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24/02/2011
Claudia Perrotta
Filme: O Discurso do Rei

Direção: Tom Hooper - Inglaterra

“O Discurso do Rei”, que levou o Oscar 2011 de melhor filme, tem recebido comentários nas últimas semanas – menos em relação à estética cinematográfica, até porque, de fato, não traz inovações nesse sentido, e muito mais no que se refere à temática abordada: o sofrimento de um homem gago. Sofrimento potencializado ao extremo simplesmente por se tratar de uma figura pública, e mais, candidato a rei em um momento importante da história mundial. Além da proximidade da 2ª grande guerra, estava em curso uma revolução na tecnologia de comunicação - décadas de 20-30, era do rádio, veículo de difusão de informações, obviamente muitíssimo utilizado pelas lideranças políticas de vários países.
George VI, como ficou conhecido ao substituir o herdeiro natural, que abriu mão do trono para se casar com uma americana divorciada, não poderia, portanto, prescindir deste importante instrumento de comunicação para as massas... Mas como, se era gago? Não à toa, muito discretamente o filme mostra certa admiração do recém-empossado rei por outro líder político, Hitler – na ocasião, já utilizando a imagem além da voz, pouco importava o conteúdo de seus discursos, e sim a forma contundente como os entoava diante da nação. “O que ele está dizendo?”, pergunta a pequena Elizabeth ao pai diante da projeção na tela; “não sei”, responde George, “mas parece falar muito bem...”.
O que o filme põe em evidência é precisamente isto: o valor social atribuído ao “falar bem” – que cada vez mais deve vir acompanhado do apresentar-se com uma imagem impecável... O investimento em marketing político das últimas eleições presidenciais de nosso país confirma isso. E falar bem, aqui, como vivenciamos nos últimos oito anos, não significa necessariamente usar corretamente a língua padrão, mas sim falar a “língua do povo”, atingi-lo emocionalmente, ser carismático.
Bem, hoje contamos com mais “truques” de edição e, certamente, a incômoda e constrangedora gagueira do rei George seria facilmente disfarçada com requintadas ferramentas tecnológicas. Mas, para o homem comum, ser gago continua a gerar sofrimento...
Por isso, continuam a ser buscadas causas e soluções para este mal que, segundo as pesquisas, atinge 60 milhões de pessoas em todo o mundo, sendo 2 milhões de brasileiros.
E claro, o “discurso das ciências” não poderia ficar de fora: "A causa está em genes que interferem em áreas cerebrais ligadas à fala", afirma categórico um neurologista ouvido pela Folha de S. Paulo (em 12/02/11). Na mesma reportagem, temos também as promessas de cura, que, como era de se esperar, vêm da indústria farmacêutica: “estudos controlados com um antagonista da dopamina (medicamento que anula a ação do neurotransmissor) estão mostrando bons resultados”. Ou da área tecnológica: “Os remédios ainda não chegaram [UFA!], mas novas tecnologias já foram incorporadas aos tratamentos. Uma das ferramentas é o ‘Speech Easy’, aparelho que faz a pessoa ouvir a própria voz com um pequeno atraso”. Por fim, a reportagem sinaliza uma “evolução”: “A maioria das pessoas, segundo especialistas, acredita que traumas de infância são o que faz uma pessoa gaguejar, o que não é verdade. ‘Hoje, sabemos que a causa está em genes que interferem na formação e no funcionamento de áreas cerebrais que gerenciam a emissão da fala’”.
O Estadão seguiu pelo mesmo caminho: “Na verdade, gagueira é um distúrbio de base neurofisiológica, com forte componente genético e hereditário” (site de O Estado de São Paulo, 19 de fevereiro de 2011 | 15h 26). E mais: “a crença de que se gagueja por razões psicológicas atrasa o diagnóstico e prejudica o tratamento”. Será verdade??? Será que esses estudiosos do tema assistiram ao filme com atenção?
Um deles destaca (na Folha): “O trabalho de Logue [o terapeuta do rei], autodidata e heterodoxo, foi pioneiro. Ele ia além dos trabalhos com oratória de seu tempo. Já usava algumas técnicas de relaxamento e suavização da fala que usamos hoje."
