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15/09/2011
Claudia Perrotta
Filme: Um conto chinês

Direção: Sebastián Borensztein

A tragédia não é estranha à existência. Nem as bizarras. E é uma destas que abre a comédia argentina “Un cuento chino”. Inúmeras outras são colecionadas pelo personagem de Ricardo Darín, Roberto, que, sem saber, abriga em sua casa o protagonista de uma delas.
Mas não é esse o tema do filme. O ermitão e autossuficiente Roberto, ex-combatente da Guerra das Malvinas, leva uma vida previsível, cultiva a solidão, seus rituais e mau humor de praxe. O outro é, a princípio, visto sempre como inimigo. Exatamente o oposto do chinês que cai de paraquedas em sua vida. O ingênuo “chino”, como é chamado durante o filme, é todo pedido de ajuda, de alguém que possa acolhê-lo em seu desamparo, em quem possa confiar nessa terra estranha. Ele gruda em Roberto, que, um tanto desesperado com esse intruso em sua vida, ao mesmo tempo em que tenta se livrar dele, parece se sentir comprometido com os ideais de hospitalidade que ainda igualam as diferentes culturas.
É este o tema do filme: hospitalidade, acompanhada de seu contrário, de seu par inseparável - afinal, receber o outro com boa vontade é um gesto que não elimina a hostilidade. O filme brinca com essa equação: Darín transita entre um e outro gesto. Oferece cuidados ao estrangeiro, os alimentos típicos de seu país, um banho quente, uma cama, percorre o bairro oriental em busca do parente que o chinês procura na Argentina, o único que lhe restou, vai ao consulado regularizar a situação, e até lhe propõe pagar um curso de espanhol para que possam se comunicar melhor. Transforma-se em seu protetor. Em contrapartida, estabelece um prazo rígido para a hospedagem, não se interessa em saber quem é o rapaz, seu nome, sua história, não lhe oferece nada além do básico para sua sobrevivência, marcando a todo momento o quanto essa convivência é forçada, o quanto não é possível receber de braços totalmente abertos. Evita compartilhar, trocar, envolver-se. Fica na defensiva, talvez por se sentir refém da necessidade de oferecer abrigo, ou por intuir que o olhar do estrangeiro espelha sua própria solidão, orfandade, e a dor que essa condição lhe causa. Roberto é também estrangeiro, ou melhor, um estranho, ainda que em seu próprio país – revolta-se com as pequenas trapaças cotidianas, enfrenta poderes estabelecidos, vive indignado.
Em retribuição, como reza uma das leis universais da hospitalidade, o chinês faz pequenos trabalhos na casa do homem que o acolheu e prepara o café da manhã observando as preferências de seu anfitrião; constrangido, procura não incomodar, não quer se tornar um parasita, risco que qualquer hóspede corre. Que o digam os ditados populares: “O melhor modo de se perder um amigo é convidá-lo a morar com a gente”, ou “Não se conhecem as pessoas enquanto não se vive com elas” ou ainda o mais cruel deles: “Hóspede é como peixe, depois de três dias...”.
Mas o “chino” persiste, buscando o familiar no não familiar. E encontra, de certa forma.
Quem vem em seu socorro, quem se solidariza com o estrangeiro, sem resistir, é a moça affair de Roberto. Ela se permite ser genuinamente afetuosa, solidária, sem se prender a estereótipos. Busca se comunicar, ainda que precariamente, dispõe-se a apresentar a cidade, convida para um jantar de confraternização, registra os encontros em fotos. Essas coisas comuns que aproximam as pessoas, e que, cada vez mais, neste universo de cabos de fibras óticas, vão se tornando estranhas...
Ainda que falando a mesma língua, compartilhando os mesmos costumes, também a moça é uma estrangeira na vida de Roberto; não se intimida diante dos inúmeros “nãos” dele e segue buscando proporcionar encontros. Também ela oferece um espelho ao nosso anti-herói: fala de sua admiração pelo fato de ele se dispor a ajudar o chinês e de se manter firme em suas convicções – reapresenta Roberto ao próprio Roberto.
Mas o argentino parece aprisionado em sua identidade de ermitão convicto. Ressentido com as perdas que sofreu, e que o colocaram definitivamente na defensiva, reluta em enxergar o outro eu que esses estrangeiros lhe apresentam, talvez mais genuíno. É como se a necessidade demasiadamente humana de receber, oferecer um lugar, um abrigo, solidarizar-se, fosse uma fraqueza, um traço a ser evitado, ao qual devemos resistir. É mesmo um desafio, continuar hospitaleiro, disponível para quem é diferente, mesmo contando com as rasteiras, também demasiadamente humanas.
Não percam! É mais um filme argentino de qualidade e que, com humor, emoldura nossa condição de estrangeiros crônicos em busca de hospitalidade incerta.


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