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29/04/2010
Lucia Masini e Claudia Perrotta
Medicar na aprendizagem: vale a pena correr esse risco?

Dizem que o remédio é bom; só causa certa dependência, mas qual o problema?
Ruy Castro, em 10/04, escreveu sobre o tema em sua coluna na Folha de S. Paulo. Conta ele que uma conhecida sua, alta funcionária de uma empresa, passaria por uma avaliação para ser promovida no emprego. Decidiu, então, usar o mesmo remédio que o filho vinha tomando, para ficar alerta durante essa avaliação. Trata-se da já “famosa” Ritalina, usada para combater o "transtorno de deficit de atenção e hiperatividade" (TDAH).
Só então essa mãe se deu conta dos efeitos desse medicamento, diariamente consumido por seu filho: mais do que alerta, “a mulher de 40 anos, mestrado na Sorbonne, leitora de Barthes e Foucault” ficou “clarividente, eufórica, confiante, poderosa”. E, ainda, abatida pela abstinência, quando passou o efeito da dose única. Lembra o jornalista que “Ritalina é um estimulante do sistema nervoso central. Produz o mesmo efeito que a cocaína, as meta-anfetaminas, as "bolinhas" e outras drogas legais e ilegais. A bula adverte sobre a ocorrência de insônia e perda de apetite, recomenda o uso combinado com antidepressivo e menciona a possibilidade de o "abuso" levar à tolerância e à dependência”.
Essa situação, na verdade, um mero acaso, nos leva a pensar em sua gravidade. Vejamos.
Durante um bom tempo na infância, os pais costumam experimentar comidas, líquidos e guloseimas antes de ofertá-los aos filhos. Querem avaliar o gosto, a consistência, a temperatura, para se certificarem de que o alimento não vai causar nenhum dano a eles. Ora, o mesmo deveria ser feito com os remédios que são receitados para as crianças?
A bula da Ritalina, e também do Concerta, usado para a mesma função, de fato avisam:
ATENÇÃO: PODE CAUSAR DEPENDÊNCIA FÍSICA OU PSÍQUICA
VENDA SOB PRESCRIÇÃO MÉDICA. "SÓ PODE SER VENDIDO COM A RETENÇÃO DA RECEITA"
Só isso já seria um alerta e tanto para os pais buscarem uma segunda e terceira opiniões sobre o uso desse medicamento em crianças em pleno processo de formação física, psíquica e social. Mas, angustiados com a situação escolar de seus filhos, muitas vezes, sentindo-se impotentes diante de especialistas, veem no remédio a salvação de todos os problemas, pois, de fato, a mudança comportamental é visível logo nas primeiras dosagens. Assim, é comum encontrarmos pais que defendam o uso destas drogas e classifiquem a atitude de quem questiona essa medicalização como irresponsável. É compreensível, porque é muito desesperador ver seu filho sofrer por não conseguir acompanhar o ritmo de aprendizagem escolar. Entretanto, é importante ressaltar que a Ritalina age, fundamentalmente, sobre o comportamento, o que não significa que contribua para uma aprendizagem efetiva. Muitas vezes, o que temos são crianças e adolescentes apáticos, submetidos, sendo esse “novo” comportamento visto por professores e pais como um sinal de melhor condição para o aprendizado. Não é.
Impor a essas crianças e adolescentess que sigam no processo de aprendizagem via medicalização nos faz perder a possibilidade de compreender o que estão nos comunicando sobre suas angústias e inseguranças em relação à condição de aprender, e crescer.
Esse assunto merece nossa atenção... E por um tempo bem maior do que aquele atingido com uma dose de Ritalina.

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