16 de Abril de 2021


     Fale conosco     Fale conosco
 
ProfissionalProfissional
GeralGeral
ConsultoriaConsultoria
HomeHome
BibliotecaBiblioteca
ReflexõesReflexões

A CLÍNICA EM FOCO: O DESTINO DA DOR

Artigo publicado na Revista TRIEB – Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro, Vol. VII,
Irmgard Birmoser de Mattos Ferreira, Maria Alice Warschauer e Claudia Perrotta*

Matéria de memória

O menino tinha um defeito na fala. Até os cinco anos fora mudo, olhava o mundo, olhava as coisas e não dizia nada. Talvez não quisesse dizer nada realmente. Havia momentos em que chorava, em que ria (chorava mais do que ria) e emitia algum som. Nada articulado, sentia que os adultos o evitavam, talvez gostassem dele (tudo era possível), mas sempre davam um jeito de mantê-lo à distância. (Cony, 1999, p. 13).

É com essas palavras que o hoje jornalista e romancista Carlos Heitor Cony inicia o texto no qual narra sua relação de sofrimento com a linguagem oral. O menino a quem se refere, e cujo “silêncio parecia uma denúncia” (p.13), é então o próprio autor, como nos é revelado mais adiante, e só começou a falar depois de um susto, ou talvez quando algo no mundo tenha, de fato, merecido uma palavra.
A imagem é bonita: na praia de Icaraí, encantado com o aviãozinho vermelho que faz piruetas no céu, o menino se assusta quando o brinquedo vem em sua direção, e grita.

Estava na praia de Icaraí, viu um aviãozinho fazer piruetas no céu, depois o aparelho foi baixando, baixando, era um hidroavião vermelho, pousou na água lá longe e veio vindo em direção da praia, o barulho foi aumentando, de repente o menino sentiu pavor, gritou e correu, foram pegá-lo quando atravessa a pista de carros, por pouco seria atropelado. (Cony, op.cit., p. 13-14).

Pela primeira vez sua voz foi ouvida – um som criado pelo menino ganhou significação. Ele começou a falar pelas mãos do aviãzinho vermelho na praia de Icaraí. Só que os olhares continuaram a ser de estranhamento, pois falava errado. Os familiares tentavam mostrar como deveria fazer: “alguns sons pediam que a língua batesse nos dentes da frente; outros que a língua encostasse no céu da boca, tudo muito fácil” (Cony, op. cit., p.14). Mas nada adiantava, e nem o próprio nome conseguia pronunciar, o que era um grande constrangimento.
Por anos e anos, trocava o ‘c’ pelo ‘t’ e o ‘g’ pelo ‘d’: “falava tavalo, tomida, tachorro, daroto, daragem” (Cony, op. cit., p.14), e por isso evitava situações de comunicação. Certo dia, em uma festa, o irmão mais velho o chamou para que, em uma roda de garotos, pronunciasse a frase: “Dona Jandira adora um fogão”. Ele o fez, e a singularidade de sua fala provocou muitos e muitos risos – estava diante da crueldade alheia e não tinha uma palavra “correta” com a qual pudesse se defender. Nova perplexidade, novo susto, mais sofrimento, desprezo e humilhação.
Restava-lhe o isolamento - ele era deixado nos cantos ou ficava embaixo da mesa de jantar, vendo as pessoas pela metade. Até uma escola demorou a freqüentar, pois “seria doloroso, os outros meninos cairiam em cima dele, julgando-o retardado” (Cony, op.cit., p.14). Precisou, então, aprender ler e escrever com o pai, em casa, que ia lhe ensinando as coisas do mundo. E foi justamente nesse momento que “o menino descobriu que ali estava um caminho, um destino. Deveria escrever tudo o que pensasse, seria finalmente igual aos outros” (p.14). E não seria mais menosprezado: “escrever foi a tábua na qual me agarrei para não ser considerado um idiota” (p.16).
E foi assim que, mantido à distância por apresentar defeitos na fala, o menino “que permanecera mudo até os cinco anos” descobriu que poderia escrever “tudo que pensasse”:

E quando quisesse, poderia escrever o que sentia e até o que não sentia – escrever era coisa fabulosa. Melhor do que falar, porque quando se escreve é como se a gente falasse diversas vezes, primeiro consigo próprio, depois com os outros. Se houvesse outros. (Cony, op. cit.,p.14).

