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14/10/2010
Claudia Perrotta
Animação: Mary e Max, uma amizade diferente

Adam Elliot

Já temos afirmado aqui a potencialidade curativa da escrita, como elemento transformador que impulsiona possíveis elaborações de dores, sofrimentos. E mais uma vez, destacamos a carta como um gênero que cumpre bem essa função.
Nesta animação para adultos, primeiro longa do diretor australiano Adam Elliot, temos a correspondência entre amigos: Mary, uma garotinha de 8 anos de idade que vive na Austrália, e Max, um novaiorquino judeu de mais de 40. Sim, é mesmo uma amizade bem diferente, a não ser pela questão existencial que os une a partir do momento em que Mary, casualmente, escolhe, pela lista de endereços do correio, um nome qualquer para estabelecer um primeiro contato.
Ela, então, apresenta seu mundo ao ainda desconhecido Max: fala de seu desenho predileto, os Noblets, do que mais gosta de comer, leite condensado e chocolate, e de sua cor favorita, marrom, que é também a cor de seus olhos, “cor de poça”, e de sua marca de nascença, “cor de cocô”. Conta da mãe e do pai, mas não ainda com a riqueza de detalhes já mostrada ao público, logo nas primeiras cenas da animação: a mãe é alcoólatra, instável, descuidada das coisas da casa, indiferente à Mary, que foi um acidente em sua vida; ela rouba mercadorias no supermercado, dizendo à filha que está apenas “pegando emprestado”. O pai trabalha em uma fábrica de chá, operando a máquina que coloca as cordinhas nos saquinhos, e nas horas vagas isola-se em sua oficina, empalhando pássaros que encontrava na beira da estrada. Mary queria que ele passasse mais tempo com ela e menos com seus amigos mortos...
Mary termina a primeira carta que endereça a Max fazendo-lhe uma pergunta: “De onde vêm os bebês na América? Na Austrália eles aparecem em canecas de cerveja...”. Envia também um autorretrato e um chocolate australiano, pedindo para que ele lhe escrevesse e, assim, se tornassem amigos.
Somos então apresentados ao universo de Max, bastante semelhante ao de Mary, embora vivam em países muito distantes. O cenário é também de abandono, de vazio, descuido e solidão. Em Nova York os barulhos são intensos, há muitos prédios, sujeira e pobreza nas ruas. Assim como Mary, Max também adora os Noblets, vive cercado por animais um tanto bizarros - um gato caolho e com halitose, um papagaio, peixes que vivem morrendo no aquário –, é viciado em chocolates, tem dificuldade para entender sinais não-verbais e acha as pessoas um tanto confusas. Na verdade, ele beira a obesidade mórbida e por isso frequenta os Comedores Anônimos.
Foi na volta de um desses encontros que Max recebeu a carta de Mary. Nesse momento, “tudo lhe pareceu ainda mais confuso e enigmático, e sua frágil existência tornou-se instável mais uma vez”. Ele precisou ler a carta umas quatro vezes antes de decidir responder, e quando o fez, as palavras foram fluindo, sendo disparadas na máquina de escrever. Ele inicia agradecendo a correspondência e vai então se apresentando a sua nova, e na verdade, única amiga.
Max logo fala que não tem uma mente saudável. Conta que, quando nasceu, o pai abandonou a família em um kibutz e que, alguns anos depois, sua mãe se matou. Fala de seu amigo imaginário, Ravióli, e do quanto não suporta a sujeira da cidade, dedicando-se a recolher bitucas de cigarro. Conta sua idade, sua altura e peso, que tem 8 agasalhos da mesma cor e tamanho e há 9 anos joga os mesmos números na loteria. E continua assim, apresentando suas bizarrices, suas dificuldades de compreender e conviver com as pessoas: “acho os seres humanos interessantes, mas tenho dificuldades de entendê-los”. Max também não se esquece de responder à pergunta de Mary: “certa vez, perguntei à minha mãe sobre os bebês e ela disse que nasciam de rabinos que chocavam ovos, de enfermeiras católicas ou de prostitutas solitárias, caso você seja ateu.” Ele finaliza a carta dizendo que Mary lhe pareceu muito feliz, sentia que a entendia e que poderia confiar nela. Pede para que ela lhe escreva de volta, pois quer muito ter um amigo que não seja bicho e promete provar leite condensado.
