23 de Novembro de 2014


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Filme: Como estrelas na terra, toda criança é especial

CLAUDIA PERROTTA

Antes mesmo de seu início propriamente dito, nas cenas que precedem a ficha técnica, o filme indiano “Como estrelas na terra, toda criança é especial” apresenta sua temática. Em um ritmo cada vez mais frenético, combinado com a sirene de fundo musical, uma lousa de sala de aula vai sendo preenchida por números e letras misturados aleatoriamente, enquanto, diante dela, professoras típicas evocam os nomes de seus alunos e “cantam” suas notas. A grande maioria, pelo bom desempenho, ganha como reforço positivo um sorriso de satisfação das professorinhas; apenas um garoto, Ishaan, recebe de volta a mesma expressão de desesperança e decepção. É sempre o pior da classe. Então, quando a lousa se torna apenas um bloco branco repleto de rabiscos e símbolos ininteligíveis, faz-se silêncio, e nosso olhar pode finalmente ter algum descanso na imagem de um pequeno lago. À beira dele, o protagonista Ishaan contempla os peixinhos, e, concentrado, se prepara para caçá-los com uma técnica precisa, que, certamente, foi desenvolvida ao longo do tempo dedicado à atividade. Mas esse descanso dura pouco; logo é interrompido por um adulto que o chacoalha irritado, reclamando do fato de Ishaan sempre atrasar a todos na ida à escola de ônibus.
O filme tem início, e vamos sendo apresentados ao cotidiano escolar e doméstico desse garotinho feliz, de 8 anos de idade. A temática do contraste de tempos vai então sendo enfocada de diversas formas, em vários momentos e situações. Em uma das muitas cenas de sala de aula, em vez de se ater ao conteúdo das matérias e à fala enérgica e ininterrupta da professora, cobrando e avaliando desempenhos da forma mais tradicional e retrógrada possível, o saudável Ishaan busca alguma salvação na janela, contemplando a forma como os pneus das bicicletas passam em uma poça d’água barrenta. Logo, obviamente, recebe a bronca esperada, que, invariavelmente é acompanhada de humilhações, ou pelos outros alunos, que se divertem à custa do coleguinha, ou pelos próprios professores, que ignoram as “dificuldades” de aprendizagem de Ishaan, qualificando-o de engraçadinho, sem-vergonha, preguiçoso e que tais...
Em casa, temos mais do mesmo: em contraste com a organização de tempo do filho problemático, pai, mãe e irmão seguem o script de uma vida produtiva. A cena que sintetiza esta ideia chega a ser hilária – vemos os três cumprindo rituais e tarefas cotidianas prosaicas em uma “rotação” acelerada, uma crítica clara ao ritmo frenético que temos de imprimir em nossas ações para conseguirmos um lugar ao sol na sociedade contemporânea. O valor está nessa pressa, na hiperatividade, como se isso fosse sinônimo de determinação, empenho. Como bem destacou Rosely Sayão em texto recente, “A pressa tomou conta de nossas vidas. Corremos desde que acordamos... Incentivamos a corrida sem fim dos mais novos: queremos que aprendam tudo rapidamente e cedo...” (Apressando a vida, in: http://blogdaroselysayao.blog.uol.com.br/). Mais uma vez, o alívio para essa tortura e ansiedade cotidianas nos chega pelos olhos sonhadores de Ishaan – ele demora a acordar, encomprida o sonho na cama, nesse estado fértil entre o sono e a vigília, um sorriso no rosto que pede para ser compartilhado. Mas não há tempo para isso. A mãe-produtiva, que lhe dedica cuidados mecânicos, tem como tarefa tirá-lo desse estado, apressá-lo e adaptá-lo para a vida real, do trabalho, do horário a cumprir.
Como se não bastasse, ela também acompanha o filho na lição de casa, apenas e tão somente para destacar seus erros, demonstrando irritação e desesperança com a repetição deles, com a falta de capricho e empenho do filho: “Pare de brincar e conserte seus erros!”. As mensagens se repetem: preguiçoso, disperso, incompetente para aprender; enfim, não há projeto de futuro possível para esse menino que insiste em contemplar a vida, enquanto o tempo não para...
