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14/12/2012
Claudia Perrotta
“A beleza salvará o mundo”...

Sam Mendes e Alan Ball

... mas, certamente, não a particular “Beleza Americana”, que se delineia no filme dirigido por Sam Mendes, de 1999, que, entre outros prêmios, levou o Oscar de melhor roteiro original, criado por Alan Ball.
Mas por que trazer este filme aqui, neste momento? O principal motivo que me leva a comentá-lo é o fato de ter sido convidada para participar da banca de arguição da monografia: “O sucesso de Beleza Americana: os decadentes valores de uma bela sociedade”, escrita, aliás, muito bem escrita, pela aluna do 2º ano do Ensino Médio do Colégio São Domingos: Isabel Pie.
Foi mesmo uma enorme satisfação apreciar este trabalho, que chega a surpreender pela desenvoltura, segurança do texto, pleno domínio do tema, além da capacidade de a autora ser tão criativa, sem perder de vista as regularidades do discurso acadêmico, algo que tem se tornado cada vez mais raro. No geral, infelizmente tem sido comum encontrarmos nesse universo produções protocolares, com poucas marcas de autoria – mas este é assunto para outro momento.
Atenho-me aqui a alguns pontos discutidos na arguição, em especial à questão da experiência estética e à forma como Isabel enunciou sua experiência de escrita: “fatigante e difícil”.
Começo pela experiência estética proporcionada pelo filme, seguindo o caminho percorrido pela autora.
Atenta ao objetivo de seu estudo, como anunciado no título da monografia, Isabel traça um panorama histórico da época em que Beleza Americana foi produzido, virada do milênio, destacando aspectos que teriam sido determinantes para o sucesso nas telas de cinema. Aborda também os bastidores da indústria cinematográfica, estratégias de marketing, como o atraente e instigante cartaz do filme, além da própria trama, que retrata uma família tipicamente americana, às voltas com o ideal de sucesso a qualquer preço, e a divisão simplista do mundo entre perdedores x vencedores. Destaca ainda recursos cinematográficos utilizados pelo diretor, como trilha sonora, que remete à juventude do protagonista, Lester, que busca romper esses ideais todos e recuperar sua vitalidade, perdida em uma vida profissional e familiar submetida e empobrecida. Por fim, há o contraponto e jogo de espelhos entre os personagens e a simbologia das rosas vermelhas, marcante na paixão revigorante de Lester pela adolescente colega de sua filha.
Realmente, é instigante pensar que um filme que critica a sociedade americana, espelhando na telona muitas de suas contradições, com personagens um tanto patéticos, que desnudam toda a hipocrisia contida no American Way of Life, tenha feito tanto sucesso. Uma das hipóteses lançada pela autora da monografia e também durante a discussão na banca de arguição, seria certa leveza do filme, que, mesmo tendo esse caráter de denúncia, inclusive com um final trágico, já anunciado logo no início, acaba reafirmando o modelo mais conservador da sociedade americana, apaziguando o espectador. Um exemplo seria a cena em que Lester, prestes a manter relações sexuais com a colega da filha, desiste da ideia quando ela lhe revela ser virgem. Também nas cenas finais, antes de ser assassinado pelo vizinho militar, que, momentos antes, tentou beijá-lo – outro exemplo de hipocrisia, já que era homofóbico – seria delineado certo conservadorismo, com Lester rememorando momentos felizes passados com esposa e filha, e ressaltando a beleza que há nas coisas simples da vida. Para Isabel, seria um olhar clichê, cuja mensagem de otimismo se evidencia nas ideias reconfortantes diante da existência, amenizando o pessimismo inicial, a desilusão e até a denúncia de uma sociedade pobre, e podre, traçados no desenrolar da trama.
Devo dizer que concordo em parte com toda essa discussão. A primeira reação que tive ao ser convidada para a banca foi certa objeção à escolha do filme. Pensei: por que não Magnólia, também de 1999, se a intenção era compreender e desvendar valores de uma sociedade que “influencia amplamente a cultura, o entretenimento e os valores de, no mínimo, todo o mundo ocidental”? (Pie, 2012, p.11). Claro, a escolha de Isabel foi acertada, pois a questão principal remetia às razões do sucesso do filme. Magnólia também concorreu ao Oscar de melhor roteiro original, mas gerou muito mais controvérsias tanto entre os críticos como no público, arrecadando menos do que a metade que seu concorrente. A temática é certamente similar, mas rosas vermelhas são certamente mais palatáveis do que chuva de sapos...
