15 de Dezembro de 2018


     Fale conosco     Fale conosco
 
ProfissionalProfissional
GeralGeral
ConsultoriaConsultoria
HomeHome
NósNós
Na Boca do PovoNa Boca do Povo
Linguagem com PipocaLinguagem com Pipoca
Mito ou VerdadeMito ou Verdade
PublicaçõesPublicações

16/02/2012
Claudia Perrotta
Filme: Precisamos falar sobre o Kevin

Direção: Lynne Ramsay

Como explicar, justificar tamanho ódio, tamanha hostilidade, tamanha crueldade? Precisamos falar sobre o Kevin, mas, talvez como no filme (baseado no romance de Lionel Shriver), nenhum de nós consiga fazê-lo de modo a contemplar a complexidade da situação.
Perturbador e desconexo no tempo, vamos sendo apresentados a fragmentos de uma narrativa, de certa forma, “contada” pelo ponto de vista da mãe, Eva (a formidável Tilda Swinton), também ela em pedaços.
Nada se encaixa, mas tudo se encaixa. Cada episódio cotidiano, cada atitude, cada olhar, as tentativas inúteis de aproximação do filho vão nos dando indícios, pistas de que o garoto poderia mesmo protagonizar um ato brutal. Eva aceita o julgamento de todos, o isolamento, as agressões, e é também ela implacável em sua própria condenação. Lembra-se do incômodo com a gravidez, desde o início, da indiferença com que recebeu o bebê logo ao nascer, da alienação de sua função de cuidado, da falta de empatia, de tolerância ao choro ininterrupto, das palavras cruéis que lhe dirigia. Lembra-se de como cumpria o papel de mãe de maneira automática, protocolar e falaciosa, e de como Kevin era sensível à farsa, sempre encontrando formas de denunciá-la.
Talvez seja este o motivo que faça a história toda tão perturbadora: ainda que demorando a falar as primeiras palavras, Kevin se comunica o tempo todo. Usa inúmeros artifícios, desde muito cedo, para atingir e manipular a mãe, que só consegue vê-lo como alguém que roubou sua felicidade dos tempos de juventude. Eva não se deixava tocar, negava seus conflitos em relação ao filho, o olhar que lhe dirigia era sempre de estranhamento, de desconfiança, como se Kevin não correspondesse a seus ideais. E ele, de fato, não correspondia, não respondia; mas essa não correspondência era justamente a forma de dizer que precisava existir para além dessa frustração, desse ódio de origem, que, agora, o destinava. Culpada por não conseguir amá-lo verdadeiramente, acaba por se submeter ao pequeno carrasco, mas é incapaz de se implicar, de decifrá-lo. Todo o seu sofrimento parece se intensificar com o fato de só conseguir fazê-lo tarde demais, quando acompanhada de uma solidão intensamente povoada. Só mesmo apartada de todos os outros que não eram ela e nem dela para reconstituir, religar os fatos, e viver tamanha dor.
O bacana do roteiro é justamente a não linearidade com que os acontecimentos nos são apresentados, o que não só quebra a lógica simplista causa/efeito; ação/reação, como também nos coloca diante de um drama denso que certamente despedaçaria qualquer um de nós. Não se trata mesmo de encontrar culpados. Até porque, certamente, além das inúmeras falhas no cuidado materno, outros elementos e circunstâncias podem contribuir para a constituição de um adolescente tão perturbado e que comete um crime ainda identificado como típico da cultura americana, embora venha ganhando ouros contextos.
Mas o filme acaba por denunciar uma situação contemporânea que merece sim nossa reflexão – certo descompasso entre pais e filhos e o quanto temos tido dificuldades de ouvir nossas crianças a partir do lugar em que se encontram, com seus recursos de expressão e repertórios. Parece que temos preferido responsabilizá-las por seus supostos fracassos e dificuldades, buscando encaixá-las em algum quadro clínico, como também Eva tenta fazer, quando simplesmente se recusam a ser apenas a extensão de nossos desejos e vaidades, ou depósitos de nossas frustrações.
Por essas e por outras, não há mesmo como ignorar o convite contundente do título. Sim, precisamos muito falar sobre os Kevins, mas, para tanto, antes, precisamos urgentemente ouvi-los e compreendê-los. Ainda há esperança, como a que se desenha na última e comovente cena deste filme obrigatório.


Voltar

Compartilhe: