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12/04/2013
Claudia Perrotta
Filme A Caça

Direção: Thomas Vinterberg

Isso você só deve fazer com seu pai, sua mãe, ou com algum garotinho da sua idade de que você goste muito”: esta foi a resposta de Lucas, professor da escola infantil de um vilarejo dinamarquês, ao beijo da garotinha Klara, 5 anos, filha caçula de seu melhor amigo. Beijo na boca de princesa que salva o príncipe desmaiado, depois do ataque inimigo – um bando de aluninhos dando socos no professor de que tanto gostavam, brincadeira de luta que se repetia deliciosamente no cotidiano escolar.
Recém-divorciado, Lucas (Mads Mikkelsen, premiado como melhor ator no Festival de Cannes 2012) vivia sozinho, esperando o momento de voltar a compartilhar a guarda do filho adolescente, de quem vivia separado por conta dos conflitos com a ex-esposa. Era muito querido por todos da comunidade, não só pelas crianças; generoso, sempre disposto a ajudar, compartilhava os rituais dos “amigos” homens da região, beber e caçar, além de frequentar a igreja.
No caminho para escola, algumas vezes encontrava Klara, que não contava com a atenção e os cuidados assíduos dos pais, sempre muito ocupados com seus afazeres. Professor e garotinha iam juntos, brincando de desviar das linhas nas calçadas, ideia dela, como também foi iniciativa dela buscar segurança entrelaçando a mão na mão do professor, que, desta vez, um pouco titubeante, correspondeu ao gesto e ao afeto.
Mas, no dia seguinte ao beijo caloroso e ao enlace das mãos, Lucas encontra em seu bolso um bilhetinho em forma de coração. Assustado, desta vez é mais enfático nos limites: devolve-o à autora, reafirmando que Klara deveria fazer aquele tipo de coisa com meninos da idade dela. Abatida, a garota insiste em dizer que não havia sido ela, os dois discutem, e a aliança entre eles fica então ameaçada.
O dia chega ao fim, Klara está sozinha na sala escura, as outras crianças já foram, mas ninguém ainda veio buscá-la. A diretora se aproxima, pergunta se está tudo bem, e a garotinha então conta que Lucas havia lhe mostrado seu pipi, que estaria grande como uma vara – na verdade, repete trechos de uma conversa que, no dia anterior, ouvira do irmão adolescente com os amigos. Ainda incrédula neste primeiro momento, a diretora rapidamente “compra” a história, afirmando e reafirmando a falácia de que crianças não costumam mentir, convoca um especialista para “interrogar” a aluna, em seguida, na reunião de pais, relata a situação, de modo alarmante, e ainda alerta a ex-esposa de Lucas, que acaba sendo mais uma vez impedido de conviver com o filho.
A sequência de acontecimentos chega a despertar claustrofobia no espectador. Além de Lucas e Klara, somos, de fato, os únicos a conhecer toda a verdade e vamos testemunhando aquela autêntica confusão de línguas, nos sentindo tão impotentes quanto o professor, que é julgado e condenado, sem ser ouvido ou considerado em sua história na comunidade. Assistimos a uma série de projeções de sentimentos, frustrações, recalques, culpas, crueldades recaindo sobre as duas vítimas da história: Klara e Lucas, que buscam então se expressar com seus recursos e idiomas pessoais, sendo, no entanto, pouco ou nada ouvidos e contemplados em suas necessidades e anseios.
Vejamos: Klara tenta comunicar seu desamparo, sumindo pelas ruas do vilarejo. Descuidados, os pais algumas vezes nem percebem que ela não está presente, ou então discutem sobre quem abdicará de seu tempo para levá-la à escola, sacrifício que não estão dispostos a fazer pela filha caçula. Surge então o herói, Lucas, único a lhe ofertar um olhar amoroso, de empatia. Preocupado com a garotinha, dispõe-se a acompanhá-la, não julga, antes, compreende sua estranha necessidade de não pisar em linhas, transformando-a em brincadeira e, até certo ponto, mantém a comunicação entre eles a partir do registro infantil – essa capacidade de falar a língua das crianças aparece também na forma como interage com seus alunos, na disponibilidade afetiva que dedica a eles no cotidiano escolar.