Inúmeras são as reflexões que podem advir desse relato. De início, nos surpreendemos: “Como pode alguém que hoje mostra tanto domínio na arte de escrever ter vivido tamanho sofrimento?”. Mas, passada essa surpresa inicial, afinal grandes artistas são também humanos, outras questões vão tomando corpo.
A primeira palavra do menino foi um grito. Será que alguém pôde compartilhar de seu sentimento de perplexidade, acompanhá-lo em suas descobertas? Será que, nesse momento, ele encontrou alguém que testemunhasse aquela verdadeira epifania? Qual seria a natureza da dor vivida pelo menino Cony nesse momento tão primordial da vida, que é quando arriscamos as primeiras palavras?
Sem a pretensão de responder a essas questões, o aspecto central por nós destacado neste artigo diz respeito ao modo como o personagem delineado pôde fazer uso de sua dor para seguir adiante, colocando em marcha um processo que se tornou maneira de ser no mundo, maneira de dar um destino, através da linguagem escrita, a suas inquietações. Também trazemos nosso pensar sobre a prática terapêutica, apontando para um trabalho que se preocupa com a sustentação do sofrimento, buscando destiná-lo criativamente.
O artigo está dividido em duas partes: na primeira, retomamos trechos desse texto, intitulado “O fogão e a chuva”, procurando acompanhar o sofrimento descrito pelo autor; e na segunda apresentamos um possível caminho de acolhimento no contexto clínico, tomando por base aspectos da constituição humana presentes na obra de Winnicott.

1. Cony em transição: travessia rumo ao devir

Como vimos, o menino do texto de Cony parece ter vivido desde cedo, e já com intensidade, a angústia de, querendo dizer uma coisa, acabar por dizer outra. Angústia ainda sem nome, sem moldura, sem contorno, angústia que extravasa, toma todo o ser, transcende, não tem ainda um destino.
Talvez Cony quisesse dizer: a linguagem nos apresenta no mundo, não serve só para comunicar algo. Neste sentido, ele parece nos indicar que linguagem é também busca, algo que nos coloca em trânsito, em processo, rumo ao devir. Queremos dizer com isso que o silêncio inicial de nosso personagem já era uma forma de expressão. Na recusa de falar possivelmente já apresentava o que tinha de mais original. No silêncio talvez mantivesse alguma esperança de vir a encontrar exatamente o que precisava e que até então não aparecera em seu horizonte existencial.
Nada melhor do que um grito! Gesto espontâneo que certamente inaugurou seu caminhar em direção à maneira singular como vem se posicionando no mundo.
Paradoxalmente, podemos pensar então que ter sido mantido à distância foi, justamente, um aspecto fundante para o personagem. Se, de um lado, no silêncio parecia nada dizer, por outro, foi exatamente nesse gesto que pôde apresentar-se em sua singularidade.
Mas, como vimos no relato, os olhares continuaram sendo de estranhamento. Ou seja, o menino não parece ter sido acompanhado da maneira que precisaria. É possível que, nos primórdios, a devoção e a presença humana não tenham sido suficientes para levá-lo a se sentir fazendo parte, existindo no mundo. Mais do que treinos descontextualizados sobre como posicionar língua e lábios para pronunciar determinados fonemas, ainda que fossem tentativas de ajudá-lo, expressão de afeto, talvez o menino ansiasse por encontrar um parceiro que o acompanhasse em suas experimentações, contribuindo para integrar aspectos de si, e não corretores de sua fala. Mas ele não desistiu. Algo o ajudou a sustentar a espera de encontrar uma forma singular de se expressar.
Será que foram as experiências de perplexidade que inauguraram e moveram suas buscas de si-mesmo, colocando em ação todo o seu ser? Afinal, ele só falou depois de um susto. E, nesse momento, pôde manifestar para o mundo o que, muito provavelmente, já estava em processo dentro de si, buscando expressão. Muitas experiências podem ter mobilizado o seu caminhar. Por exemplo, no relato, o pai é apresentado como uma figura humana devotada e afinada com as questões do filho, promovendo um ambiente facilitador que contribuiu para a continuidade do seu processo de amadurecimento, manifestado através da escrita.
A partir daí, pôde, provavelmente, encaminhar o próprio isolamento, que vem acompanhando sua vida – “adquirira o vício da solidão e gostava de ser só” (Cony, op. cit., p.14). Muitas vezes, “silêncios” aparentes, momentos de solidão e isolamento nos tornam também mais vulneráveis e sensíveis para perceber novas conexões. Um simples desabrochar de uma flor, uma gota de chuva, um aviãozinho voando podem revelar, a partir de um impacto estético, uma correspondência da alma que pulsa, clama por ser revelada.
Um episódio relatado que merece reflexão ocorreu quando o menino foi chamado pelo irmão para dizer diante uma roda de garotos, expondo-se ao ridículo, Dona Jandira adora um “fodão” quando deveria ter dito fogão. No dia seguinte, já apropriado do objeto cultural escrita, encheu as páginas de seu caderno com a palavra “fogão”:

