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30/10/2011
Lucia Masini
Filme: Mais estranho que a ficção

Direção: Marc Forster

O que acontece quando personagem e autor se encontram? Não, não estamos falando de um encontro metafórico do processo de criação do escritor. Estamos falando de um encontro de corpos, em tempo real. Essa é a trama central do filme Stranger than Fiction (Mais estranho que a ficção, título em português), ano 2006, direção, Marc Forster.

O filme inicia com o recurso de uma voz em off narrando as ações cotidianas do personagem principal. É assim que, pela voz feminina do narrador, vamos conhecendo Harold Crick, um sujeito metódico, auditor da receita federal americana. Desde o amanhecer, seu dia é totalmente controlado. Ele sabe quantas vezes escovará cada dente, quanto tempo gastará até chegar ao ponto de ônibus, quantos minutos utilizará no coffeebreak e quantos necessitará para calcular, de cabeça, contas cabulosas que seus colegas de trabalho lhe pedem, por pura diversão.

Quantidade de passos, fórmulas de velocidade, cálculos geométricos e tempo gasto em todas suas ações é de que se ocupa Crick e, para isso, conta com seu principal parceiro na vida: seu relógio. Sim, um relógio de pulso que terá papel fundamental na trama, garante a narradora onisciente.

Se, como espectadores, imaginamos, até então, que o estranhamento anunciado no título está relacionado à personalidade do personagem principal, somos tomados de surpresa quando, numa manhã comum de quarta-feira, ele escuta a voz que narra suas ações.

Quem está ai? é sua primeira pergunta diante do fato inusitado. Gira em torno de si, olha para trás, perde-se na conta das escovadelas nos dentes. E a voz feminina acompanha cada um de suas ações, narrando tudo tal qual acontece.

Crick não consegue pensar em outra coisa e esquece-se de contar os passos, apressa-se para pegar o ônibus, procura livrar-se daquela voz que o segue e narra de modo impassível sua aflição. A perda de controle de seus atos mais corriqueiros o leva a conversar com seus colegas de trabalho. Eu ouço vozes é o que diz, e cada um, a seu modo, diz que ele precisa descansar, sair da rotina, tirar umas férias. Dave, seu amigo mais chegado, tira-lhe, inclusive, o trabalho pesado, deixando-lhe apenas uma auditoria que parecia ser bem simples. Crick não se importa com mais nada, quer saber o que é aquela voz que escuta. Vai, então, procurar ajuda profissional.

Ouço vozes é o que diz a uma psiquiatra, dra. Mittag-Leffler, na esperança de que ela o ajude a entender o que isso significa. Inicialmente, ela lança mão de teorias psicanalíticas, para dizer que todos nós temos vozes internas que representam facetas de nós mesmos etc etc. Mas, Crick é preciso na explanação de seus sintomas. Não se trata de vozes internas, pois essas ele as conhece bem: são números e números, dias a fio. A voz a que ele se refere é externa, descreve suas ações já realizadas como numa narrativa. Aí, então, ela é direta no diagnóstico: esquizofrenia, recomendo tratamento medicamentoso. Crick não se dá por satisfeito. Não aceita o diagnóstico e pede para que a dra. Mittag pense em outra alternativa. Ela mantém o diagnóstico de esquizofrenia e tratamento medicamentoso, mas Crick insiste dizendo: se não fosse remédio, o que a senhora recomendaria? Pressionada para dar uma outra resposta, a psiquiatra receita literatura.

Isso muda a vida de Harold. Incansável, procura um professor de literatura, Jules Hilbert, para que o ajude a desvendar seu mistério. Embora inicialmente cético, o professor deixa-se tocar pela história do auditor quando ele repete as palavras da narradora que ouviu há pouco: Mal sabia ele de sua morte eminente.

Você disse mal sabia ele? pergunta Hilbert. Ela disse mal sabia ele da sua morte eminente, diz Harold aflito pela constatação de que, se é mesmo personagem de uma narrativa, é fato que ele vai morrer.

Começa, então, uma verdadeira análise da estrutura do texto criado pela voz que narra, para saber se Harold é personagem de um drama ou de uma comédia. Na ausência de elementos que possam comprovar qualquer tese, o professor recomenda que Harold aproveite o máximo da vida que lhe resta. E é o que ele procura fazer, ainda que não tenha desistido de encontrar a dona da voz que narra sua vida. Como o filme se desenrola, deixamos para o leitor conferir, pois vale a pena.

O que queremos salientar aqui diz respeito aos encontros e aos sentidos que deles nascem. A voz que narra é de uma escritora renomada, Karen Eiffel, cujos romances são tragédias em que os personagens principais sempre morrem no final. Neste, em que narra a vida de Harold Crick, a autora após um grande bloqueio criativo, consegue imaginar a morte de seu personagem. Enquanto entende que seu personagem é fruto de sua criação, não tem muito pudor em pensar diferentes tipos de morte, porque o objetivo é matá-lo como o faz sempre. Mas, como dito no início deste texto, autor e personagem se encontram e, desse encontro, novos sentidos são criados. A história de Crick não é mais dela, como antes não era somente dele. Um e outro passam a olhar para além de si e considerar pontos de vistas além dos seus. A morte de Crick, tal qual ela imaginara, faria desse romance sua obra prima. Até mesmo ele concordou ao ler o manuscrito. Mas os sentidos não são propriedade de um ou outro e sim do encontro entre eles. O sentido torna-se fruto do dialógo que se estabelece.

Se o personagem principal do livro morreu ou não, deixamos para o leitor assistir. O que importa ressaltar nesse momento é o fato de que Harold Crick apostou numa compreensão de seus sintomas não pela via da aceitação imediata de um diagnóstico. Se tivesse aceitado a determinação psiquiátrica, muito provavelmente não teria experimentado outras formas de viver, não teria vivenciado sentimentos que nunca imaginou para si. Olhar para seus sintomas a partir de outras possibilidades que não a da patologização levaram-no a uma busca saudável de solução de seus problemas, levaram-no ao encontro do outro, de outros, para juntos criarem novos sentidos para sua vida.


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