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30/06/2011
Claudia Perrotta
Bebê precoce da Oi!

Publicitários são mesmo sintonizados com mudanças de comportamento, e por vezes parecem pressentir o que está por vir, retratando em suas campanhas novas tendências, maneiras de ver o mundo, valores.
É o caso da propaganda da operadora de telefonia Oi, que vem sendo veiculada na TV: uma família de classe média toma o café da manhã – o pai lê o jornal, serve-se de café, a mãe chega, senta-se, passa geleia em uma torrada. E temos também um bebê, pelo menos na aparência. Deve ter por volta de 12 meses, e já fala! E não é só papai e mamãe, o que já seria sinal de certa precocidade. Não, ele também fala: “torrada com geleia”, e perfeitamente! E qual a reação de seus interlocutores diante de tamanho feito? Nenhuma. Isso mesmo: o garotinho fala papai, mamãe e torrada com geleia e não recebe nem um olhar de reconhecimento, nem aquelas palavras gostosinhas, aquelas expressões admiradas e emocionadas que os pais costumam dirigir a seus filhos quando os veem dando os primeiros passos, redescobrindo o mundo e as coisas mais simples da vida.
Mas, calma, os pais da propaganda não são assim tão insensíveis a sua cria, que não desiste de atraí-los para si. O jornal que esconde o rosto do pai traz na capa o seguinte anúncio da operadora em questão: “internet banda larga, 1 mega por 39,90”. E é justamente essa a fala seguinte do bebê, que se revela então não só um falante, mas um leitor precoce. E bota precoce nisso! Não há indiferença que aguente, não é? Os dois finalmente se derretem, orgulhosos, e agora sim se tornam aqueles velhos e bons pais, bobos diante das conquistas de seu filhote: “Coisa bonitinha da mamãe!”.
A propaganda, na verdade, ainda que com humor, aborda uma questão bem séria: o valor que a precocidade está ganhando nos dias de hoje. Já abordamos o tema aqui no site (Clique aqui), que tem também circulado na mídia, alertando os familiares para o perigo de se abreviar esse tempo de experimentação que é a infância. Arriscar as primeiras palavras, sem o compromisso de pronunciá-las corretamente, e encontrar um ambiente, representado pelos pais, que vibre com esses “erros” pra lá de saudáveis e naturais em qualquer processo de amadurecimento é fundamental para constituição de si e para o desenvolvimento de potenciais.
Crianças respeitadas em seus ritmos de apreensão da linguagem e com interlocutores continentes e que não se mostram indiferentes às suas conquistas, como os pais da propaganda, ganham segurança para, cada vez mais, avançarem na descoberta de estilos próprios de dizer, certos de que encontrarão parceiros dispostos a ouvi-los, a receber suas palavras, com elas compartilhando ideias, impressões, percepções, por mais precárias e titubeantes que possam parecer.
Esperemos que o exagero da propaganda em busca de um efeito de humor não se transforme em realidade e muito menos em padrão de comportamento....



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