Solidão, estranhamento diante do mundo, que lhes foi apresentado em sua face terrível precocemente, humilhações, desesperança, busca de relações humanas significativas sendo constantemente frustrada, o enigma da face do outro – tudo isso foi sendo emoldurado na intensa troca de cartas entre Max e Mary, que durou muitos e muitos anos. Em alguns momentos, Max passava muito tempo sem escrever, o que despertava em Mary muitas dúvidas e sentimentos. Talvez fosse por ela ser feia, chata, desinteressante?
Certa vez então, depois de um longo período de ausência, Max explicou: “Cada vez que eu recebia uma carta sua, tinha um sério ataque de ansiedade... Tenho síndrome de Asperger. Acho o mundo muito confuso e caótico, porque minha mente é muito lógica e literal. Sou hipersensível, desajeitado e tenho dificuldades para expressar minhas emoções. Meu médico diz que meu cérebro é defeituoso, mas que um dia haverá cura para essa minha incapacidade. Não gosto quando ele diz isso. Não me sinto defeituoso, como se precisasse ser curado. Seria como tentar mudar a cor dos meus olhos. Só tem uma coisa que eu gostaria de mudar: gostaria de conseguir chorar corretamente. Tento, tento, mas não sai nada...”. Ao ler essa carta, Mary esvaziou um vidro de remédios, pensou em algo muito triste que a fez chorar e recolheu suas lágrimas no vidrinho, logo enviando o presente a Max, o melhor que ele recebera em toda a sua vida.
E assim eles retomaram a intensa correspondência, cada um criando, pela escrita, sua própria existência.
Mais do que simples relatos, notícias sobre os revezes do cotidiano, as palavras que trocavam traziam suas inquietações, fragilidades, vinham banhadas de sentimentos e angústias, até nos fatos mais banais. Sintonizados, cúmplices na vida, esses dois sobreviventes se alimentavam com aquela “sopa de letrinhas”, se fortaleciam e sofriam quando deixavam de se corresponder, porque isso significava perder a esperança de ganhar um lugar na interioridade de um outro, única parceria que haviam encontrado, intérpretes que se tornaram de suas dores mais profundas.
Mary e Max nos fazem experimentar o sabor da verdadeira amizade, “vista com o coração e não com os olhos”, que, apesar dos desencontros, distanciamentos, desgastes e das ausências, é reavivada nas tentativas de reparação e pedidos sinceros de desculpas, perdurando no tempo e nos constituindo como pessoas - experiência fundamental que nos transforma, humaniza e nos salva quando passeamos perigosamente pelos abismos da alma.
As palavras nas cartas que Max e Mary trocaram durante 20 anos têm pulsação, algo que corremos o risco de perder, mergulhados que estamos na cultura dos emails – as mensagens chegam, respondemos de imediato, superficial e distraidamente, muitas vezes enviamos à lixeira, para não sobrecarregar nossas caixas, nossa memória...
...Mas não é isso que Max faz no filme – assista, você vai se surpreender, assim como Mary, com o lugar que suas cartas ganharam na vida de seu amigo.

Destaque para a aparência bizarra e caricata dos bonecos, da brincadeira com a literalidade das palavras, que traz organicidade à história, traduzindo, por vezes com humor, a visão trágica de mundo de Max. E também para a cena em que Mary vive um profundo momento de desesperança, desconfiança em si e mergulho em seu passado, ao som da clássica Qué Sera Sera, na belíssima interpretação de Pink Martini.

confira também o comentário da Carol sobre a síndrome de Asperger no blog: carolcam.blogspot.com.br



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