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18/02/2010
Lucia Masini
Depois das marchinhas e do hit Lobo Mau, será que amanhã tudo volta ao normal?

"Ó abre alas, que eu quero passar/ Ó abre alas, que eu quero passar/ Eu sou da lira, não posso negar/ Rosas de Ouro é que vai ganhar..."
Cantando dessa forma, Chiquinha Gonzaga deu início às músicas exclusivas do carnaval, as famosas marchinhas que tanto alegraram os clubes brasileiros, principalmente entre as décadas de 20 e 60 do séc.XX. A singeleza de suas letras conquistou uma legião de foliões e ganha novos adeptos a cada novo carnaval. Mesmo os mais jovens já dançaram ao som de Chiquita Bacana, Cabeleira do Zezé, Mamãe eu quero, Jardineira, Me dá um dinheiro aí...
Neste carnaval, duas polêmicas tomaram conta dos noticiários: de um lado, o fato de a rainha da bateria de uma escola de samba carioca ser uma menina de apenas sete anos e, de outro, o sucesso do hit baiano “Eu sou o lobo mau”.
A menina, filha do presidente da escola, ameaçou não desfilar porque a mãe se esqueceu de levar um short seu para a avenida. Embora visivelmente assustada, a menina entrou na avenida e seguiu até o fim sua tarefa de “honrar a bateria”’. A imprensa a consagrou como diva em potencial e afirmou que ela desfilou como criança e não como uma adulta em miniatura. Como se isso pudesse ser uma opção consciente da menina. Será tão difícil assim reconhecer o constrangimento por que passou a garota durante o desfile?
No cenário baiano, uma cantora consagrada pergunta a um parceiro no palco, vestido de Chapeuzinho Vermelho: “Meu Deus, quem é você?” No mesmo instante em que ele revela sua óbvia identidade, ela diz: “Então, eu sou o lobo mau”. E o que vemos aí é também a óbvia encenação de um correndo atrás do outro ao som de: “Eu vou te comer, vou te comer”. Nada se falou sobre o mau gosto da letra ou sobre a falta de criatividade nas músicas baianas deste carnaval. A polêmica ficou em torno do incentivo à pedofilia que a música pode gerar, por conter elementos do universo infantil. Quem mais se posicionou contra a divulgação da música foi uma cantora baiana que incentiva crianças a seguirem o seu bloco carnavalesco. Teria ela também se posicionado contra a participação da menina de sete anos frente à bateria da escola de samba carioca, ou para ela isso não incita a pedofilia porque a menina desfilou como criança?
Num tempo em que as letras e danças carnavalescas carregam no erotismo desmedido, o retorno anunciado e observado às marchinhas, neste carnaval de 2010, nos mostra o quanto o simples, direto e gracioso ainda faz eco em nossa sociedade, revelando-se necessário. Será que ainda conseguimos falar tanto de situações triviais quanto de aflições da alma com graça sem escárnio, com beleza sem erotização, com palavras simples que fazem sentido e nos fazem pensar?
Talvez esse seja um dos grandes desafios de nossa era, a se pensar antes que, amanhã, tudo volte ao normal...


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