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29/09/2011
Lucia Masini
Criança não trabalha, criança dá trabalho

No contexto cultural, esta afirmação, aparentemente óbvia, é bastante conhecida: trata-se do refrão da música de Paulo Tatit e Arnaldo Antunes, Criança Não Trabalha, difundida pelo grupo musical Palavra Cantada. Mas, no momento em que a trazemos para o contexto da realidade mundial das crianças, sua obviedade parece cair por terra.
Criança não trabalha NÃO é um direito universal para aqueles que se encontram no período da infância. James Mollison, em um ensaio fotográfico intitulado Where children sleep, publicado por Chris Boot, em 2010, nos mostra que, para além das brutais diferenças entre ricos e pobres do mundo inteiro, criança tem assumido sim e com muita seriedade funções da vida adulta. Em suas fotos, vemos crianças trabalhando em pedreiras quebrando pedras; em lixões catando garrafas e latas; nas ruas da cidade limpando parabrisas; nos campos cuidando da terra e dos animais; quando não estão roubando e cheirando cola. É a consequência da pobreza, assumimos todos, com resignação. Mas o que dizer das crianças que participam de competições esportivas ou de concursos de beleza e que, aos nove ou quatro anos de idade respectivamente, são campeãs mundiais por anos consecutivos? Samantha começou a aprender caratê aos quatro anos e, hoje, aos nove, já faixa preta, dedica quatro horas por dia aos treinos. Jasmine, que prefere ser chamada de Jazzy, aos quatro anos já participou de cem concursos de beleza e todo seu tempo livre é ocupado por ensaios. Vocação ou projeção de sonhos frustrados de seus pais?

Criança dá trabalho. Sim, dá trabalho e é esperado que o dê. Criança chora, grita, ri, pula, corre, fala, pergunta, quer brincar. Lança mão de diferentes formas para expressar o que sente, pensa e quer. Necessita de atenção. Desde o nascimento, em tudo que faz a criança exige a presença do outro e busca a certeza de que é presente na vida do outro para que seu processo de amadurecimento siga saudável rumo à autonomia. Isso de fato dá trabalho porque é um processo singular: varia de criança a criança, de família a família. Também implica atitudes acolhedoras e proativas dos pais que devem se colocar em sintonia com seus filhos. Brincar é essencial. Estar junto também e não há como quantificar ou formatar a atenção que mãe e pai devem direcionar às crianças. Tem sido crescente o número de famílias que buscam consultórios de especialistas para saber o que fazer com o trabalho que o filho dá. Também tem sido crescente a prescrição de medicamentos para remediar o “problema” (Para ler mais sobre o assunto: clique aqui e também leia o que temos falado sobre o assunto aqui no site). Mas é somente o conhecimento de sua história de vida em suas diferentes interações que dá aos especialistas a possibilidade de compreender se o trabalho que a criança dá pode ser excessivo ou não.

Criança não trabalha, criança dá trabalho deveria ser muito mais que um refrão de uma deliciosa música infantil. Deveria ser uma afirmação compreendida em sua essência e assim tornar-se foco de políticas públicas, de abordagens em processos formais de ensino-aprendizagem e de novas posturas parentais.


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