Mostrou o caderno aos outros meninos, ninguém riu. Mas ninguém compreendeu. Então o menino descobriu que ali estava um caminho, um destino. Deveria escrever tudo o que pensasse, seria finalmente igual aos outros. Nem se tratava de ser aceito – ele já não dava importância a isso, adquirira o vício da solidão e gostava de ser só. (Cony, op. cit., p. 14).

A escrita se tornou a fala reposicionada:

...senti necessidade de continuar escrevendo. Não tinha qualquer noção de técnica literária, nem sabia que isso podia existir. Escrevia como falava, ou melhor, como desejava falar, se pudesse. (Cony, op. cit., p.16).

O menino deu, nesse momento, um grande salto rumo ao seu destino. Interessante observar o ritual que até hoje Cony utiliza para começar a escrever:

...quando inauguro (...) o computador, a primeira palavra que sempre escrevo é “fogão”. Funciona como meu código de acesso, meu referencial, a garantia de que posso participar da brincadeira e dizer simplesmente que Dona Jandira adora um fogão. (Cony, op. cit., p.15).

Com essa palavra – bem-dita e mal-dita –, ele reapresenta a si mesmo a possibilidade de viver a precariedade e, ao mesmo tempo, sustentá-la e colocá-la em trânsito. Essa vivência angustiante do passado presentifica sua nova condição, recupera esperanças, e Cony reencontra no seu percurso solitário a autoconfiança e a necessária abertura para experimentar novos caminhos.
Parecendo aceitar a sua solidão e dando as mãos à dor que passou a acompanhá-lo (inicia seus textos escrevendo a palavra “fogão”), Cony não precisou distanciar-se de si mesmo podendo colocar seu sofrimento em marcha. Assim, graças a esse seu processo, vem oferecendo ao mundo uma contribuição singular – apropriando-se de um patrimônio cultural comum, a linguagem escrita, nela imprime sua marca pessoal.
Quanto à fala, parece ter interiorizado um aspecto do ambiente como maneira de proteger-se, preservando o original de si. Essa faceta ganhou o formato de truques para disfarçar suas imprecisões articulatórias – sobre isso, afirma: “O tal defeito na fala foi sendo corrigido”, sendo que, ainda hoje, evita certas palavras e fala depressa para ninguém reparar. Diz ele: “na impossibilidade de ir adiante, procurei não ficar para trás” (p.15).
Escrever “quando quisesse, o que sentia e até o que não sentia” (Cony, op. cit., p. 15) foi o que lhe possibilitou, muito mais do que comunicar-se com o outro, encontrar um lugar e dar um destino a sua dor.
E continuou a escrever, que “era coisa fabulosa, porque quando se escreve é como se a gente falasse diversas vezes, primeiro consigo próprio, depois com os outros” (Cony, op.cit., p.15). Busca escrever o mundo tal como o sente, tarefa que foi se tornando cada vez mais complexa, pois “escrever é verbo transitivo, pede objeto direto: escrever o quê?” (p.16). Se pudesse, desejaria prescindir do sujeito e do próprio objeto da ação:

O verbo escrever pode ser transitivo, pede um objeto da ação. Mas para mim, depois do amargurado corpo-a-corpo com as palavras, tudo me parece lucro. Tive inveja da chuva quando aprendi, na velha Gramática Expositiva de Eduardo Carlos Pereira, que o verbo chover, além de não ser transitivo, é impessoal. Evidente que chover só pode ser chuva. E não se diz eu chovo, tu choves. Só existe o chove, uma ação completa em si mesma. (Cony, op. cit., p.16).