“Aqui nesta pedra alguém sentou olhando mar. O mar não parou para ser olhado. Foi mar pra tudo quanto é lado”, diz o poema de Paulo Leminski. No filme, quem “atropela” Ishaan é o pai, que, depois de uma reunião com os “educadores” da escola, em que o fracasso do filho é reafirmado em frases como: “ele não evolui, repete os mesmos erros de propósito...”, decide mandá-lo para um colégio interno, afastá-lo da família como castigo por não ter se esforçado. Tem início então um segundo momento da vida desse menino: toda a sua vivacidade, o sorriso malandro, a alegria de criança, a curiosidade e fascinação pelas cores e movimentos das ruas, que depois reproduzia em desenhos e pinturas belíssimos, são substituídos pela tristeza do abandono, pela decepção, em especial com a atitude da mãe, que, embora não concorde com a ideia da separação, submete-se ao marido.
Impossível ao espectador não se sensibilizar com o sofrimento que parece não ter fim do menino. O lema da “nova” escola, entoado com orgulho pelo corpo técnico, é: “Disciplina. Já domamos cavalos selvagens, vamos domar este também”. Ou seja, Ishaan é de imediato identificado como o garoto desregrado e incapaz de se desenvolver intelectualmente. Pior: agora, ele aceita esses rótulos e começa a se anestesiar para não sofrer, submetendo-se às novas humilhações dos professores sem qualquer reação. Deixa de falar, de desenhar e vai se tornando indiferente a tudo e a todos. Ishaan foi impedido de ser ele mesmo.
Mas este filme indiano não foge à regra e, para alívio de todos, repete a fórmula do clássico pioneiro “Ao mestre com carinho”, seguido de “Sociedade dos poetas mortos”, e mais recentemente “Escritores da liberdade”, já comentado nesta seção. Também aqui há um professor herói, um salvador, e a redenção finalmente chega pelo personagem Ram Shankar, que assume as aulas de artes.
Ram tem um percurso profissional interessante: vem de uma escola especial da região, na qual desenvolve um trabalho belíssimo com crianças deficientes. Esse percurso e sua própria história nos bancos escolares o equipam para aproximar-se de Ishaan e empatizar-se com ele. O professor de artes logo percebe que o garoto está profundamente deprimido, pois não responde a sua forma inusitada de ministrar aulas: ele se apresenta aos alunos fantasiado, tocando uma flauta e convidando-os a dançar, cantar e, depois, desenhar livremente, deixando a imaginação correr solta no papel: “Divirtam-se, estão livres para desenhar o que quiserem!”. Ou seja, tudo que Ishaan fazia antes da opressão e violência que sofreu no ambiente escolar e familiar. Encapsulado, o garoto não reage mais; está tão anestesiado que nem consegue identificar em Ran Shankar o seu próprio modo de ser e ver o mundo.
Mas o professor está determinado a salvar o garoto, cujos “olhos berram por socorro”: analisa os cadernos, conversa com o único coleguinha com quem Ishaan mantinha um vínculo de amizade e finalmente procura pelos familiares dele. E é neste momento que reside, de nosso ponto de vista, o equívoco do filme.
Diante de um pai e uma mãe surpresos com a visita inusitada, Ran Shankar vai elencando sintomas de um distúrbio denominado dislexia, para afirmar que Ishaan não era preguiçoso ou indisciplinado e sim apresentava uma limitação real e de natureza orgânica que gerava seus problemas de aprendizagem escolar. Aqui, parece mesmo que o roteirista do filme tomou como base os manuais que caracterizam essa suposta doença e, didaticamente, vai expondo-a aos espectadores, muitos dos quais, certamente, chegaram em suas casas e correram para pesquisar na internet, como alíás, no filme, faz a mãe do menino, encontrando a confirmação de suas suspeitas quanto a uma pessoa da família ou a si próprios...
Só que, como temos apontado aqui no Ifono, trata-se de uma polêmica longe de ser resolvida, pois a existência da dislexia é bastante questionada, em especial quando temos uma história de vida como a de Ishaan. Fica evidente no filme a inadequação não só do sistema de ensino como do ambiente familar: ambos falhavam repetidamente com o garoto, exigindo que se adequasse a padrões de funcionamento e comportamento, que, na verdade, o impediam de aprender a partir de sua forma de olhar e compreender o mundo. Essa forma, porém, de maneira alguma é incompatível com o desenvolvimento intelectual; ao contrário, Ishaan tinha recursos e talentos para isso: curiosidade, capacidade de concentrção, observação apurada e busca de meios para expressar e compartilhar suas apercepções. Incompatível com um aprendizado genuíno é a forma de ensinar que vemos no filme: fragmentação dos saberes, sistematização descontextualizada de conteúdos, aversão à reflexão e criação, hipercorreção de erros ortográficos, etc..
