16 de Abril de 2021


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Continuidade de mundos na continuidade dos parques de Julio Cortazar

Claudia Perrotta
Julio Cortazar


Em vários momentos, abordamos aqui no site questões referentes à leitura. Nesta quinzena, voltamos ao tema. Além das reflexões trazidas nas seções Na Boca do Povo, Mito ou Verdade, apresentamos aqui uma possível leitura de um conto de Julio Cortazar que dialoga com a imagem e o texto de Linguagem com Pipoca. Apreciem a precisão com que esse escritor argentino expressa o estado a que somos remetidos quando lemos um romance (leia o conto na íntegra no final).


Começara a ler o romance dias antes. Abandonou-o por negócios urgentes, voltou à leitura quando regressava de trem à fazenda; deixava-se interessar lentamente pela trama, pelo desenho dos personagens. É assim que tem início o curtíssimo conto “Continuidade dos Parques”, de Julio Cortazar.
Quem já não abandonou um romance por negócios urgentes? Quem já não voltou ao livro em uma hora vazia de atribulações cotidianas? É a partir dessa experiência comum que iguala todos nós, leitores, que esse renomado escritor argentino emoldura o que há de mais enriquecedor no ato de ler.
Continuidade de mundos, continuidade dos parques: o homem que se deixava interessar lentamente pela trama na viagem de trem chegou a seu destino. Mais uma vez, tratou de cuidar de seus afazeres, e logo voltou ao livro. Certamente, o desenho dos personagens, a promessa de um encontro furtivo entre eles fez com que se apressasse a buscar a
tranquilidade do escritório que dava para o parque de carvalhos. Abandonou-se então na poltrona de veludo verde e respaldar alto, sua favorita, precavendo-se de
intromissões irritantes que o impedissem de ler os últimos capítulos.
Sabemos bem do que se trata, não? Os últimos capítulos. Somos tomados por uma ansiedade que, por vezes, nos faz pular frases, parágrafos inteiros e até páginas. Excesso de descrições nos põe nervosos. Queremos chegar ao fim, saber o desfecho. Manipulamos o livro a nosso bel-prazer, somos co-autores. Se o escritor tem o poder de criar a história, de nos prender em suas palavras, em contrapartida, somos nós que decidimos como nela penetrar, deixando nossas impressões digitais naquelas páginas marcadas com orelhas nas pontas.
O jogo é esse, escritor e leitor se tornam parceiros, cúmplices.
O homem-leitor que se permitia
gozar do prazer de se afastar, linha a linha, daquilo que o rodeava, com os
cigarrros ao alcance da mão e embalado pela
dança dos janelões no ar do entardecer, ia sendo absorvido
pela trágica desunião dos heróis. Mais:
foi testemunha do último encontro na cabana do mato.
E nós, o que testemunhamos quando lemos o conto Continuidade dos Parques? Como a irmã do quadro de Iman Maleki, também “pegamos carona” no “abandono” do homem-leitor que “se deixa arrastar pela leitura”. Assim como ele, vamos sendo tocados pelas
imagens que se formavam e adquiriam cor e movimento. Mas estamos, de certa forma, mais apartados que a irmã – estamos diante da poltrona e não atrás dela. A luz ilumina o homem-leitor e não o romance que tem nas mãos. Não nos é dado conhecer, portanto, o
diálogo envolvente que corria pelas páginas como um riacho de serpentes. O que os amantes teriam dito entre as carícias? Quais seriam os
impedimentos, azares, possíveis erros que os levaram a se separar na porta da cabana?
Tudo está decidido desde o começo: o autor tem a história nas mãos, tem o poder de calar os cães, de anoitecer, de fazer a mulher seguir pelo Norte. Onde estamos então como leitores? Somos apenas receptivos passivos da mensagem que nos é transmitida? Não. Ler é muito mais do que isso. Somos sim, “atravessados pelo livro.” E aqui, neste micro conto, são pelo menos dois os atravessamentos – na história dos amantes e na história do homem-leitor. Ambas, por sinal, apenas insinuadas: sabemos que a mulher tem receio. Mas do quê, exatamente? Quer dissuadir o amante de algo. Bem, ele traz um punhal e uma decisão junto ao peito. Não quer mais as
cerimônias de uma paixão secreta. Já o homem-leitor parece estar às voltas com negócios que envolvem a administração de sua fazenda. Fuma, prefere a poltrona de veludo verde e respaldar alto. As pistas são escassas. Tudo nos escapa.“Lemos a nós mesmo quando lemos?”. Lemos com todo o corpo, mas, paradoxalmente, nossos corpos são destruídos na leitura, pois se misturam aos dos personagens, perdem os limites, estão apenas em continuidade com os corpos da mulher, do amante. E do homem-leitor... ele sobreviverá? Quem o apunhalará pelas costas? Algum desafeto? O amante de sua mulher? Ou, mergulhado no romance, ele apenas fantasia e imagina para si o mesmo desfecho que a ficção anuncia?
Pouco importa, na verdade... importam os espaços vazios, o branco entre as palavras, importa o silêncio necessário para a “decifração”, o “transporte”, importa a disposição para entregar-se a uma solidão acompanhada. Hora de descanso em que nos permitimos permanecer em outra dimensão de tempo, despreocupados da moral e bons costumes. Nada precisamos discriminar. Basta aceitar um jogo que nunca chega ao fim. Fechamos o livro, viramos a página, mas cada leitura que fazemos reverbera infinitamente.