Escrever poderia ser assim, simples como a chuva que chove, “uma ação completa em si mesma”, como um dom da natureza que não necessita de tamanho esforço para se comunicar ou ser compreendido.
Cony (op. cit.) finaliza o texto que aqui citamos revelando que, depois do amargurado corpo-a-corpo com as palavras, continua a buscar a si mesmo na arte de escrever. Avisa que ainda não encontrou, e é certamente por isso que continua procurando. Para a felicidade dos leitores...

2. Nós-Conys: sustentação do sofrimento no contexto clínico

Mas vamos agora pensar quantos de nós já não passamos por situações semelhantes e qual o caminho que muitas vezes buscamos para lidar com elas. Iniciemos pela relação de sofrimento com a linguagem e que advém do falar ou escrever errado (Masini, 1999; Garcia, 2005). Talvez pudéssemos sintetizá-la nestes termos: o fato de “querer dizer uma coisa, mas acabar dizendo outra” (Cony, op. cit., p. 16). Sabemos o quanto isso gera em todos nós uma angústia, sejamos ou não “competentes” como falantes e/ou escritores, tenhamos ou não uma história mais ou menos conflituosa com a linguagem.
Sim, não há dúvidas de que qualquer um de nós já viveu esse tipo de aflição. Pode ter, portanto, uma dimensão do que estamos abordando aqui.
Isso ocorre simplesmente pelo fato de que nunca atingimos um conhecimento suficiente da linguagem, que, além do mais, é extremamente dinâmica e mutável. Novos gêneros discursivos não cessam de circular em nosso cotidiano, exigindo que deles nos apropriemos. Sem falar de quando somos solicitados a escrever, por exemplo, um trabalho científico (Perrotta, 2004). Não raras vezes, nos sentimos então bloqueados ou mesmo incompetentes para expressar os nossos pensamentos, que parecem escapar no momento em que tentamos registrá-los no papel. Nessas horas, procuramos nos distanciar, permanecer certo tempo em silêncio para nos reconciliarmos com nossos potenciais de expressão. E quando enfim voltamos ao trabalho, a esperança de conseguirmos dizer o que pensamos ou sentimos se renova, e vamos adiante.
Mas para aqueles que não trazem boas lembranças de quando falaram as primeiras palavras ou arriscaram as primeiras letras, esses embates tão naturais, tão próprios das mais diversas formas de expressão não parecem ser transitórios e ganham o nome de problema, dificuldade, sinal de deficiência, de ser errado no mundo, muitas vezes “para sempre”. Restam, apenas, os truques, os disfarces, ou a busca por algum trabalho de reabilitação, como ocorre na clínica fonoaudiológica. Nesse âmbito, encontramos práticas mais tradicionais, as quais propõem treinos articulatórios centrados na normatização da língua. Mas há também trabalhos que buscam contextualizar essas dificuldades retomando a história do paciente, procurando acolher seu sofrimento e potencializar condições de desenvolvimento, aproximando-o de situações discursivas cotidianas significativas e reapresentando-o à linguagem de modo que possa utilizá-la para estabelecer continuidade e integração de si.
Há também outros desdobramentos dessa relação de sofrimento com a linguagem, que não raras vezes são também trazidos à clínica psicanalítica, sendo que, quando explicitado, o sintoma não está necessariamente ligado às dificuldades de linguagem. A angústia a ele relacionada aparece das mais variadas formas: seja no sentimento de inadequação social, de humilhação, no isolamento, na depressão, na não aceitação de si mesmo, nas diversas modalidades de pânico, na timidez ao se posicionar diante do outro, no bloqueio da criatividade, nas inseguranças. Muitas vezes, as pessoas buscam na análise a superação desses sintomas tão indesejáveis, de maneira a eliminá-los e, assim, aliviar rapidamente a dor.
Mas, afinal, a história foi vivida, a dor está registrada, e o estigma foi estabelecido, mesmo que ninguém tenha sido capaz de dimensionar o dano causado. Será então que o alívio do sintoma, ou seja, a fluidez da comunicação, por exemplo, traduziria a complexidade das questões emocionais que estariam em jogo?
Voltando ao nosso personagem, será que, adaptado a seu meio, teria mantido sua busca de si mesmo e sua capacidade de criar? Bloqueá-la é um grande risco que afasta muitos poetas, músicos ou artistas de determinados trabalhos analíticos, pois receiam que “fazendo análise” podem perder a inspiração, dispersar-se de suas buscas, inibir a espontaneidade, tão importante para criar.
