16 de Abril de 2021


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Corpo, voz, linguagem: expressões da subjetividade

Artigo apresentado originalmente no XV Seminário de Voz da PUC – SP/ 2005
Maria Laura Wey Märtz*

"Minha voz, minha vida,
meu segredo e minha revelação,
minha luz escondida,
minha bússola e minha desorientação.
Se o amor escraviza, mas é a única libertação,
minha voz é precisa,
vida que não é menos minha,
que da canção.
Por ser feliz, por sofrer, por esperar eu canto.
Pra ser feliz, pra sofrer, para esperar, eu canto.
Meu amor, acredite que se pode crescer assim pra nós uma flor sem limite
é somente porque eu trago a vida aqui na voz”. Caetano Veloso

1. Marca de origem

Realidade única, singular, e ao mesmo tempo coletiva, a voz é um fenômeno originário do humano. Única e singular, porque moldada no tempo e no espaço de uma vida que nasce em circunstâncias bastante determinadas, quer o saibamos ou não. E coletiva, porque descende de outras vozes, da mesma maneira como deixará sua marca em outras tantas. Uma marca que é recebida e transmitida como essencialmente humana, e que está na origem mesma do humano. Origem, como conceito, aqui se distingue da gênese. Origem é a reflexão filosófica acerca de um fenômeno que nos permite “uma visão dupla, que o reconhece por um lado como restauração e reprodução e, por outro lado, e por isso mesmo, como incompleto e inacabado”. A categoria de origem, tal como expressa por Walter Benjamin, permite-nos pensar a voz como uma ideia que não se destaca dos fatos ou fenômenos históricos, mas que se relaciona ao mesmo tempo com seu vir-a-ser e com aquilo que foi antes de ser. Como marca originária, a voz é ao mesmo tempo o que outras vozes foram na humanidade, mas porta também os sonhos do que poderiam ser, e do que podem ser, num devir em transformação, posto que é sempre inacabada e incompleta. Esta é a sua dimensão originária, propriamente humana: provém do desaparecimento de outras vozes, encontra-se já em seu passado, mas pode despertar para outros devires, outras maneiras de se manifestar, em seu constante vir-a-ser.
A implicação clínica desta reflexão sobre voz como categoria de origem é a aposta na possibilidade de transformação. Se, a princípio, a gênese pode nos esclarecer a respeito da primeira manifestação no tempo de um fenômeno como, por exemplo, um problema de voz, a homogeneidade e estabilidade desta formulação causal e linear pouco nos dirá sobre as inúmeras possibilidades de transformação ao longo de um percurso terapêutico. Por outro lado, a ideia de origem é dinâmica e pode ser compreendida como um processo que restaura o passado transformando-o, não deixando de considerar a gênese, mas movendo-se para além e para aquém dela, num fluxo não de causalidades, mas das descontinuidades entre os diversos eventos que compõem o fluxo mais próprio da vida. Assim, a voz perdida, ou alterada, será restaurada, porém transformada, já outra e com novas possibilidades, e seguirá transformando-se sem, no entanto, deixar de ser ela mesma. É este o movimento de subjetivação da voz: uma subjetividade em fluxo de transformação, de ampliação, ou restrição de horizontes. Pois também pode fazer parte do processo de subjetivação a restrição, e isto é o que faz da voz, em termos clínico-terapêuticos, uma questão a ser acolhida na clínica.

2. Gênese

Até aqui, trabalhamos com a ideia de voz como marca de origem do humano, em termos de uma transmissibilidade que ocorre ao longo das gerações. É importante agora ressaltarmos que esta mesma marca está presente na gênese de cada ser humano, comparecendo na constituição desta nova subjetividade que começa a se formar a partir do nascimento, ou mesmo antes, a partir dos sonhos e expectativas dos pais. Se por um lado a origem relaciona-se ao ethos humano, a gênese ancorada neste ethos terá como ambiente as experiências estéticas que, no início da vida, configuram a possibilidade primeira de constituição da subjetividade. Ao nascer, cada bebê humano dispõe de um potencial herdado numa conformação corpórea que necessita de provisões suficientes para se desenvolver. É o que Winnicott denomina provisão ambiental e que se refere à qualidade de adaptação ativa da mãe às necessidades de seu bebê. Esta adaptação de boa qualidade oferecida pela mãe permite ao bebê a experiência criativa, através da ilusão onipotente, ou seja, ele vive a ilusão de criar aquilo de que necessita. Assim, o seio da mãe está sendo criado pelo bebê, desde que a mãe esteja de fato oferecendo-o. Por outro lado, se não houver ali um seio disponível para ser criado na ilusão do bebê, é possível prevermos dificuldades justamente na capacidade posterior para os relacionamentos, para viver a realidade compartilhada e poder ser criativo nela. É a onipotência inicial do bebê, vivida em mutualidade com a mãe, que irá favorecer as experiências e integrações necessárias para que o sentimento de ser e sentir-se real aconteça e seja descoberto: o bebê então pode sentir a si mesmo como um eu que é diferente do não-eu. Aqui estão lançadas as bases para o desenvolvimento do Self, que é composto por todos os diferentes aspectos da personalidade que constituem o eu de uma pessoa como distinto do que é não-eu. É um sentimento de ser subjetivo que passa a existir quando ocorre a integração do Self e que permite ao bebê o passo seguinte, ou seja, compartilhar a realidade, podendo separar-se da mãe e percebê-la como separada de si. Podemos pensar que a integração do Self é um passo essencial na constituição da subjetividade do bebê, que passa então a ter progressivas condições para o que denominamos relações intersubjetivas. Portanto, é necessário, no início, a experiência da mutualidade na qual o bebê e a mãe são um só. Neste período têm lugar importantes experiências estéticas que se realizam no manejar do bebê e são vividas através da corporalidade, da sensorialidade, do encontro com o corpo da mãe que, de acordo com Safra, é um corpo transfigurado: “Não é simplesmente um organismo biológico, é um corpo banhado por inúmeros encontros, desencontros, signos socioculturais, pela vida dos ancestrais. O corpo materno traz a presença de uma história e se faz doação para ser criado pelo bebê. O corpo materno, nesta etapa, é o próprio corpo do bebê, em que ele pode, paradoxalmente, criar todo o mundo humano já ali presente”.

3. Constituição estética da voz

É através dos sons, cheiros, movimentos, cores e imagens, entre tantas outras experiências estéticas, ou também estésicas, que o corpo do bebê se humaniza nesta fase de dependência absoluta. As experiências estéticas são providas pelos cuidados maternos, mas são percebidas apenas subjetivamente pelo bebê, que ainda não pode reconhecer qualquer fragmento de realidade exterior. Portanto, ouvir sons, como também ouvir a fala e talvez as canções da mãe, a princípio é uma experiência estética, corporal e humanizadora, e que possibilita ao bebê o desenvolvimento de sua capacidade imaginativa acerca de seu funcionamento somático. A elaboração imaginativa das funções corporais é apoiada na multiplicidade de experiências estéticas vividas em mutualidade com a mãe. No início, como esclarece Winnicott, há uma trama psicossomática, “psique e soma não podem ser distinguidos, a não ser pela forma como os vemos. Podemos nos voltar para o corpo ou para a psique que se desenvolve. Considero que aqui a palavra psique signifique a elaboração imaginativa dos elementos, sentimentos e funções somáticas, ou seja, a atividade física. Sabemos que essa elaboração depende da existência e do funcionamento saudável do cérebro”. Desta forma, de um estado inicial de não-integração, o bebê vai integrando experiências a partir das fantasias sobre as mesmas; num momento subseqüente surge a função intelectual, que trabalhará a análise e a compreensão das experiências em termos do ambiente, isto é, daquilo que é ou não é adaptado às suas necessidades, podendo admitir, explicar e mesmo antecipar algumas experiências de desadaptação, de modo que o bebê fica protegido de riscos à continuidade de seu ser. A sensação de continuidade de ser, de existir sem riscos é fundamental para os processos iniciais do bebê, e para que a integração das variadas experiências vividas dê início ao sentimento de Self, ou seja, de ser uma pessoa e de ser ele mesmo. Como há variação de processos entre as diferentes díades mãe-bebê em termos culturais e também psicossomáticos, é entre os 2 e 5 anos de idade que o bebê está pronto para iniciar suas experiências com a realidade objetivamente percebida, pois então já tem o sentimento de Self estabelecido. Nesta fase as experiências pulsionais passam a se organizar psiquicamente, já que antes não há subjetividade suficientemente integrada para apoiar este processo. Desta forma, e resumidamente, podemos dizer que antes o bebê precisa ter a experiência de ser, para a seguir fazer. Primeiro, portanto, a identidade sujeito-objeto, ou a mutualidade mãe-bebê estabelece o sentimento de ser, para que em seguida se estabeleça o aspecto pulsional das relações de objeto, que está relacionada ao fazer.
Desta forma, as experiências estéticas de ouvir e emitir sons serão constitutivas da subjetividade, para que depois seja possível pensar nos sons como linguagem e mesmo na voz como objeto pulsional, ou como implicada psiquicamente com o desejo.

4. Necessidade e Desejo

Françoise Dolto observou que os bebês que regurgitam muito podem estar confundindo faringe e laringe em suas funções básicas, que são, respectivamente a necessidade e o desejo. Regurgitam para chamar a mãe (desejo), mas nesta situação acabam por perder o alimento (necessidade).
A laringe como lugar do desejo, e do apelo para a completude, no entanto, só pode acontecer em tempo posterior, já que, de acordo com Winnicott, a princípio só há necessidades a serem satisfeitas pela provisão ambiental que é a mãe. O desejo é uma relação simbólica que pode ser constituída apenas quando um sentimento de Self já se encontra presente.
Podemos agora retornar às implicações clínico-terapêuticas a partir da perspectiva oferecida por Winnicott. O manejo clínico fonoaudiológico com problemas de voz supõe uma variedade de técnicas que são oferecidas ao paciente para que ele possa organizar e mesmo adaptar sua expressão vocal. No entanto, muitas destas técnicas são vividas apenas exteriormente, pois o paciente não se sente capaz de integrar tais conhecimentos em sua vida. Assim, um exercício respiratório pode levar o paciente a um estado de sofrimento, ou pode ser percebido como intrusão em sua corporalidade, o que faz com que se negue a realizá-lo. Talvez o que seja preciso estabelecer aqui é a percepção estética de suas vias respiratórias, retomar as funções imaginativas sobre o soma que, quem sabe, ficaram perdidas por falhas na função materna primária. Deste ponto de vista, será necessário mediar o contato do paciente com seu próprio corpo, propondo técnicas que atendam às suas necessidades, sustentando a experiência de cada proposta: um som emitido, uma inspiração costo-diafragmática, uma expiração mais alongada, a percepção do caminho do ar até os pulmões, por exemplo. Sustentar com o paciente a experiência da voz, em suma, é também acolher seus desconfortos, seus limites, suas próprias observações, suas descobertas. E buscar novas formas, sempre, como resposta ao que se escutou das demandas. A técnica só pode ser adequada ao paciente se sustentada pela compreensão que vai se constituindo através da escuta das demandas do paciente no setting terapêutico. Neste ponto estamos nos referindo às necessidades do paciente e ao manejo clínico cuidadoso do terapeuta para acolhê-las e possibilitar sua transformação através da experiência sustentada da voz, tanto em seus aspectos orgânico-estéticos, como em seus aspectos discursivos. A sustentação da experiência se dá pela disponibilidade de escuta do terapeuta, escuta esta que se faz através da transferência, o que lhe permite distinguir e prover ao paciente percursos que possam atender às suas necessidades estéticas ou de reconhecimento de conflitos psíquicos e de destinos do desejo, através do aspecto discursivo da voz. Esta diferenciação entre necessidade e desejo se faz necessária, uma vez que as necessidades podem ser reconhecidas e em certo sentido supridas, mas não o desejo. As necessidades podem ser supridas pelo manejo cuidadoso das técnicas que são disponibilizadas a partir da compreensão das demandas singulares de cada paciente.Quanto ao desejo, este precisa ser reconhecido, elaborado e simbolizado, principalmente quando os sintomas na voz expressam conflitos psíquicos como os que Freud há tanto tempo abordou em seus Estudos sobre a Histeria. Para tanto, é importante que o terapeuta fique atento ao que escuta do discurso e dos modos expressivos de seu paciente, de forma a não confundir desejo e necessidade e que, por fim, transfira tal confusão ao seu paciente, tentando suprir o que não pode e não deve ser suprido, mas elaborado e transformado simbolicamente.

5. A terapia da Voz

Desta forma, podemos pensar que as implicações da reflexão da voz sob a perspectiva da subjetividade trazem à luz a importância de considerarmos os aspectos estéticos e psíquicos, as fantasias conscientes e também inconscientes a respeito dos problemas de voz. Não podemos apenas reconhecer a realidade psíquica nas fantasias conscientes e inconscientes do paciente nas questões de voz nomeadas como psicogênicas, mas será necessário também pesquisar a possível interferência de tais fantasias em todos casos em que os sintomas vocais fazem questão para a clínica fonoaudiológica. Assim, também nas disfonias orgânicas, orgânico-funcionais ou primordialmente funcionais há sempre uma pessoa inteira, ou toda uma subjetividade que busca acolhimento para aquilo que na voz faz sofrer. E tal sofrimento é sempre de ordem relacional, pois é próprio da voz o chamado, o apelo para o outro, como inscrito na origem latina da palavra: Vox.
Freud discute o sofrimento humano no artigo “O Mal-Estar na Civilização”, afirmando que a infelicidade nos ameaça a partir de três direções: “de nosso próprio corpo, condenado à decadência e à dissolução, e que nem mesmo pode dispensar o sofrimento e a ansiedade como sinais de advertência; do mundo externo, que pode voltar-se contra nós com forças de destruição esmagadoras e impiedosas; e, finalmente, de nossos relacionamentos com os outros homens. O sofrimento que provém dessa última fonte talvez nos seja mais penoso do que qualquer outro. Tendemos a encará-lo como uma espécie de acréscimo gratuito, embora ele não possa ser menos fatidicamente inevitável do que o sofrimento oriundo de outras fontes”.
Portanto, é necessário, mesmo em presença de problemas vocais de ordem predominantemente orgânica, buscarmos compreender as interferências e implicações dos vários aspectos que integram a subjetividade na terapia dos problemas de voz. Pensar a subjetividade é sempre pensar as relações intersubjetivas que a compõe e que concorrem, ao longo da vida, para que tal subjetividade seja compreendida como em constante processo de subjetivação.

Bibliografia:

ABRAM, J. A Linguagem de Winnicott: Dicionário das Palavras e Expressões Utilizadas por Donald W. Winnicott. Trad. Marcelo Del Grande da Silva. Rio de Janeiro, Revinter, 2000.

BENJAMIN, W. Origem do Drama Barroco Alemão. Trad., apr. e notas: Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo, Brasiliense, 1984.

DOLTO, F. No Jogo do Desejo: ensaios clínicos. Trad. Vera Ribeiro. São Paulo, Ática, 1996.

FREUD, S. Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro, Imago, 2000.

SAFRA, G. A Face estética do Self: teoria e clínica. São Paulo, Unimarco,1999.

WINNICOTT, D.W. Natureza Humana. Tra. Davi L. Bogomoletz. Rio de Janeiro, Imago,1990.

*Maria Laura Wey Märtz - fonoaudióloga clínica, docente do curso de Fonoaudiologia da PUC/SP, doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, autora do livro Problemas de Linguagem – Série Clínica Psicanalítica (Casa do Psicólogo, 2008) e co-autora de Histórias de contar e de escrever – a linguagem no cotidiano (Summus, 1995).


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