teve preconceitos com seu amigo pouco letrado. Já foi logo lendo um trecho de do denso “A peste” – talvez intuitivamente tenha escolhido justamente aquele que trazia o tema da vida de Germain, e que ele conhecia bem, só que pelo avesso, pelo negativo: o amor incondicional que uma mãe nutre por seu filho.
E assim foram as tardes de Germain com Margueritte, eles se conheceram e se amaram, e esse amor delicado e generoso do qual necessitamos em todos os momentos de nossas vidas, quando crianças, jovens, adultos, velhos, foi se realizando através de um objeto cultural – o livro. Agradecido, Germain ofertava os produtos que cultivava, verduras e legumes, à doce e sábia Margueritte, que retribuía com mais livros e leituras. E assim foram perpetuando esse ciclo que é a base do amor - dar, receber, retribuir.
Para quem ainda busca encontrar neste outro objeto cultural, o cinema, algum alento ou a celebração da vida, este é o filme certo! já disponível nas locadoras


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