Vamos então propor aqui um deslizamento, uma nova ficção sobre o personagem trazido no texto “O Fogão e a Chuva”. Pensando no contexto clínico, perguntamos: Qual poderia ter sido a contribuição dos terapeutas, fonoaudiólogos e/ou psicanalistas, para essa incessante busca do menino-personagem-escritor Cony?
A dor de Cony, ao nele estabelecer inquietações, é o motor de todo seu caminhar, é o que faz com que se recolha e queira se expressar. A dor é e não-é inibidora e propulsora. Queremos pontuar aqui um conceito fundamental trabalhado por Winnicott (1971/1975)em toda a sua obra. Trata-se do campo paradoxal, e da necessidade de sustentá-lo para o estabelecimento e manutenção de um espaço transicional que possa manter e colocar em marcha o tempo e espaço subjetivo. Nesta medida, é importante que os terapeutas tenham a clareza de que esses caminhos de sofrimentos também são portais de descobertas de si mesmo, e podem decorrer daí grandes possibilidades criativas. Pensamos então que os processos terapêuticos ajudariam como ambiente facilitador para o desenvolvimento e apropriação dessa capacidade de criar, sendo ambiente aqui compreendido na perspectiva winnicottiana (1988/1990); ou seja, ambiente facilitador é aquele que, ao estabelecer uma relação de confiança, mantém, enriquece e aprofunda a continuidade de ser.
Assim, o que aparentemente figura como simples fatos ou gestos espontâneos isolados, muitas vezes envolve experiências nem sempre prazerosas, nem sempre comunicáveis ao interlocutor ou passíveis de compreensão. Neste sentido, nem toda dor é ou pode ser expressa. O silêncio é, por vezes, a grande expressão que, podendo ser vivido em presença humana, sustentaria um percurso a ser descoberto/criado (Ferreira, 2004).
Não temos como curar a dor de “nós-Conys”, ou seja, a dor, comum a todos nós, humanos, gerada pela incompreensão, pela humilhação que advém da impossibilidade de materializar em palavras muito do que vivemos, e talvez até mesmo o que nos é essencial e vital. Porém, podemos construir com nossos pacientes, com nossos semelhantes, com o que há em nós e nos outros de Cony, a transicionalidade entre o objetivamente percebido e o subjetivamente concebido, proposição winnicottiana (1971/1975) que explicita a necessidade e importância de constantes pontes entre aspectos da realidade e nossa subjetividade, que nos ajudam a atravessar diferentes estados de angústia e aflição. Com isso, sustentamos a necessária abertura para novos, constantes e infindáveis reposicionamentos e buscas.
Nessa perspectiva, cabe aos clínicos (e também profissionais da saúde ou educadores) atentar para o fato de que “falhas” humanas, ou ainda “erros” na comunicação, ou pinceladas “mal colocadas” de um pintor, por exemplo, podem ser desafios que abrem novos caminhos criativos, em vias de serem descobertos. Sustentar esses percursos no trabalho terapêutico, sem necessidade de resolver essas “falhas”, pode ser a base para novas e importantes aberturas. Proteger e saudar a própria dor, a angústia fundamental de cada um de “nós-Conys”, relacionando-a a experiências que não adquiriram um senso de existência ou um senso de serem reais, podem favorecer o encontro de uma área de experimentação. E sendo compartilhada, testemunhada e acompanhada de presença humana, essa experimentação pode passar a ser vivida como experiência Real, gerando na pessoa que a vive um senso de estar viva, com uma existência criativa a partir da qual passa a compreender e atuar no mundo.
No caso do menino do texto de Cony, por exemplo, foi a partir de seu sofrimento, na sua solidão, ao ver-se “nos cantos, ou embaixo da mesa de jantar onde os humanos só aparecem em forma de pernas” (Cony, op. cit., p. 13) que ele pôde alcançar uma nova forma de expressão. Ainda que sozinho em seus diários pessoais, através da escrita, tendo adquirido o vício da solidão, como ele diz, pôde comunicar para si mesmo suas capacidades, seu talento criativo, sua perseverança e esperança de alcançar o verdadeiro sentido de suas palavras. Esse experimentar-se, experimentar-se no mundo e experimentar o mundo, a cada momento em nova dimensão, parece ser o que mais lhe importa. Antes de resolver a sua questão, passa a fazer uso da própria dor como instrumento de toda criação.

