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29/06/2012
Claudia Perrotta
Adultos: menos confronto e mais diálogo


Nas últimas semanas, três reportagens nos chamaram a atenção.
A primeira, publicada no jornal Folha de S. Paulo em 10/06 (Claudia Colucci), noticia que um grupo significativo de pais tem optado pelo ensino domiciliar, ou homeschooling, como é conhecido nos países em que a legislação permite que famílias eduquem seus filhos em casa, prescindindo do espaço escolar. Não é o caso do Brasil. Aqui, essa prática é punida por lei, pois, segundo o artigo 246 do Código Penal, se configura como crime de abandono intelectual: "deixar, sem justa causa, de prover a instrução primária de filho em idade escolar." Os defensores do ensino domiciliar, porém, contestam a legislação, planejam uma ação conjunta no Ministério Público para reivindicar o direito de educar os filhos e até já criaram uma organização, a Anplia (Aliança Nacional para Proteção à Liberdade de Instruir e Aprender).
A segunda reportagem foi publicada no site de notícias do Estadão, em 20/06: “Professores culpam alunos e famílias por baixo rendimento dos estudantes”. Esta é a conclusão de um questionário aplicado em 2009, na Prova Brasil, respondido por 216.495 docentes de instituições públicas de todo o país que dão aulas para alunos do 5º e 9º anos do ensino fundamental. Aspectos como nível cultural dos pais, baixa autoestima dos alunos, desinteresse, indisciplina, além de sobrecarga de trabalho por parte do docente e baixos salários foram também elencados. Mas, em primeiro lugar, apontado por 68,9% dos professores como principal problema que afeta o desempenho dos estudantes, está o não acompanhamento dos deveres de casa por parte dos familiares.
Por fim, em 27/06, a UOL publicou a carta que uma professora da Prefeitura de Sumaré enviou aos pais de um aluno de 12 anos, sugerindo que, em vez de ouvir o que dizem “psicólogos fajutos” e de conversar com o filho, lhe aplicassem castigos físicos, como: “cintadas e varadas”. Segundo os pais, o garoto já foi diagnosticado com dificuldades de aprendizagem e é atendido por um psicólogo. E, segundo a escola, a professora vai agora provar do próprio veneno, pois entrará em licença médica e terá acompanhamento psicológico...
Nas reportagens, também não faltaram manifestações indignadas.
Na primeira, educadores contrários ao homeschooling são categóricos em afirmar que esse tipo de iniciativa impede que as crianças aprendam a lidar com as diferenças e a pluralidade, presente no espaço escolar, que não é dedicado, apenas, à aquisição de conhecimento, mas à socialização e convívio com as pessoas.
Na segunda, especialistas qualificam a visão dos professores como simplista, e voltam a falar que o problema maior continua sendo a falta de capacitação, que os levaria a se isentarem de responsabilidade, culpando os pais. Por outro lado, professores insistem em afirmar que a ausência da família desestimula não só a criança, mas os próprios educadores.
Já na terceira, o conteúdo da carta e os erros de português no bilhete da professora falam por si.
Certamente, há muito o que analisar e debater a respeito das três situações, há muitas objeções a fazer nos vários discursos, mas há também lógica nos argumentos, por mais descabidos que nos pareçam. Os pais que adotam o ensino domiciliar, por exemplo, justificam seu posicionamento destacando a má qualidade da educação pública, a violência e a falta de valores morais no ambiente escolar. Não há mesmo como concordar com justificativas tão simplistas e com essa saída individualista, mas a baixa qualidade do ensino público não deixa de ser uma triste verdade cantada em verso, prosa e estatísticas. Já os professores também parecem simplificar a função dos pais no desenvolvimento cognitivo e cultural dos filhos, afirmando que o problema seria o fato de não acompanharem os deveres de casa. Mas, ainda que a maneira de formular a questão possa ter sido equivocada, temos assistido a certa terceirização de cuidados por parte dos pais, tanto para os profissionais da escola como para especialistas – justamente aqueles qualificados como fajutos pela professora do bilhete, que, por sinal, é a que tem o discurso mais indefensável. Mas, ainda assim, podemos captar uma questão fundamental no bilhete: o excesso de falatório por parte dos especialistas, ou clínicos, que se traduz em diagnósticos, pareceres, laudos e mais laudos invadindo o espaço escolar.
Mas o que queremos ressaltar aqui é muito mais o descompasso entre as várias instituições de formação de pessoas, de cidadãos, crianças e jovens – família, escola, clínica. Um verdadeiro jogo de empurra, reavivando a máxima “o inferno são os outros”, ou ainda “ninguém é bom juiz em causa própria”.
Professores, pais, especialistas, somos todos adultos com uma grande responsabilidade que parece nos escapar, talvez por estarmos nos perdendo nas funções de cuidado que devemos exercer para com nossos filhos, alunos, pacientes. Ou estaria nos faltando humildade para reconhecer nossos limites? Não estaríamos resistentes em demasia a uma interlocução fundamental, para resgatarmos, cada um, nosso papel na constituição dessa meninada que ainda nos tem como referência?
O pior dessa tendência de procurar culpados no quintal do vizinho é que o peso dos fracassos está ficando para crianças e adolescentes: aumento de consumo de Ritalina, como resposta ao excesso de diagnósticos, e jovens tomando esse medicamento para ‘turbinar’ os estudos (reportagem publicada no site do Estadão, 23/06).
Nem homeschooling, nem pais supervionando tarefas escolares, nada de cintadas, varadas e muito menos Ritalina. Precisamos, todos nós, adultos, voltar a investir na interlocução, na troca, no diálogo. A meninada agradece!


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