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12/08/2013
Claudia Perrotta
Depois de Lúcia, precisamos falar sobre Alejandra...

Direção: Michel Franco – México, 2012

Por que Alejandra teria suportado calada tantas humilhações?
Essa é sem dúvida a pergunta que o público se faz ao final deste filme contundente, “Después de Lucía” (premiado em Cannes, 2012), tão necessário no contexto atual, pelo fato de trazer à tona questões que dizem respeito à escola e família, ambientes em que jovens convivem com adultos, os quais têm como função deles cuidar.
Bullying pesado, infernal, dói no corpo e na alma, a gente chega a pensar em sair do cinema ou acionar o pause. Mas o melhor mesmo é seguir adiante, na esperança de que o final traga alguma redenção, nem que seja a vingança do pai impotente, por tanto tempo alienado do sofrimento da filha.
Alienação é, por sinal, uma boa palavra para tematizar o filme: todos parecem de certa forma alienados de si, e como consequência, descompromissados uns com os outros e sem capacidade de empatia. Os alunos/bullies, como sempre covardes, exercitando a crueldade pela crueldade, o poder pelo poder, o sadismo pelo sadismo sobre a nova colega Alejandra, que “carinhosamente” chamam de Ale – a já clássica divulgação de vídeos pela internet, sendo ela a protagonista da cena constrangedora juntamente com o garoto, obviamente preservado de julgamentos morais; violência sexual; ridicularizações das mais diversas ordens; bilhetinhos ofensivos; isolamento. E os educadores da escola, que se restringe a controlar os alunos obrigando-os a realizarem exames de urina para policiá-los e verificar se consumiram drogas. Alienando-se justamente da função de educar com a confusão que fazem entre olhar/cuidar e vigiar/punir, contribuem para criar uma geração de jovens dissimulados, acríticos, preconceituosos, conservadores e submetidos a moralismos os mais retrógrados.
Mas e Alejandra? Por que se submete, por que aceita ser trivializada, se tornar coisa nas mãos dos colegas? Alienação também é condição que bem a define, de certa forma – mas certamente uma das razões para nela permanecer e aceitar os castigos tão passivamente relaciona-se à morte da mãe Lucía, em um trágico acidente de carro, como anuncia o título do filme, por sinal. Parece que essa perda inesperada a levou a se organizar de forma defensiva, talvez por alguma culpa que não tenha tido tempo de reparar – qual garota de 15 anos já não desejou, simbolicamente, a morte da mãe, por quem nutre amor e admiração? Desejo saudável, por sinal, que faz parte do crescimento, necessário para a constituição de si e superação de idealizações das figuras paternas. Mas o momento em que a morte acontece parece ter confundido Ale, que se viu diante da concretização de uma fantasia. Seguindo o pai na fuga da cidade (Vallarda) que lhes trazia lembranças tão ruins - forma de delas se defender, pela cisão ou corte com o passado - não revela aos novos colegas da Cidade do México sua orfandade, como se essa condição fosse, por si só, uma humilhação, motivo de vergonha ou por expor sua vulnerabilidade. Também não revela ao pai a crueldade de que é vítima, talvez para preservá-lo de mais um sofrimento, ou talvez porque, de forma abrupta e apressada, tenha perdido o lugar de filha, tendo de assumir, imaginariamente, o de esposa do pai, dona da casa, mãe de uma nova família – mulher forte, madura, em condições de suportar sozinha os reveses da vida, sempre segura, negando seus conflitos, nunca pode se mostrar desamparada... Interessante que o bullying é todo voltado à sexualidade de Ale – ela é punida por seus algozes e, parecendo identificada com eles, aceita essa punição por despertar o interesse do garoto cobiçado por outra colega, tornando-se sua rival, por ter um belo corpo, cabelos longos, enfim, por ser mulher...
Mas talvez a palavra que melhor sintetize o filme e responda à pergunta inicial seja outra, incomunicabilidade. O que vemos na tela são sofrimentos não compartilhados, que não encontram lugar de expressão, não ganham moldura a partir do diálogo com o outro, indisponível para ouvir, acolher, sustentar, pensar junto, alguém em que se possa confiar. Os sentimentos e conflitos permanecem, assim, encapsulados, sem ressonância, sem nome, sem circulação, sem possibilidade de transitar entre ódio, amor, revolta, indignação, tristeza, saudade. O pai, por sinal, dá o tom desse aprisionamento em si – tanto em relação à morte da esposa como, depois, na forma como vinga a filha: fuga, lei de Talião, negação, silêncio, um homem que não encontra recursos para lidar com suas perdas, com o luto. Triste, mas esse é o modelo de adulto em que Ale encontra inspiração.
Pai e filha, alienados e doloridos, seguem calados, enquanto nós, do outro lado da tela, vamos constatando, impactados, que ainda precisamos falar, e muito, sobre Alejandras...
Quem sabe a gente consiga enfim responder a outras perguntas, tão urgentes quanto a primeira: por que a escola continua a ser palco de tanta violência, exercício de crueldade e de humilhações? Como crianças e adolescentes têm chegado ao ambiente escolar, vindos de ambientes familiares negligentes e falhos nos cuidados a eles dedicados? Quais modelos de adultos estamos, afinal, deixando aos nossos jovens?


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