...perto dos trinta anos, mexendo nuns guardados, encontrei um caderno forrado de verde-musgo, presente de alguém que não lembrava. Parecia apropriado para um diário, desses que ainda são vendidos em papelarias. Por coincidência, eu tinha uma caneta parker, que era verde, e estava abastecida com tinta verde. Não tenho certeza mas desconfio que verde sempre foi minha cor favorita. Achei que devia fazer alguma coisa com aquilo tudo, caderno, caneta e tinta. Quase ia escrevendo a palavra fogão na página de rosto – e por pouco minha carreira literária teria tido um início mais cabalístico do que o desejado. Resolvi nada escrever naquela página. Mas enchi as seguintes, sempre com a tinta verde, e contei uma história que começava numa infância que não era exatamente a minha mas descrevia o mundo tal como o sentia e ainda sinto. (Cony, op. cit., p. 15).

Na clínica, este lugar de experiências humanas compartilhadas possibilita que cada paciente, em seu ritmo, busque dentro de si suas memórias, havendo um tempo e espaço de intimidade para redescobrir sentidos novos para as dores já vividas. Por outro lado, a clínica winnicottiana também nos ensina que, muitas vezes, o que o paciente precisa é encontrar elementos que possam ir ao encontro de necessidades que jamais foram atendidas. Ao escrever e publicar seus escritos, Cony parece ter encontrado parte importante do acolhimento, reconhecimento e respeito que sempre precisou, sem que com isso fosse arrancado de sua necessária solidão. Não se trata de curar o sintoma, extingui-lo, mas sim aceitar essa faceta de si, possibilitando de forma criativa o acesso a essa dor, buscando maneiras de fazer uso do sofrimento como veículo de expressão mais genuína de seu ser. O antigo, vivido ou não vivido, pode passar a ser, então, o novo compartilhado.
Importante destacar, ainda, que o sofrimento humano não se restringe ao campo da necessidade; ao contrário, sempre busca alcançar significações. Assim, não se aprende a falar, ler e escrever só por necessidade de comunicação, mas para criar um dizer próprio, dar uma significação ao mundo a partir de um lugar de existência. Portanto, dificuldades de linguagem, assim como uma infinidade de outros sintomas, geram bloqueios e impedimentos na condição, no potencial de interpretar e compartilhar os fatos do mundo segundo a sua própria perspectiva (Safra, 1999).
O que tanto o fonoaudiólogo como o psicanalista, e também outros terapeutas testemunham em suas clínicas, e que ganha os mais variados contornos, é, então, o “amargurado corpo-a-corpo com as palavras” (Cony, 1999, p. 16), ou o corpo-a-corpo com o sintoma através do qual se apresenta a dor humana na busca do si-mesmo.
Pensar clinicamente significa, então, voltarmos o nosso olhar para a condição humana, a fim de compreendermos qual o lugar que o sofrimento tem ou não na existência daqueles que procuram tratamento. Pensar clinicamente é buscar compreender o outro a partir do lugar do qual ele fala, a partir da maneira como a sua existência o afeta, compreendê-lo a partir da singularidade do seu sofrimento.
Neste sentido, desvendar em que medida um aspecto que gera dificuldades, angústia ou aflição tem a ver com o todo, com o lugar de onde nos colocamos, apreendemos a vida, a nós mesmos e ao mundo, pode ser o grande desafio de todo terapeuta. Cada questão – vista como uma faceta reposicionada de uma angústia original – não se resolve, mas pode vir a ser encaminhada, aprofundando e ampliando sentidos, maneiras de estar no mundo, de forma a colocar em marcha o infindável processo de vir a ser.
O que há em comum no trabalho a ser realizado pelos terapeutas, sejam eles fonoaudiólogos, psicanalistas ou quaisquer outros que buscam se inspirar nas idéias de Winnicott, é o desafio de sustentar a angústia antes de resolvê-la. O foco deixa de estar no sintoma, na superação deste, e passa a ser colocar a angústia sob o domínio do eu, que é o que move a vida em direção à constituição de si mesmo.
Finalizamos este texto com uma frase de outro grande escritor que, assim como Cony, pôde se tornar um grande criador:

Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa: “Navegar é preciso; viver não é preciso”. “Quero para mim o espírito [d]esta frase, transformada a casar com o que eu sou: Viver não é necessário; o que é necessário é criar”. (Fernando Pessoa, 1980, p. 15).