Na verdade, na ocasião em que assisti Beleza Americana, não me encantei, me pareceu uma temática tipicamente americana, com pouca ressonância entre nós, trazendo questões que, na ocasião, não me pareceram universais. Mas Isabel me presenteou, não só com seu texto, tão bem composto, mas também com a possibilidade de rever o filme e minha impressão inicial, que se mostrou equivocada. De fato, como bem lembrou Tony Venturi, presente na banca, “Para ser universal, basta cantar o seu quintal", frase de Tolstoi.
Beleza Americana é sim um belo filme. Certamente, muitas das razões do sucesso foram muito bem delineadas na monografia, embora a própria autora, acertadamente, não tenha sido assertiva em suas conclusões, elaborando boas perguntas no decorrer do texto, mantendo a questão sempre em abertura para novas leituras e interpretações.
Concordo que há certa maestria em tratar tema tão denso com alguma leveza, e com isso, atingir o grande público, o que não me parece que tenha sido a proposta de Magnólia. Mas há sim outros atrativos em Beleza Americana, e que se delineiam em outro campo, transcendendo a dualidade conservador/revolucionário, e que me interessa mais nesta discussão.
Realmente, o fato de não ter mantido relações sexuais com a garota não indica, a meu ver, que Lester tenha sido “conservador”... O que me parece é que, nesta cena, se delineou uma faceta da beleza, não a americana, de plástico, representada pela adolescente Angela, que se mostrava sempre muito segura, “resolvida”, jogando com sua sensualidade e sexualidade, sem qualquer conflito. Simplesmente, se delineia na tela a beleza do desamparo, que pode finalmente ganhar corpo diante do olhar do outro, que o acolhe, recolhe. Angela está lá, inteira, sendo verdadeiramente vista por Lester em sua fragilidade de menina, sem máscaras, sem precisar, naquele momento, jogar com a sua aparência – há aqui um redimensionamento do sentido mais convencional de “beleza”, do padrão de beleza, sempre tão bidimensional.
Desamparo parece ser um tema muito presente neste filme (e também em Magnólia), e as formas como vamos todos tentando disfarçar nossas dores, inseguranças, frustrações, fragilidades, sinais de que seríamos “perdedores”, em um mundo que, cada vez mais, nos cobra eficiência, sucesso e não perdoa nossas oscilações, tropeços, dúvidas e tristezas. Para tudo isso, há de se inventar algum novo remédio.
Esse compromisso de parecer sempre muito bem (como nas fotos que hoje circulam nas redes sociais) contamina alguns dos personagens do filme, de modo que perdem a dimensão de quem realmente são, como é o caso da esposa de Lester e também de Angela. Mas não é o que acontece com Jane e Ricky, ela, filha do protagonista, e ele, do vizinho militar. O encontro de ambos é bastante alentador, e certamente, ainda que não de modo racional e facilmente explicável, atinge o espectador, e pode ser sim uma das razões de sucesso do filme.
Jane é, na verdade, ainda mais bela do que Angela, pois traz em seus gestos, em seus olhos, no jeito de se movimentar, no corpo, a fragilidade e insegurança adolescentes que a colega busca tanto esconder. E tudo isso é captado pelas lentes de Ricky, um rapaz sensível, que foi encontrando meios de sobreviver com um pai repressor, apegado a moralismos, preconceituoso, violento; e, como vimos, igualmente desamparado (o problema é que, quando revela seu desamparo ao mesmo Lester, não recebe o mesmo acolhimento que Angela, por isso, a saída pelo assassinato). A grande diferença entre Ricky e a esposa de Lester, ou Angela, e mesmo de seu pai, é que, ao contrário deles, sua encenação para sobreviver é consciente, ele finge se submeter - estratégia que encontra para se proteger e realizar seus sonhos, viver sua vida. A encenação não penetra seu ser, não se torna ele mesmo – Ricky não é bidimensional.
E é Ricky que, a meu ver, protagoniza uma das cenas mais genuinamente belas do filme, arriscaria dizer a cena que melhor apresenta a temática da história, que não está a meu ver tanto na denúncia da hipocrisia do modelo de vida americano, ou na dualidade conservador x revolucionário.
“Você quer ver a coisa mais bonita que eu já vi em minha vida?”, pergunta o rapaz a Jane, e começa então a projetar a imagem de um saco plástico balançando ao vento. Para Isabel Pie, esta cena pode não ser compreendida pelo espectador, servindo mais para afirmar o olhar exótico de Ricky. Discordo. Ainda que não passe por um entendimento racional, todos somos tocados aqui pelo que eu chamaria de síntese de uma experiência estética.
A visão do saco plástico ao vento toca Ricky, assim como cotidianamente somos tocados por coisas que estão no mundo, pertencem à realidade compartilhada. Muitas vezes, pouca atenção prestamos a isso – como bem disse Adélia Prado, “Deus de vez em quando me castiga. Me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra” - até que, em certo momento, elas, coisas/pedras/sacos plásticos parecem nos apresentar a facetas de nós mesmos, a temas, filosofias que nos são caras, e ganham então algum destaque diante das inúmeras outras coisas. Espécie de epifania. É então que nos misturamos, perdemos o contorno, e procuramos emoldurar o que vivemos - criamos uma narrativa, como faz Ricky, um poema, nos arriscamos no pincel ou em qualquer outra materialidade. Fazemos um filme, como o roteirista Alan Ball, que, a partir de uma dessas coisas, uma notícia publicada no jornal, de uma adolescente que assassinou a esposa de seu amante, criou Beleza Americana. Essa potência criadora, esse encantamento com as coisas do mundo que buscamos emoldurar de alguma forma, ainda que não alcancemos acabamentos e resultados tão precisos e belos quanto muitos artistas em suas obras, é algo que nos constitui como pessoas, uma busca que faz parte de nossa natureza. E talvez seja primordialmente essa experiência de encantamento que nos faça entrar em um cinema, apreciar um filme, nos permitindo ser tocados por sua temática.
No livro “A beleza salvará o mundo”, frase de Dostoievsky, Tzvetan Todorov (2011), filósofo e linguista búlgaro, atribui à palavra "beleza", justamente, um sentido amplo, nem sempre admitido no uso comum: “tentativa de ordenar a vida de maneira que a consciência individual a jul¬gue harmoniosa, de modo que os diferentes ingredientes, vida social, profissional, íntima e material formem um todo inteligível” (2011: 13). Essa sensação de plenitude, de realização e de perfeição é algo que, segundo o autor, pedimos à nossa vida. Por isso, “a obra não é separada por um abismo da mais comum existência. (...) A obra de arte é simplesmente o local em que esses esforços produziram seu resultado mais brilhante, onde são, por conseguinte, mais fáceis de ser observados”. Mesmo não sendo artistas, todos nós somos então “anima¬dos por um projeto de vida, possuindo em nosso interior uma configuração ideal que nos guia a partir da qual julgamos nossa existência em dado momento” (2011:14).
Por fim, o bailado do saco plástico também nos apresenta à própria temática do filme – a precariedade, o desamparo, um eterno ir e vir sem que consigamos muitas vezes ter controle ou vencer as intempéries que nos são impostas a todo o momento; mas vamos tentando nos sustentar, de alguma forma.
Penso que também Isabel viveu algo dessa natureza – tocada pelo filme, criou seu dizer, sua monografia, permitindo-se balançar-se ao vento, procurando pontos de apoio na pesquisa, nas leituras, na orientadora, em leitores-parceiros e em seu próprio repertório, que lhe permitiu fazer uma boa análise do filme. Talvez por essa razão tenha então qualificado o processo de escrevê-la como “fatigante e difícil”. Sim, criar é algo fatigante e difícil, gera crises, tensões, conflitos, pois necessariamente implica em rompimento de algo estabelecido, significa apresentar-se ao outro, ao mundo, com a expectativa de ser ouvido, acolhido, visto, reconhecido - e por mais que a obra que realizamos seja de qualidade, por mais que tenhamos habilidade e domínio da técnica, como é o caso de Isabel Pie, publicá-la é sempre risco.
E é nessa rica e complexa experiência de criar que, talvez, resida a beleza que salvará o mundo...


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