Abaixo, você encontra o texto completo e a leitura do próprio Julio Cortazar:



Continuidade dos Parques, de Julio Cortazar (in Final del juego, 1956)

Começara a ler o romance dias antes. Abandonou-o por negócios urgentes, voltou à leitura quando regressava de trem à fazenda; deixava-se interessar lentamente pela trama, pelo desenho dos personagens. Nessa tarde, de¬pois de escrever uma carta a seu procurador e discutir com o capataz uma questão de parceria, voltou ao livro na tranquilidade do escritório que dava para o parque de carvalhos. Recostado em sua poltrona favorita, de costas para a porta que o teria incomodado como um irritante possibilidade de intromissões, deixou que sua mão esquerda acariciasse, de quando em quando, o veludo verde e se pôs a ler os últimos capítulos. Sua memória retinha sem esforço os nomes e as imagens protagonistas; a fantasia novelesca absorveu-o quase em seguida. Gozava do prazer meio perverso de se afastar, linha a linha, daquilo que o rodeava, e sentir ao mesmo tempo que sua cabeça descansava comoda¬mente no veludo do alto respaldo, que os cigar¬ros continuavam ao alcance da mão, que além dos janelões dançava o ar do entardecer sob os carvalhos. Palavra por palavra, absorvido pela trágica desunião dos heróis, deixando-se levar pelas imagens que se formavam e adquiriam cor e movimento, foi testemunha do último encontro na cabana do mato. Primeiro entrava a mulher, receosa; agora chegava o amante, a cara ferida pelo chicotaço de um galho. Ela estancava admiravelmente o sangue com seus beijos, mas ele recusava as carícias, não viera para repetir as cerimônias de uma paixão secreta, protegida por um mundo de folhas secas e caminhos furtivos, o punhal ficava morno junto a seu peito, e debaixo batia a liberdade escondida. Um diálogo envolvente corria pelas páginas como um riacho de serpentes, e sentia-se que tudo estava decidido desde o começo. Mesmo essas carícias que envolviam o corpo do amante, como que desejando retê-lo e dissuadi-lo, desenhavam
desagradavelmente a figura de outro corpo que era necessário destruir. Nada fora esquecido: impedimentos, azares, possíveis erros. A partir dessa hora, cada instante tinha seu emprego minuciosamente atribuído. O reexame cruel mal se interrompia para que a mão de um acariciasse a face do outro. Começava a anoitecer.
Já sem olhar, ligados firmemente à tarefa que os aguardava, separaram-se na porta da cabana. Ela devia continuar pelo caminho que ia ao Norte. Do caminho oposto, ele se voltou um instante para vê-la correr com o cabelo solto. Correu por sua vez, esquivando-se de árvores e cercas, até distinguir na rósea bruma do crepúsculo a alameda que o levaria a casa. Os cachorros não deviam latir, e não latiram. O capataz não estaria àquela hora, e não estava. Subiu os três degraus do pórtico e entrou. Pelo sangue galopando em seus ouvidos chegavam-lhe as palavras da mulher: primeiro uma sala azul, depois uma varanda, uma escadaria atapetada. No alto, duas portas. Ninguém no primeiro quarto, ninguém no segundo. A porta do salão, e então o punhal na mão, a luz dos janelões, o alto respaldo de uma pol¬trona de veludo verde, a cabeça do homem na poltrona lendo um romance.


A obra que ilustra o texto é de Iman Maleki, intitulada Tonturas.


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