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25/03/2011
Lucia Masini
DPAC: mais uma doença ganha espaço na mídia

Começamos o ano com mais uma sigla a decorar. E mais uma doença para rotular crianças e adolescentes.

DPA ou DPAC é o distúrbio do Processamento Auditivo Central que vem sendo estudado há algum tempo mundo afora e também no Brasil. Trata-se de uma dificuldade relacionada ao modo como o sistema auditivo nervoso central processa e utiliza a informação auditiva. Em outras palavras, não basta que essa informação entre pelo canal auditivo. É importante que ela ganhe um sentido e isso é (ou não) conseguido por meio de alguns processos neurocognitivos. Segundo o relatório da ASHA 2005, faz parte do processamento auditivo as seguintes habilidades: localização e lateralização, discriminação auditiva, reconhecimento do padrão auditivo, aspectos temporal da audição (integração temporal, discriminação temporal, ordenação temporal, performance auditiva com sinais competitivos, performance auditiva com sinais acústicos degradados).
Na prática, a pessoa com DPA pode não localizar de onde vem o som (localização da fonte sonora), pode confundir palavras proferidas (por discriminar equivocadamente alguns sons), pode não saber eleger o som principal dos secundários (fazer uma seleção entre figura e fundo). Na infância e na adolescência, os pesquisadores da área atestam que essa dificuldade tem consequência direta na aprendizagem formal. A criança ouve o que a professora diz ou dita, mas se distrai com outros sons e/ou acaba escrevendo algo que a professora não falou, o que pode compremeter seu desempenho escolar. Por vezes, a criança com DPA é tomada como alguém com TDAH.
DPA,TDAH e aí começa o perigo...
Neurologistas e fonoaudiólogos falam da dificuldade em se precisar o diagnóstico porque os sintomas são muito parecidos e a queixa principal tem sido a falta de atenção. No entanto, mesmo cientes do problema, proliferam-se os pedidos de exames.
A avaliação para o diagnóstico de DPA não é fácil de ser realizada. Profissionais mais cautelosos afirmam a necessidade de se envolver uma equipe multiprofissional em tal processo: neurologistas, psiquiatras, otorrinolaringologistas, audiologistas, fonoaudiólogos, psicólogos, pedagogos e profissionais da educação devem analisar fatores preponderantes de cada caso para a determinação do diagnóstico. Mas, como há uma bateria de testes que avalia especificamente o processamento auditivo central, muitas vezes vemos crianças e adolescentes tendo seus diagnósticos fechados apenas com a realização deste exame. E isto é um erro.
Erro sobretudo porque trata-se de um exame difícil de ser realizado, que exige muito da concentração e atenção do paciente. Em uma cabine acústica, com fones nos ouvidos, o paciente tem de responder a algumas solicitações do examinador ao receber estímulos tais como:
•Sons iguais apresentados simultaneamente em ambas as orelhas
•Sons diferentes apresentados simultaneamente em ambas as orelhas
•Sons diferentes apresentados simultaneamente na mesma orelha

Entre os testes, há, por exemplo, o de identificação de dez frases ou palavras por meio de figuras representativas. Enquanto numa orelha, o paciente escuta as palavras ou frases que deverá identificar nas figuras, a mensagem competitiva apresentada na outra orelha é uma história infantil. Como garantir que a não identificação das frases está relacionada a uma falha no processamento auditivo? Acaso a história infantil não pode ser mais interessante à criança roubando-lhe a atenção necessária para o sucesso na realização do teste? E ainda, como garantir a atenção necessária para um determinado aspecto se, muitas vezes, a queixa principal desses sujeitos é justamente a dispersão? O teste já não estaria de antemão comprometido?
Não estamos aqui invalidando o trabalho de profissionais sérios na área, nem tampouco negando a existência de possíveis falhas no processamento auditivo. Queremos apenas alertar a população para a onda crescente de diagnósticos realizados de forma descuidada que, como já dissemos em outras oportunidades, mais desorientam e rotulam que auxiliam na retomada do curso saudável da vida.
Se você é pai de uma criança para a qual foi solicitado um exame de processamento auditivo central, busque outras opiniões, certifique-se de que este diagnóstico não sairá apenas da realização da bateria de testes aqui mencionada, questione a validade de se fazer uma avaliação que exige do paciente justamente aquilo que falta em seu filho, a atenção.
Esse cuidado, ainda que demande mais tempo e gere ansiedade por respostas ao problema presente, pode trazer um conhecimento mais profundo de suas causas, um estreitamento das relações e, quem sabe, no lugar de mais um rótulo, a descoberta de particularidades que fazem do seu filho um ser único.

Em tempo: o livro "Medicalização de Crianças e Adolescentes" será lançado no dia 02 de abril, a partir das 16h00, na Livraria da Vila (Fradique Coutinho, 915). Profissionais de diversas áreas discutem, a partir de suas práticas, os conflitos silenciados pela redução de questões sociais a doenças individuais. Não deixe de comparecer!


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