De fato, o futuro rei já estava farto, e com razão, das intervenções ortodoxas, como a de colocar sete bolinhas de gude na boca e tentar falar uma frase qualquer. Puro condicionamento sem sentido, embasado em uma determinada visão do humano que, ainda hoje, sustenta determinadas práticas clínicas. A fragmentação, a homogeneidade, a não contemplação da história pessoal e nem das consequências que um ambiente pouco saudável pode trazer na vida de todos nós.
Ou seja: o pioneirismo de Logue estava menos nas técnicas que utilizou com George, importadas de sua experiência como ator de teatro, e muito mais no setting que criava para atender as pessoas que sofriam por terem perdido a voz – como os ex-combatentes traumatizados pela guerra – ou por se sentirem incapazes de dizer, talvez porque nunca tenham sido realmente ouvidos.
Colocando-se como interlocutor atento, interessado na vida, na história do outro, abrindo campo para a expressão pessoal, o que Logue ofertou a George foi, primeiramente, um espaço acolhedor e hospitaleiro. Sem deixar de usar técnicas de oratória quando necessário, procurou trazê-las às sessões de maneira significativa, contextualizada e lúdica, subordinadas ao sentido primeiro, que é o encontro com o outro em toda a sua riqueza e complexidade. De olhar e ouvidos atentos, foi resgatando valores perdidos no contexto familiar de George – ele não pôde chorar a morte do pai, pois isso seria sinal de fraqueza, nem se aproximar da dor de ter perdido um irmão epilético, morto aos 13 anos, não podia mais abraçar espontaneamente suas filhas sem que, antes, elas lhe fizessem reverências.
Não seria a gagueira desenvolvida por George um pedido de socorro? Uma forma de expressar sua angústia diante da contenção de afeto própria dos herdeiros dos tronos? A gagueira fazia parte de si – por mais que quisesse e necessitasse superá-la, para corresponder a ideais, padrões de perfeição, curá-la também significava perder uma parte de sua história, de algo que o constituiu como pessoa. Esse aspecto do sintoma fica evidente quando, depois de finalmente conseguir proferir seu discurso a toda a nação, anunciando a declaração de guerra contra a Alemanha de Hitler, brinca: “tinha de gaguejar um pouco, do contrário, iriam pensar que não fui eu quem falou”.
Antes de eliminar o sintoma pura e simplesmente, Logue se colocou como parceiro no projeto discursivo de seu paciente, acompanhando-o nos momentos mais difíceis: “esqueça todo o resto e fale para mim”; com essa fala, queria dizer a George algo como: esqueça os olhares de reprovação por você ser quem simplesmente é, esqueça as expectativas e as pressões de seu pai sobre você, os legados transgeracionais, seja você mesmo!
Não se trata de propor que gagos continuem a ser gagos, como um carma que devem cumprir em suas vidas. Mas sim de contemplar a ambiguidade, o paradoxo e toda subjetividade que estão presentes nas manifestações sintomáticas. É a partir daí que se pode desvendar condições de desenvolvimento, potencialidades ainda pouco reconhecidas e acompanhar a singularidades de cada um em seus processos de transformação. Longe de se colocar como dono da verdade, Logue reconhece seus erros, busca entrar em sintonia com seu paciente, respeitando o tempo de que necessita para confiar em suas capacidades. Essa troca afetiva entre paciente e terapeuta tem sim potencial curativo, e é isso que o filme retrata com sensibilidade.
Também não se trata de substituir um discurso pelo outro, de instituir competição entre os especialistas – da neurologia, da fonoaudiologia, da psicologia. Trata-se de ir adiante no olhar sobre o humano, que significa sim resgatar valores perdidos nas relações interpessoais.
Difícil acreditar que existam profissionais e pesquisadores se autodenominando donos da verdade diante do sofrimento alheio. Difícil acreditar que ainda perpetuem a ideia de que basta um novo medicamento ou um novo aparelho para superar dores enraizadas e curar supostos “defeitos”. É preciso questionar esse tipo de discurso. Ou vamos nos deixar seduzir pela contundência e objetividade, sem nos importarmos com as ideologias que sustentam essas práticas?


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