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10/12/2009
Lucia Masini
Flahexa

Duvidamos que haja um único brasileiro que não saiba o significado dessa palavra, mas na possibilidade de existir alguém totalmente fora de sintonia com a maior paixão nacional, vamos esclarecer: trata-se de um neologismo que significa: valeu a raça, Flamengo hexacampeão depois de dezessete anos de jejum, numa arrancada heróica no final do Brasileirão.
Neologismo de criação recente, mais especificamente, no domingo em que foram realizados os jogos da última rodada do campeonato brasileiro de futebol de 2009.
A língua portuguesa é realmente fantástica: vejam como uma palavra composta por uma corruptela de Flamengo (Fla) e pelo elemento de composição indicativo de quantidade (Hexa - seis) pode gerar um sentido tão específico. E quanto mais se variam as condições de produção, isto é, seus interlocutores, contexto em que está inserido e intenção, mais específicos e múltiplos são os sentidos. Vejamos:
“Flahexa” dito por um flamenguista no Maracanã, no final do primeiro tempo, quando o jogo contra o Grêmio estava empatado em 1 a 1: “Vamos ganhar, porra!! Vamos ganhar, porra!!” (Assim mesmo, a repetição como forma de persuasão, ou pressão...)
“Flahexa” dito por um flamenguista depois do apito final, quando o placar do Maracanã iluminava 2 a 1 para o time da casa: “Puta que pariu, ganhamos, é campeão, hexacampeão...” (pedimos ao leitor que não procure entender pela gramática normativa a incoerência da conjugação verbal desse enunciado. Há mesmo uma mistura de destinatários: em ‘ganhamos’, o autor da frase inclui-se no grupo vitorioso, já em ‘é campeão’, logo em seguida, o autor reverencia seu time, anunciando para quem quiser ouvir que ele é campeão, melhor ainda, hexacampeão. Cabe dizer que tudo isso também é repetido à exaustão com uma intensidade vocal próxima aos urros primitivos.
“Flahexa” dito por um gremista, antes ou depois do jogo (não faz diferença): “Eu... eu... eu... o Inter se fudeu!!!”
“Flahexa” dito por um colorado (torcedor do Internacional), ao saber do resultado do jogo no Rio de Janeiro: “O bicho vai comer no próximo Grenal (Grêmio x Internacional). Aguardem, cambada de frouxos”.
“Flahexa” dito por um sãopaulino, em um momento específico do jogo (questão de minutos), quando o Grêmio fez o primeiro gol no Rio, o São Paulo fez seu primeiro gol no jogo contra o Sport, no Morumbi, e o Inter estava apenas com um gol contra o Santo André, que lutava para não ser rebaixado: “Chupa, Flamengo!! Ôooo, o campeão voltou...”
“Flahexa” dito por um sãopaulino, pouco tempo depois, quando o Inter avançou no placar contra o Santo André: “Se a gente tivesse ganho um dos jogos perdidos no meio do campeonato e se o STJD (Supremo Tribunal de Justiça Desportiva) não tivesse dado uma forcinha pro Flamengo endurecendo na punição dos jogadores do São Paulo...”
“Flahexa” dito por um corinthiano, nesse domingo de última rodada do campeonato, em casa, acompanhando todos os jogos: “Aee, mano, tiramos o hepta desses bambis”.
E, finalmente, “Flahexa” dito por um palmeirense, quando viu seu time definitivamente fora da Libertadores, em 2010: “Meu mundo caiu, onde foi que eu errei??”
Futebol é isso: palco de grandes jogadas e também das palavras bem sacadas, descoladas, desbocadas. No campo, palavrão é desabafo e também incentivo. Não é feio, nem proibido. Aquele que xinga e contenta-se com isso não parte para a violência física. O torcedor quando se ocupa em reverenciar seu time, cantando seus hinos e compondo seus gritos de guerra, esvazia-se da necessidade de agredir o outro, pois está focado em fortalecer seu time. É como diz nosso hino da copa de 70: “Uma corrente pra frente...Todos ligados na mesma emoção, tudo é um só coração”.
Quem ainda não foi a um estádio de futebol deveria ir, ao menos uma vez, para viver a experiência de deixar-se contagiar pela força que as palavras ganham quando ditas no momento certo.

Caro visitante do Ifono: Estamos entrando em recesso até fevereiro de 2010, quando retomaremos com novos textos e novas possibilidades de interação. Um ótimo Ano Novo e continuem por aqui!


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