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12/05/2011
Lucia Masini
Cópia Fiel

Direção: Abbas Kiarostami

Cópia ou original, verdade ou mentira, falso ou verdadeiro. Tudo é uma questão de ponto de vista, e Abbas Kiarostami, diretor iraniano em seu primeiro filme europeu, transita entre os dois polos fazendo do espectador o elo fundamental para que se complete o sentido. E dependendo da posição em que ele se encontra, os sentidos são diversos.
Ter uma cópia é valorizar o original. E o que seria o original? O que está na vida. Toda obra de arte é na verdade um simulacro da realidade.
A digressão, logo no início do filme, é feita pelo filósofo inglês, James Miller, a um seleto público italiano, em palestra de lançamento do seu livro Cópia Fiel, na bela Toscana. James é convidado por Elle, uma francesa que mora há anos na Itália, dona de uma galeria de arte, para discutir um pouco mais o tema de seu livro. O início da trama dá ao espectador a ideia de que estamos diante de um filme que vai discutir filosoficamente o valor da arte. Mas aos poucos vamos percebendo que o tema é outro.
Kiarostami fala de relações humanas, trazendo à tona a questão do ponto de vista. Tudo depende da posição em que se encontra aquele que vê.
Uma mãe caminha sempre à frente de seu filho na rua, olhando por vezes para trás para checar se ele não se perdeu. Em outra situação, é exatamente da falta de caminhar lado a lado que esta mesma mulher reclama em relação ao marido. Por sua vez, um homem é capaz de indignar-se com o fato de ver uma mãe e seu filho caminhando, um à frente do outro, sem nunca estarem juntos, mas não percebe que é isso que sua mulher deseja em relação a si próprio.
Interessante é observarmos que são pessoas completamente alheias à situação vivida pelos personagens principais que sinalizam o que um e outro estão necessitando. Pessoas simples que parecem ver o óbvio. Mas o óbvio para os adultos do séc XXI, aos olhos de Kiarostami, está longe de fazer parte de suas vidas. Homens e mulheres estão muito preocupados com suas carreiras e satisfações pessoais para entenderem o que o outro pensa ou deseja.
Muito forte também neste filme é a crítica à família atual: seres totalmente estranhos a si mesmos. Vale uma dica ao espectador: em um dado momento, uma relação parental se evidencia e aí, não sem tristeza, lembramos de cenas anteriores e nos damos conta da indiferença que banha essa relação.
A certa altura da trama, a mulher diz: se fôssemos um pouco mais tolerantes às fraquezas do outro não seríamos tão sozinhos. Seria este o mal do séc. XXI? A ausência de tolerância, não apenas às fraquezas alheias, mas às singularidades, à diversidade no modo de ser, pensar e agir? Estaria a ausência da tolerância nos deixando ensimesmados a ponto de não nos reconhecermos como pertencentes ao mais elementar grupo humano , a família?
Tema difícil de digerir. Mas Kiarostami, com maestria, leva o espectador a espiar relações interpessoais, que bem poderiam ser suas próprias, sem o incômodo de uma identificação paralisante, porque sempre há a possibilidade de um outro ponto de vista.
E é isso que nos faz sair do cinema pensando que tudo pode ser diferente.


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