Diante disso, como dizer que as supostas dificuldades do garoto advinham de um problema individual orgânico? O que vemos é uma organização defensiva contra essas graves falhas ambientais, e uma tentativa de se manter saudável em ambientes claramente doentes, contaminados por uma pressa e submissão impeditivas do contemplar e criar livremente. É bom que se diga que os erros ou trocas grafêmicas, espelhamentos de letras que nos vão sendo apresentados na tela, com o professor folheando os cadernos de Ishaan, nada mais são do que naturais em um processo de apropriação da escrita, e de forma alguma indicam uma dificuldade específica ou uma patologia de origem neurológica. Mostram sim que o garoto foi se afastando desse conhecimento, que lhe foi apresentado de uma forma muito pouco atrativa, além de segmentada e destacada de contextos reais de uso. Bastaria uma mediação mais consistente, aberta a experimentações, e professores menos ávidos para rotular e supercorrigir seus alunos, como vemos nos cadernos, repletos de correções em vermelho, para que essas questões fossem acertadas. Com o tempo, e exposto a situações discursivas significativas, o processo de letramento de Ishaan continuaria seu curso, como de fato vemos mais adiante (não deixe de ler texto publicado nesta seção: Considerações sobre a visitação a gêneros discursivos).
O próximo passo de Ran Shankar foi marcar uma reunião com o diretor da escola, e aí há um diálogo comum no ambiente escolar, que muitas vezes ocorre entre especialistas e coordenadores pedagógicos. O professor informa o problema do garoto, e o diretor então afirma categórico que ele deve ser transferido para uma escola especial. Mas Ran invoca o ideal da inclusão e o dever, assegurado por lei, de todas as escolas aceitarem crianças, independente de suas dificuldades, inclusive as deficientes. O diretor retruca, afirmando que, em classes numerosas, os professores não têm condições e nem TEMPO para se dedicar às especiais. Ran está decidido a ajudar e se oferece para acompanhar Ishaan individualmente, duas ou três vezes por semana.
E é neste momento que reside, de nosso ponto de vista, o acerto do filme. Não é o diagnóstico de dislexia que abre portas para Ishaan, como certamente os adeptos da existência da doença utilizarão como argumento. A grande virada e sacada está na parceria estabelecida entre o professor/mediador e o aluno. A partir dela, fica fácil aprender, abrir canais para ler, escrever e lidar com os números. O professor de artes se aproximou afetivamente do garoto, colocou-se no lugar dele e foi mostrando novas formas de apropriação e construção dos conhecimentos a partir desse lugar, de suas potenciliadades e recursos. Mas, se por acaso Ishaan tivesse sido atendido por um professor com outro perfil, ou encaminhado para especialistas que reproduzissem a mesma metodologia de ensino das escolas que frequentou, ou ainda para profissionais da área médica que optam por ministrar remédios (conhecidos como “drogas da obediência”) para o que apressada e inconsistentemente diagnosticam como deficit de atenção, poderia ter simplesmente se adaptado, sido domesticado e aprendido a fazer o jogo da instituição, como muitos, mas não necessariamente estaria vislumbrando nos conhecimentos a possibilidade de neles imprimir pessoalidade. Além do afeto, Ran reapresentou o objeto cultural escrita para Ishaan, resgatando, em especial, o aspecto lúdico e respeitando o tempo e ritmo de experimentação do garoto.
No final, assistimos a movimentos de confraternização bem raros no ambiente escolar de fora da tela, com todos reconhecendo suas limitações e se humanizando. Há também as reparações de praxe por parte dos familiares, dos professores e dos colegas, e Ishaan volta a sorrir e a ter esperança em suas capacidades de desenvolvimento.
É de fato um final feliz. Mas só na ficção. Junto com os créditos, vão surgindo imagens que não nos deixam esquecer que toda essa transformação na forma de cuidar de crianças reais, com exceção da mesmice e avidez equivocada por taxá-las como doentes, está bem longe de ocorrer. Sujas, maltratadas, carregando materiais pesados, inseridas precocemente no mundo do trabalho, exploradas por adultos, todas ainda sorriem para as câmeras... Até quando?


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