6 de Agosto de 2020


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Fatos e versões: um caso policial servindo ao estudo histórico

O Crime do Restaurante Chinês
Claudia Perrotta e Lucia Masini

Um dos mais importantes historiadores brasileiros, Boris Fausto tem se destacado pelas análises de grandes fatos históricos, como a Revolução de 30 e a criminalidade de São Paulo entre os anos 1880 e 1924. Em seu novo livro, O Crime Do Restaurante Chinês – Carnaval, Futebol e Justiça na São Paulo dos Anos 30 (Companhia das Letras), opta, porém, por trilhar outro caminho, detendo-se em um trágico episódio que ocupou grande espaço na imprensa em 1938: o brutal assassinato de um casal de chineses, proprietário de um restaurante no centro de São Paulo, juntamente com dois de seus funcionários. “Quis enveredar pela micro-história”, afirmou o autor em entrevista à Revista Época (18/04/2009), método também utilizado por outros estudiosos, que consiste em “buscar num episódio particular uma chave para a história”. Neste livro, Boris Fausto narra então o episódio em si, destacando o tratamento que recebeu dos jornais e do poder judiciário da época, dimensionando-o em termos socioculturais: racismo, migração e imigração, precariedade econômica em contraste com o crescimento da cidade, carnaval e futebol, e ainda o confronto entre concepções jurídicas são tematizados, enquanto o leitor vai se deliciando com a destreza do autor em nos colocar diante de uma história de suspense, um verdadeiro crime perfeito, sem solução. Afinal, “o historiador não deixa de ser um detetive”... , como bem destaca o autor.
São inúmeras, portanto, as razões que nos levam a, literalmente, devorar o livro! Dentre elas, destacamos aqui duas, que certamente devem atrair os frequentadores do ifono: a linguagem majoritariamente utilizada nos jornais da época e a aplicação de testes psicológicos para “diagnosticar” personalidades criminosas.
Chama a atenção o tratamento sensacionalista dado à notícia, com excesso de adjetivos para qualificar o crime, como: horrendo, tenebroso, sinistro, indicando falta de compromisso com uma apuração mais profissional dos fatos e predominando nos jornais uma tendência à especulação, algo hoje bastante questionado. Ainda que exista o ideal da neutralidade na veiculação de uma notícia, o fato é que nenhum discurso é neutro, nem mesmo aquele que pretende apenas relatar fatos ordenados no tempo, principal característica dos noticiários. Se ficarmos atentos a todo o contexto de produção de uma notícia, veremos que há muito mais em jogo que a apuração dos fatos.
Certamente, o leitor acostumado a ler diferentes jornais e revistas semanais já se deparou com uma mesma notícia criando sentidos muito diversos, dependendo do veículo em que foi publicado. Uma notícia até ser impressa nas páginas de um jornal passa por uma produção que envolve: o público a que se destina, a linha editorial do jornal, o perfil dos anunciantes que o patrocinam, a seção em que a matéria será publicada, as expressões e palavras utilizadas para imprimir certa marca no texto ou que fazem parte do estilo pessoal do jornalista. E tudo isso relacionado ao contexto histórico-social da época da publicação. Assim, para que o leitor leia de fato uma notícia, seus olhos não podem apenas decodificar os sinais gráficos que ali se encontram. É preciso que levante hipóteses sobre aquilo que está dito já no título ou nas primeiras linhas do texto; que faça inferências, isto é, vá relacionando o que é dito com o que está implícito, que acione seu conhecimento prévio do assunto e seu conhecimento de mundo. Somente com uma leitura assim passamos do consumir informações para o construir conhecimentos.
Existem inúmeras pesquisas, na área da Linguística, que estudam os gêneros discursivos que circulam na esfera jornalística, as posturas do leitor de jornal, os efeitos da leitura da primeira página (interessados, acessem www.biblio.pucsp.br – link para CEPRIL). Sabe-se, por estes estudos, por exemplo, que a maior parte de leitores da mídia impressa realiza uma leitura diagonal do jornal, ou seja, atêm-se principalmente às manchetes, subtítulos e sínteses dos textos publicados. Daí a preocupação dos editores em compor de modo atrativo e eficaz a primeira página de um jornal.
Notícias da seção policial sempre atraem muitos leitores, com a garantia da leitura dos dias subsequentes para acompanhar o desfecho dos casos. Não por acaso são os textos mais carregados em adjetivação e especulações de diversas ordens. Quem matou, qual o motivo, quem testemunhou? Dia após dia novos fatos surgem compondo uma trama digna de narrativa policial. O crime da Rua Cuba, o caso da Isabela Nardoni, o caso da Escola Base são exemplos deste trabalho jornalístico que extrapola os limites da informação dos fatos, por vezes sentenciando culpados antes mesmo do desfecho judiciário do caso. O livro “A honra perdida de Katarina Blum”, de Heinrich Boll, adaptado para o cinema em 1975 por Volker Schlöndorff e Margarethe von Trotta, conta a história de uma jovem que teve sua vida arrasada por um jornal que resolveu especular um crime, a ela atribuído, que chocou a todos na cidade. Sem dúvida, um clássico dos anos 70 que nos faz pensar sobre o poder que a mídia exerce na sociedade. Narrativa policial que serve, como Boris Fausto afirmou, a um estudo histórico.
Já no caso dos autos do processo, tema também explorado no livro, Fausto destaca a influência da Escola Positiva, que se utilizava de testes ainda hoje aplicados em consultórios de psicologia e que, na ocasião, eram considerados por muitos especialisas decisivos para elucidar crimes. Em um deles, estímulos verbais, ou “palavras indutoras” eram apresentadas ao suspeito, que deveria então fazer associações livres, que eram avaliadas quanto à vivacidade ou perturbação emotiva, de acordo com o tempo de reação, a demora para responder, e observações do tipo respostas estereotipadas ou denunciadoras. Ou seja, tudo muito subjetivo, mas que era objetivado em um pretenso “verificador de sinceridade”.
Trata-se de um discurso médico-científico que “patologizava o ato antissocial” e que hoje perdura na sociobiologia, ciência que “busca razões genéticas para muitos aspectos do comportamento humano”, por exemplo, relativizando as condições sociais como fator da criminalidade (Fausto, 2009: 89-91).
Esse discurso não só ganhou espaço na esfera jurídica, como também vem invadindo outros campos do saber, em especial, áreas que, justamente por cuidar de seres humanos, jamais deveriam deixar de considerar sua complexidade. No que se refere, por exemplo, à avaliação das condições para o aprendizado da escrita, como temos apontado aqui, assistimos hoje a uma pressa dos profissionais em traçar perfis, buscar causas anatômicas, funcionais e/ou genéticas para o que consideram distúrbios ou atrasos, tomando por base padrões de desenvolvimento, o que só contribui para o preconceito e a exclusão social. É patente não só a inconsistência de alguns testes, questionários, avaliações, como também a falta de rigor das pesquisas nos quais se baseiam.
Voltando ao livro de Boris Fausto, além das reflexões que nos possibilta, o autor ainda nos surpreende com um capítulo final, em que revela as razões que o levaram a contar esta história, compartilhando com os leitores episódios de sua vida pessoal e a sombria memória do crime ocorrido em 1938, quando tinha apenas 8 anos de idade e lia as notícias para o avô cego.
Destacamos ainda o domínio do gênero discursivo escolhido, ensaio histórico, e a desenvoltura com que o autor visita outros gêneros no decorrer do livro: narrativa, reportagem, testemunho pessoal. Confiram!


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