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03/12/2009
Claudia Perrotta
Filme: Querido Frankie

Direção: Shona Auerbach - Inglaterra, 2004

"Sabe de uma coisa? Vamos nos mudar de novo. Dessa vez, para perto do mar. Bem na margem do mundo”. São essas as palavras que Frankie, um garotinho surdo, de 9 anos de idade, escreve ao pai, em mais uma das inúmeras cartas que lhe envia. A correspondência entre os dois é frequente e intensa, apesar de o pai viver em alto mar, trabalhando em um navio, o ACCRA.
Bem, na verdade, essa é parte da história... ou, melhor dizendo, a história que Frankie conhece, mas vamos descobrindo, no desenrolar da trama, que sua mãe, Lizzie, criou essa versão, com requintes de artifícios para que lhe parecesse plausível; ela faz tudo isso por um único motivo: como forma de proteger o filho de uma situação muito mais dura, a violência do pai “real”. Também por isso, para fugir dessa situação, viviam mudando de cidade.
“Ele não precisa de mentiras em uma carta. Precisa de carne e osso”, adverte a avó do garoto. Difícil, a princípio, não concordarmos com ela, afinal, diz o dito popular que toda mentira tem pernas curtas, por vezes com consequências imprevisíveis... Mas a delicadeza da relação entre mãe e filho nos leva a rever certos conceitos.
Vejamos: Frankie se comunica primordialmente pela escrita, além de utilizar-se da língua de sinais. Ele compreende os outros perfeitamente, desde que falem olhando para ele: “Cuidado com o que diz”, adverte a mãe para a diretora da nova escola, “ele lê lábios muito bem”. De fato, não há necessidade de exagerar a articulação e nem falar mais alto para ser compreendido por Frankie, como faz a senhora da biblioteca. Desconcertada com a descoberta de que o garoto era surdo, depois de tê-lo julgado como “malandro” por não lhe dar atenção, a bibliotecária pede desculpas e começa a tratá-lo de um jeito diferente, exagerando nos cuidados e na condescendência. Pior: ao falar a palavra surdo, diminui o tom de voz, como se fosse algo que não pudesse ser nomeado, que causasse vergonha ou constrangimentos. Frankie apenas sorri, feliz porque, ao contrário de outros garotos, poderá retirar quantos livros quiser da biblioteca...
A expressão de seu rosto mostra o quanto está tranquilo com sua condição de garoto surdo, que coloca e tira o aparelho quando quer e vai usando a escrita para se comunicar nas mais variadas situações: no mercado, entrega a lista de compras para a atendente, que o compreende perfeitamente; na escola, registra e mostra para a professora a resposta correta na aula de geografia; aliás, ele se orgulha de todo o conhecimento que tem sobre o tema e, numa carta ao pai, conta, orgulhoso: “Sei o nome de todos os países do mundo”.
Outra situação de sala de aula evidencia a segurança de Frankie e o quanto lida bem com a surdez. Um colega de classe, que de imediato o hostiliza e procura ridicularizá-lo, escreve na carteira de Frankie: “def boy” – mas a ortografia é logo corrigida: “deaf boy”... e adivinhem por quem? Pelo próprio Frankie, com a mesma expressão de tranquilidade, de quem tem consciência do que é e se assume, sem vergonha.
E qual seria a origem de toda essa desenvoltura e disponibilidade para a interlocução nas várias situações sociais que exigem capacidade/habilidade de comunicação? O que fez com que Frankie enfrentasse o preconceito contra sua condição de surdo sem inibir-se diante das humilhações?
Não há dúvida de que Frankie pôde usufruir de um ambiente acolhedor, humano, representado por uma mãe amorosa, devotada e que dedica ao filho os cuidados na medida certa, pronta para defendê-lo, sem, no entanto, impedi-lo de conquistar autonomia e inserir-se nos mais diversos contextos sociais. “Não o tratem de uma forma especial; ele não terá dificuldades, o cérebro dele é normal”, fala para a diretora da escola no primeiro dia de aula. Mesmo o fato de tanto mudarem de cidade não afetou a estabilidade do menino, tamanha era a condição de Lizzie de reservar um lugar ao filho dentro dela. Com isso, Frankie pôde desenvolver confiança em si e nos outros, fortalecendo-se e buscando formas próprias de expressão. Nada lhe foi imposto e essa busca foi então acontecendo naturalmente, em um ambiente facilitador.
Foi nesse ambiente que a “mentira” de Lizzie ganhou colorido. Ou seria melhor dizer que ela criou um universo para que Frankie brincasse e assim pudesse lidar com suas angústias e sofrimentos.
A história criada por essa mãe intuitiva foi o que permitiu que Frankie encontrasse na escrita a possibilidade de se apresentar, de falar de si, de seu cotidiano, do que vivia e sentia. Havia um interlocutor, alguém que respondia, e juntos, em parceria, experimentavam o jogo da narrativa, o sonho, encenavam a história, dialogavam, inventavam cenários, céus azuis em mares revoltos, atos de heroísmo. Era na materialidade das palavras escritas que ele era ouvido e se ouvia: “Não consigo parar com as cartas porque assim posso ouvir a voz de Frankie...”, confessou Lizzie.
Até que esse interlocutor ganhou corpo, novamente por obra da mãe que paga para um homem fazer o papel de pai; no entanto, ela acaba perdendo controle sobre sua “criatura”. Ele segue sim o script, mas muito mais do que o esperado - envolve-se com o menino e lhe oferta, de verdade, um dia de pai: acompanha no futebol, aposta corrida, leva pra comer, protege do garoto hostil, ensina valores, traz referências e ensinamentos, reúne a família; e, ainda, reconhece o sofrimento e as razões de Lizzie:
- Frankie tem muita sorte.
- Como - responde Lizzie - se sou sua mãe e minto pra ele todos os dias?
- Você não mente. Você o protege todos os dias.
A troca de correspondência com um pai imaginário e, depois, sua materialização “em carne e osso” foram experiências fundamentais e constitutivas na vida desse garoto e contribuíram para que ele se integrasse ainda mais, dentro de si e na forma como se relacionava e se comunicava com os outros.
O final realmente surpreende. Pela escrita, descobrimos que esse garoto surdo não apenas lia lábios muito bem. Também lia pessoas....


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