Explico o aposto acima, até certo ponto: claro está que o professor não realiza qualquer ato sexual impróprio, não assedia a aluninha; porém, penso que a confusão de línguas tem início justamente quando Lucas, com a boa intenção de colocar limites na relação de ambos, “interpreta” o afeto que Klara lhe dedica, mais especificamente, o beijo na boca, e depois o bilhete, pela perspectiva do universo adulto. Não se trata aqui de questionar o potencial da sexualidade infantil; ela de fato investe amorosamente no professor, mas, me parece, muito mais porque nele encontrou a hospitalidade constitutiva ao seu modo de ser, aos seus gestos pessoais – algo que vinha faltando no ambiente familiar. A reação raivosa de Klara, acusando Lucas injustamente, é a forma que encontra para comunicar a quebra de aliança, de vínculo entre eles, ou a incompreensão de seu amor, dedicação, e a profunda mágoa que lhe causou.
Mas a interlocução que encontra para esses sentimentos é totalmente equivocada – mais uma confusão de línguas, desta vez mais grave, vinda da diretora da escola. Apegada a preceitos morais retrógrados, repleta de certezas e nenhuma dúvida, precipita-se disseminando horror na comunidade, pouco escuta ou acolhe Lucas, dando mais valor ao especialista que, supostamente, “ouve” Klara. Certamente, esta cena da “investigação” exaustiva é uma das mais aflitivas do filme: usando expressões infantis de modo caricato para se referir aos órgãos sexuais e à “cena” de assédio, o especialista induz a garotinha a relatar um crime inexistente, enquanto ela tenta negar o ocorrido, pedindo para voltar ao parque, junto com as outras crianças - estas sim, falantes verdadeiros de seu idioma. Vemos retratada na tela algo preocupante e que tem se intensificado cada vez mais na sociedade contemporânea: o poder dos laudos, a supervalorização dos diagnósticos ditados por especialistas, com seu suposto saber a respeito de padrões de normalidade – trata-se, nas palavras de Pondé (FSP, 01/04/2013), da necessidade da “benção científica”, que tem contaminado diversos campos do saber e penetrado na vida cotidiana, em especial através dos canais midiáticos.
Em outra cena, igualmente perturbadora, como, na realidade, todo o filme, novamente Klara “confessa” que falou bobagem, mas a mãe também não consegue escutá-la, mantendo-se no registro adulto, revozeando um discurso psicologizante, lugar-comum: “você está negando o mal que Lucas lhe fez porque está traumatizada, isso é natural em situações de violência...”. Klara acaba embarcando nessa ideia, talvez por ter assim finalmente conseguido a proteção e o acolhimento da mãe, sempre tão falhos.
Lucas, de seu lado, pouco usa de palavras para argumentar em seu favor. Ao ser comunicado da “acusação” pela diretora, surpreende-se, não imagina qual criança poderia tê-lo envolvido e, paralisado, nem consegue se defender, já que não se identifica com narrativa tão distorcida. Depois, tenta enfrentar a hostilidade do melhor amigo, pai de Klara, remetendo-se à história da amizade e confiança entre eles, construída desde a juventude; encara-o durante a missa de Natal, mostrando sua revolta e mágoa por sua incompreensão e desconsideração a tudo que viveram juntos. Mesmo depois de ser absolvido pela justiça, diante da inconsistência das provas contra ele, é impedido de frequentar o mercado, agredido verbal e fisicamente, mas reage, afirmando seu direito como cidadão. Opta então por reassegurar sua inocência mantendo sua dignidade, permanecendo na comunidade, contando então com a cumplicidade e apoio fundamentais do filho, um dos únicos a defendê-lo incondicionalmente diante do ódio e desconfiança quase unânimes. Certamente, esta reação do filho é a maior prova da inocência de Lucas – aqui não há confusão de línguas, pois o registro de memória do garoto é de um pai amoroso e dedicado, e não de um suposto pedófilo.
O tempo passa. E antes da cena final do filme, pra lá de intrigante, Klara e Lucas se reconciliam. Parece que Lucas agora alcança uma compreensão mais profunda da garotinha, a partir de seu registro, talvez por ter se identificado com o sofrimento e desamparo gerados pela incompreensão, e volta a lhe oferecer o que ela tanto buscava: ser vista e reconhecida pelo outro, simples assim.
Gestos mais do que palavras, muito mais .


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