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16/09/2010
Claudia Perrotta
A gente estancou de repente, ou foi o mundo que cresceu?

Direção: Renato Terra e Ricardo Calil

“Uma noite em 67” é um desses filmes que assistimos sorrindo. Impossível também não se emocionar, não ser invadido por certa nostalgia. Diante de nós, na telona, um dos episódios mais marcantes da história da MPB, obviamente, misturada ao contexto político da época: festivais de música promovidos pela Rede Record.
Chama a atenção a ingenuidade da TV, com os apresentadores fumando enquanto entrevistavam os músicos, e estes tão espontâneos nas respostas, muitas vezes sem saber o que dizer, confessando isso sem pudores, constrangimentos. Tudo deliciosamente amador. Paradoxalmente, a exigência para a vestimenta de gala: smoking, vestidos de baile, cabelos armados, cílios postiços. Mas nem isso trazia formalidade ao evento. Todos se divertiam, inclusive com as vaias da plateia, que, como bem destacou Sergio Ricardo – aquele que quebrou o violão por ter sido impedido de tocar pelo público – roubava a cena, buscando um espaço para se manifestar nos tempos da ditadura. Impressiona mesmo a empolgação de todos, moças e rapazes, senhoras e crianças bem pequenas acompanhando as letras das canções, algumas bem longas e, desnecessário dizer, bem mais elaboradas do que aquelas que invadem e agridem nossos ouvidos hoje.
O que aconteceu, afinal, nestes últimos 40 anos? O show business “evoluiu”, sem dúvida: todos já sabem como se comportar diante das câmeras, não há mais flagrante de espontaneidade – desde a celebridade instantânea ou o assassino da ex-namorada até o apresentador de TV, não há espaço para o improviso, ou, quando há, é institucionalizado: É Tudo Improviso intitula-se o programa de humor da Band, que, junto com o CQC ainda busca surpreender o público – ambos conseguem, em parte, mas, rapidamente, fazem escola, e vamos vendo a fórmula de sucesso se repetir em outros programas.
O mundo cresceu. Em todos os domínios. O movimento de resistência à guitarra elétrica, puxado pelos músicos de “esquerda” da época dos festivais, que assim pensavam em preservar as raízes da MPB, impedindo a invasão ianque, é mesmo pra lá de tupiniquim. Sim, fomos salvos pelo Veloso (assim Caetano era chamado), Gil e os Mutantes, que ousaram misturar todos os ritmos – ainda que, como disse Caetano no filme, sua Alegria Alegria não deixasse de ser um fado português...
Bem, o mundo cresceu, o mundinho da MPB então, nem se fale... Os próprios artistas reconhecem isso: pra eles, se não fossem os críticos, os documentaristas de plantão, toda essa história dos festivais seria só e tão somente passado – passado que precisaram superar, para não ficarem amarrados, prisioneiros de estereótipos. Tropicália, exílio, a Construção do Chico, Refazenda do Gil... Suas carreiras tomaram novos rumos, acompanhando o crescimento do mundo – canções mais complexas, mais belas, ousadas sim, novos ritmos, parcerias, arranjos, e muita poesia...“poesia concreta, prosa caótica, ótica futura”.
Hoje, esses caras que criaram “confusões de prosódia e uma profusão de paródias”, reiventando nossa língua, estão com quase 70 anos – homens velhos com a alma saturada de sons a nos servirem de farol. Ainda produzem, alguns também em outros campos (política, literatura); claro, sem a mesma vivacidade, sem a alegria despreocupada, sem aquela flexibilidade no corpo, como disse Caetano no filme. Estão aí pra gente não se esquecer da nossa história e do quanto contaminaram, por muito tempo, outros artistas, mais novos, novas vozes que ainda bebem dessa fonte, nem que seja regravando os clássicos.
Só que, de repente, a gente estancou. Não há mais lugar, claro, pra essa ingenuidade de criar um movimento de resistência à invasão das ladys americanas que tudo pasteurizam. Mas é impossível não sentir saudades desse tempo em que a intuição poética, o eu lírico, o êxtase artístico invadiam nosso cotidiano, alimentando nossa imaginação. Os deuses da criação andam visitando pouco nossos artistas? Ou, cada vez mais, o espaço para que compartilhem suas criações com o público vai se tornando restrito? Pena.
É por essas e por outras que a gente não pode esquecer o que os moços dos festivais fizeram por nossa música e nossa história. Documentários bacanas, pra lembrar uma gíria da época, servem para isso, e este cumpre muito bem esse papel. Não deixem de assistir, para, pelo menos, sonhar um pouco...
“Se recordo quem fui, outrem me vejo,
E o passado é um presente na lembrança.
Quem fui é alguém que amo
Porém somente em sonho” (Ricardo Reis, 1930).


Confira entrevista dos diretores:



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