15 de Dezembro de 2018


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Envelhecimento e o universo digital

Texto adaptado do TCC apresentado na faculdade de Fonoaudiologa da PUC-SP
Jason Gomes


Se as projeções estatísticas se confirmarem, em 2015, 15% da população mundial, um bilhão de pessoas, terá mais de 60 anos. Como disse Délia Goldfarb, o desafio que se coloca frente a esse dado está no modo como se lida com o envelhecimento populacional.
No Brasil, o número de indivíduos acima dos 60 anos, que era de 2 milhões em 1950, saltou para 6 milhões em 1975 e para 14,5 milhões em 2000. A cada ano, 650 mil pessoas são incorporadas à população com mais de 60 anos. Projeções estatísticas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE, apontam que, em 2020, haverá mais de 30 milhões de idosos no país, o que representará 13% da população total.
Atualmente, os reflexos do envelhecimento social podem ser percebidos por conta da importância que se tem dado à velhice nos mais diversos contextos. Setores da indústria, do comércio e de serviços já observaram que os velhos constituem uma camada da população em condições, ainda que mínimas, de incrementar o consumo. Cotidianamente, a mídia veicula propagandas destinadas e protagonizadas por velhos e velhas, mostrando-os felizes e dispostos a aproveitar bem o tempo de vida que lhes resta. Os discursos públicos pela inclusão do velho estão constantemente presentes em toda mídia, enquanto há um aumento significativo da produção acadêmica, na área de estudos sobre o envelhecimento, que vem contribuindo para a recente criação de cursos de graduação em Gerontologia no Brasil. Por conta disso, talvez nunca se tenha falado tanto sobre o velho.
Mas qual será a imagem que a população, de forma geral, vem construindo sobre esse momento da vida? E quais os espaços sociais que destinamos aos velhos de hoje e a nós, velhos de amanhã?
Idosos no Brasil: Vivências, desafios e expectativas na 3a Idade, uma pesquisa pioneira na investigação das percepções dos idosos brasileiros em relação ao envelhecimento e ao contexto social em que estão inseridos, realizada, em 2006, pela Fundação Perseu Abramo, em parceria com o SESC Nacional e o SESC SP, indicou as carências e necessidades no âmbito pessoal e público dos idosos brasileiros.
A pesquisa foi realizada em 204 municípios pequenos, médios e grandes de todas as regiões do país e se destinou a investigar a imagem que os mais jovens têm da velhice.
Os dados obtidos apontam que a imagem de velhice está principalmente associada a aspectos negativos, tanto para os próprios idosos (88%), com para os não idosos (90%). Dentre os aspectos referidos pelos entrevistados, as doenças, as debilidades físicas, o desânimo e a dependência física são os principais sinais de que a velhice chegou, corroborando visões sobre o envelhecimento como período somente de perdas. A expressiva maioria dos não idosos (85%) e dos idosos (80%) afirma existir preconceito contra a velhice no Brasil. Mas poucos admitiram ser preconceituosos em relação à velhice: apenas 4% dos não idosos.
Outra pesquisa, de Araújo e Carvalho (2004), realizada na cidade de João Pessoa, procurou compreender quais as representações sociais que dois grupos de velhos, de contextos socioeconômicos distintos, possuíam acerca da velhice e se havia diferenças nas formas de representá-la. O referencial teórico utilizado para tratar de representações sociais vem de Jodelet (2001). Essa autora afirma que conhecer as representações sociais de um determinado grupo é uma forma de compreender a realidade do cotidiano, uma forma de conhecer os valores, as ideologias, a comunicação, a bagagem cultural dos grupos sociais e como eles se interrelacionam.
Os resultados são bem interessantes. Os dados revelaram que tanto um grupo como o outro mais negam a velhice do que a aceitam. Ricos ou pobres, os velhos não se dizem velhos. As afirmações mais recorrentes são "eu não tenho velhice”, “ninguém gosta da velhice” (Araújo e Carvalho, 2004).
Se as projeções estatísticas se confirmarem, em 2015, 15% da população mundial, um bilhão de pessoas, terá mais de 60 anos.A negação da velhice desdobra-se na negação do envelhecimento e desgaste físicos, e foi mais observada no grupo de alto poder aquisitivo, uma vez que o ideal da beleza jovem ainda se faz muito presente. Muitos sacrifícios são feitos mais para a manutenção de um corpo jovem do que para um envelhecer saudável.
É possível afirmar que, na perspectiva de um olhar para os sinais biológicos do envelhecimento, assumir-se velho é sinônimo de doença e de perdas. Dessa forma, além da questão física, assumir-se velho parece ser também assumir a sentença de não possuir função social, de não ser produtivo.