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Bakhtin M. (1997). Os gêneros do discurso. In Bakhtin M., Estética da criação verbal. 2.ed. São Paulo: Martins Fontes.
Berberian AP, Massi G. (2006). Pais, filhos e letramento: ressignificação de histórias de leitura e escrita no contexto da fonoaudiologia. In Berberian, Massi e Mori-de Angelis, Letramento: referências em saúde e educação. São Paulo: Plexus.

Cony C. H. (1999). O fogão e a chuva. In Cony C. H., O harém das bananeiras. Rio de Janeiro: Objetiva.

Ferreira I. B. M. (2004). Uma interface entre a angústia e a busca da constituição do self: algumas reflexões a respeito do pensamento de Winnicott. IDE, Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (ISSN: 0101-3106), novembro 2004, nº 40.

Garcia A L M. Fonoaudiologia e letramento. In Linguagem escrita: tendências e reflexões sobre o trabalho fonoaudiológico. São Paulo: Pancast; 2005.

Masini L. (1999). A escrita na clínica fonoaudiológica. Revista Distúrbios da Comunicação, vol.10(2), pp.193-204, São Paulo.
_________ (2004). O diálogo e seus sentidos na clínica fonoaudiológica. Tese de doutorado, Programa de Estudos Pós-graduados em Lingüística Aplicada e Estudos de Linguagem, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo.
Masini, L. (2006) Efeitos da ressonância dialógica na clínica da linguagem. In Berberian, Massi e Mori-de Angelis, Letramento: referências em saúde e educação. São Paulo: Plexus.
Perrotta, C. (2004). Um texto pra chamar de seu: preliminares sobre a produção do texto acadêmico. São Paulo: Martins Fontes.

Perrotta C, Märtz L, Masini L (2005). O trabalho terapêutico fonoaudiológico com a linguagem escrita: considerações sobre a visitação a gêneros discursivos. Revista Distúrbios da Comunicação, vol.16(2), pp.181-93, São Paulo.

Perrotta, C. (2005). Redimensionar erros: intervenção fonoaudiológica na escrita. In Dauden e Mori-de Angelis, Linguagem escrita: tendências e reflexões sobre o trabalho fonoaudiológico. São Paulo: Pancast.

Pessoa F. (1980). Palavras de Pórtico. In Pessoa F., O eu profundo e outros eus. (p.15) Rio de Janeiro: Nova Fronteira.


Safra G. (2004). Introdução à psicologia clínica: história e fundamento. Aula ministrada no curso de graduação em Psicologia Clínica. USP, São Paulo.

Winnicott D. W. (1971/1975). O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago.

_____________(1988/1990). Natureza Humana. Rio de Janeiro: Imago.

* Sobre as autoras:
Irmgard Birmoser de Mattos Ferreira – psicóloga clínica, mestre em Psicologia Clínica (PUCSP), supervisora clínica e coordenadora de grupos de estudo, professora no curso “Um Percurso na Obra de Winnicott” no Instituto Sedes Sapientiae, coordenadora e membro do Espaço Potencial Winnicott no Sedes Sapientiae, membro do Departamento de Criança do Instituto Sedes Sapientiae, participante do Laboratório de Estudos de Transicionalidade (LET/PUCSP) e do PROFOCO – Programa de Formação Continuada com o Prof. Dr. Gilberto Safra.
Email: irmgard-medi@uol.com.br

Maria Alice Warschauer – psicóloga clínica, orientadora profissional, artista plástica, participante do atelier Desenho da Figura Humana e Processos Criativos, membro do Espaço Potencial Winnicott no Sedes Sapientiae e participante do Laboratório de Estudos de Transicionalidade (LET/ PUCSP) e do PROFOCO – Programa de Formação Continuada com o Prof. Dr. Gilberto Safra..
Email: alicewarschauer@uol.com.br

Claudia Perrotta - fonoaudióloga clínica, mestre em Fonoaudiologia (PUC- SP), assessora na elaboração de textos acadêmicos, autora do livro Um texto pra chamar de seu – preliminares sobre a produção do texto acadêmico (Martins Fontes, 2004) e co-autora do livro Histórias de contar e de escrever – a linguagem no cotidiano (Summus, 1995). Participante do PROFOCO – Programa de Formação Continuada com o Prof. Dr. Gilberto Safra.
Email: claper@attglobal.net
Site: www.ifono.com.br.


Voltar

Compartilhe: