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18/03/2010
Claudia Perrotta
Documentário: Só dez por cento é mentira ou o homem que comprou [a liberdade d] o ócio...

Diretor: Pedro Cezar

Estamos falando do poeta matogrossense Manoel de Barros, 93 anos, que acaba de lançar um novo livro: Menino do Mato (editora Leya). Embora não biografável, ganhou as telas no belíssimo documentário de Pedro Cezar, já premiado como melhor longa de 2009. Também narrador do filme, o diretor conseguiu não só realizar seu sonho de entrevistar o autor - que recentemente se tornou o poeta mais lido no Brasil, com mais de 20 livros publicados - como nos apresentar a esse artista brasileiro de maneira bastante lírica, em consonância com a poesia que vai surgindo na tela. “Tudo que não invento é falso”, é uma delas, mote do filme, que fala justamente da inventividade em tempo integral, do ócio cotidiano e pra lá de criativo do poeta.
Longe de explicar a existência desse inovador da língua ou de entrevistar acadêmicos para teorizar sobre sua obra, o diretor busca brincar com as imagens da mesma forma como Manoel ousa fazer com as palavras. Elas ganham força, primeiramente, nos cadernos de notas do poeta, depois quando chegam às livrarias e finalmente, às telas. As frases são sempre curtas, não há métrica, rima, pelo menos não no sentido que atribuímos a elas. Manoel não está interessado em academicismos e gramática correta; quer “avançar para o começo, para o criançamento das palavras”. Por isso criou o manoelês, como temos na linguagem de Guimarães Rosa; mas não se gaba por isso. O “idioleto manoelês archaico” é para “idiotas que falam com as paredes e moscas”. Manoel de Barros não trabalha com o cérebro para compor seus escritos, e assim comprova a riqueza do arcaico para um homem que passa seus dias escrevendo em cadernos antigos combinações de palavras que sua observação do que é inútil desperta. Com letra miúda, ele trabalha cada termo do avesso, descobrindo na gramática infantil uma possibilidade de aprendizado. Surgem na tela imagens de crianças que, quando reinventam objetos – como um pneu de borracha que vira balanço - “ampliam o espaço”: “Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser lida”.
Assim como a poesia do artista, o filme transforma. Ou transfigura, ousa “transver”. Em meio a testemunhos de familiares próximos, amigos, escritores, atores que mergulharam no universo manoelês, o documentário inova e cumpre bem o desafio de não falar em excesso, explicar, compreender, esgotar matéria que não nasceu para isso, a poesia - “virtude do inútil” - em seu estado mais elevado. Tudo tem uma sonoridade única, carregada sim de sentido, só que um sentido que só pode ser dito por ele mesmo, só pode aparecer como revelação – qualquer outra linguagem tenderia a tudo iluminar; então, já teríamos lógica, relações causais, sem sombras e escuros... “Sou um sujeito cheio de recantos. Os desvãos me constam”. A linguagem inventada pelo poeta tem como parceiros afetivos pessoas da região do Pantanal, verdadeiros personagens e fontes de inspiração, aos quais dá os devidos créditos.
Uma curiosidade: ficamos sabendo no depoimento do filho de Manoel, falecido recentemente em um trágico acidente, que o pai gostaria de requisitar que não fosse mais lido para o vestibular. Como interpretar ou desvendar a construção gramatical destas frases? Ou para que fazê-lo: “Minha alegria ficou sem voz, Escutei um perfume de sol nas águas, As árvores me começam, Lagartixas têm odor verde”?
A vida cotidiana de Manoel de Barros que surge diante de nós é de uma simplicidade e de um silêncio que chegam a nos estranhar. Manoel confessa trabalhar “arduamente para fazer o que é desnecessário”, celestiar-se pelas “coisas rasteiras”, com “cacoete para vadio”. Não há mesmo por que cair no vestibular ou como colocar tanta vida em questões de múltipla escolha.
Difícil é manter-se nessa experiência de silêncio, em suspensão, para a qual o filme também convida. Silêncio para poder ver, mas como sinônimo de já transformar. Uma ausência de eletrônicos, com paredes desbotadas, casas tão velhas como os donos; há uma harmonia entre coisas e gente, tudo se combina, tem história, tem caminho percorrido, tempo passado. “Não saio de dentro de mim nem para pescar”. É essa ausência de objetos com funções definidas, objetos de consumo em que estamos submersos, que cria um ambiente bem propício para a inventividade. As coisas que compõem este cenário, assim como a palavra poética, estão para serem descobertas, são feitas portanto de outra matéria.
“Há histórias tão verdadeiras que parece que foram inventadas”. Estamos diante de um filme verdadeiro que, sem nada explicar, nos apresenta todo o contexto e ambiente que pode favorecer o surgimento de um artista, ou de um poeta que não gosta “de palavra acostumada”. Alguém de que ainda necessitamos, que parece já nascer como um visionário, um artífice de palavras, lembrando qual a tarefa que verdadeiramente nos cabe neste mundo.
Mas se só dez por cento é mentira, como diz o título, o que seriam os restantes 90? É preciso assistir o filme, que logo deve chegar às locadoras. Fazê-lo é o mesmo que passar uma hora e meia no ócio, só respirando poesia.
JÁ DISPONÍVEL EM DVD!

Para ler outros comentários e saber mais sobre a obra de Manoel de Barros, visite:
www.sodez.com.br
E, enquanto não chega às locadoras, assista o trailer do filme:



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