Não ser produtivo implica na diminuição do status social do velho, diminuição essa que também está relacionada ao rápido desenvolvimento tecnológico dos anos recentes. Uma das consequências desse avanço é a desvalorização das habilidades dos mais idosos, tornando suas contribuições imediatas para a sociedade menos relevantes e marginalizando seu envolvimento em práticas sociais mais contemporâneas (Veras, 2000).
Todas as atividades humanas atuais, sejam econômicas, políticas, culturais ou sociais, são permeadas pelo uso das novas tecnologias. A internet, sem dúvida, é um dos adventos da tecnologia que se faz presente cada vez mais em nosso cotidiano. Nela encontramos inúmeras possibilidades de interação, de práticas sociais e de gêneros discursivos, próprios desse meio digital, que se tornam, cada vez mais, parte integrante de nossa sociedade. Os idosos não deveriam estar à margem dessas possibilidades.
Os velhos da atualidade viveram sua juventude em uma época em que o acesso à informação pressupunha a ida a bibliotecas e a arquivos de jornais. Hoje, esse movimento é algo praticamente impensável para os jovens, uma vez que a internet possibilita o acesso imediato à informação.
Além disso, compras, transações bancárias, conversas estão acontecendo em alta velocidade na internet e ficar fora disso corrobora a ideia de que os velhos vivem num tempo que não é mais deles e de que não há mais comunicação possível nem necessidade de que aprendam a lidar com a tecnologia.
A manutenção de estereótipos a partir dos quais se acredita que o velho não precisa, não quer e não é capaz de utilizar os recursos tecnológicos atuais precisa ser superada (Sá, 1999).
Segundo Debert (1999), desde o século XIX os velhos são acompanhados por representações sociais que associam o envelhecimento à perda de papéis sociais, de força e destreza e da capacidade de adaptabilidade.
É evidente a necessidade de transformação dessas representações. Garantir ao idoso não apenas o acesso, mas a apropriação das novas tecnologias e seus usos pode ser um importante instrumento para que outras representações sociais possam se configurar.
Buscando contribuir para essa compreensão, desenvolvi, no final de 2008, oficinas de iniciação ao uso de tecnologias digitais –letramento digita l- para a população acima dos sessenta anos, em uma comunidade da zona sul de São Paulo. Após as conversas iniciais com o grupo que se formou, ficou evidente o receio em não conseguir utilizar o computador, já que diziam: “o computador é mais para os jovens...”. Essa ideia que reprimia o desejo de frequentar telecentros ou lan houses que disponibilizavam cursos.
As oficinas não visavam ensinar a usar o programa de texto, acessar a internet ou mandar e-mails, mas aproximá-los e permitir a familiarização com o computador.
As percepções iniciais, de não se sentirem pertencentes ao universo das tecnologias, de terem medo ou sentirem muita dificuldade para lidar com o computador, foram pouco a pouco desconstruídas, dando lugar a novas representações de si mesmos, permitindo a realização dos desejos que a descoberta do computador trouxe, como a aquisição de um equipamento, o acesso à internet, a busca por informações, o compartilhamento de ideias e histórias.
Foi possível verificar transformações subjetivas importantes, como a mudança de passividade para uma postura ativa na obtenção de informações. O trabalho desenvolvido nas oficinas permitiu a percepção de que é possível ir atrás da informação mais significativa, assim como a possibilidade de encontrar outras fontes de informações e confrontar idéias.
Os velhos que participaram destas oficinas permitiram a compreensão de que é possível contribuir para sua produtividade subjetiva por meio do fomento e incremento ao letramento digital, já que eles passaram, claramente, a se aproximar mais de uma vida social produtiva.
Após essa experiência, ficou evidente que, para que novas representações sociais possam se configurar, não basta apenas garantir o acesso dos velhos às novas tecnologias, mas, também, criar condições para que se apropriem delas e passem a ver sentido e desejo em utilizá-las.
Possibilitar ao velho entrar em contato com o universo digital, de forma significativa e disponível para os aspectos próprios da velhice, permite não só a apropriação do uso do computador, mas também contribui para o sentido de pertencimento social, para a produtividade e saúde na velhice.


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