15 de Dezembro de 2018


     Fale conosco     Fale conosco
 
ProfissionalProfissional
GeralGeral
ConsultoriaConsultoria
HomeHome
NósNós
Na Boca do PovoNa Boca do Povo
Linguagem com PipocaLinguagem com Pipoca
Mito ou VerdadeMito ou Verdade
PublicaçõesPublicações

10/09/2009
Claudia Perrotta
“Tem jacaré no lago?”

A Grande Família – Rede Globo

Tô sentindo cheiro de macho...Tem jacaré no lago?”
É com essa fala que Paulão, o mecânico de A Grande Família (Rede Globo), inicia o diálogo com Marilda, ou Marilza, como costuma chamar a ex-namorada, no episódio que foi ao ar no dia 20/08/2009. O tema era o relacionamento amoroso entre uma mulher mais velha, no caso a personagem cabeleireira, e um rapaz bem mais novo, Leleo, que toda a vizinhança do bairro viu crescer. Ainda sem saber do namoro de Marilda, Paulão invade o salão e logo descobre que o tal jacaré que “está pegando” sua ex é Leleo:
- Eu tô chocado, Marilza, você tá de coisa com esse moleque aí?
- Não tenho do que me envergonhar, não, o Leleo é uma graça de menino e eu vou sair com ele sim, qual é o problema?
-Isso é peidofilia! Eu vou chamar a polícia!
- Qual é, ele é maior de idade, não tô fazendo nada de errado!
- Ah é? Então vou contar pra Graucia [mãe] quando ela for buscar o carro dela na oficina, eu vou contar pra ela!
Com personagens bem delineados, ótimos atores e tramas muito bem amarradas, além de não perder a graça, o popular seriado A Grande Família vem mantendo um bom índice de audiência há anos. Isso ocorre porque, além de abordar temas do cotidiano do brasileiro comum, tem como uma de suas características a brincadeira com o modo de falar de cada um dessa família.
Vejamos alguns exemplos: Lineu, o pai interpretado por Marco Nanini, nunca erra no português em seus discursos lógicos, transpirando retidão de caráter e rigidez nas condutas. Agostinho, Pedro Cardoso, faz exatamente o contraponto do sogro: “fala enrolado”, com uma articulação imprecisa, que serve muito bem à intenção de esconder suas enganações; ele usa como estratégia para convencer o apelo à emoção do interlocutor, se faz de vítima e constrói seu discurso com restos de discursos alheios, apostando na aparente consistência de ideias. Toda essa farsa se delineia no modo como fala.
Mas o personagem que queremos focar aqui é Paulão, o mecânico que fala tudo “errado”: em vez de Glaucia, Graucia, em vez de pedofilia, peidofilia. Não há como não rir, mas esse nosso riso esconde, na verdade, o que chamamos de preconceito linguístico.
Marcos Bagno, doutor em Língua Portuguesa, mestre em Linguística e escritor premiado, já abordou o tema. Em seu livro intitulado, justamente, Preconceito Linguístico (edições Loyola), adverte: “temos de fazer um grande esforço para não incorrer no erro milenar dos gramáticos tradicionalistas de estudar a língua como uma coisa morta, sem levar em consideração as pessoas vivas que a falam”. E se propõe a desmistificar algumas ideias equivocadas que circulam na sociedade sobre o que seria falar bem, e que inevitavelmente levam à perpetuação de mecanismos de exclusão.
Um dos mitos abordados por Marcos Bagno é exatamente o que embasa a construção do mecânico Paulão: “As pessoas sem instrução falam errado”. O que sustenta essa afirmação é a ideia de que a única e verdadeira língua portuguesa é aquela “ensinada nas escolas, explicada nas gramáticas e catalogada nos dicionários”. Tudo que foge a esse padrão é, pois, apressadamente qualificado como errado, deficiente, e não raramente suscita risos de desprezo dos interlocutores.
Como exemplo, Bagno cita o fenômeno de transformação do L em R em encontros consonantais, como ocorre na fala de Paulão - Gráucia no lugar de Gláucia. E adverte: não se trata de ignorância, mas sim de um “fenômeno fonético que contribuiu para a formação da própria língua portuguesa padrão”. Assim, temos: branco, que vem do germânico blank; cravo, escravo, dobro, do latim clavu, sclavu, duplu; prata, do provençal plata. E ainda, como destaca Bagno: Luís de Camões escrevia: ingrês, pubricar, frecha, e continua sendo um dos maiores autores do português clássico, com seu poema Os Lusíadas... Trata-se de um fenômeno denominado “rotacismo”, que “participou da formação da língua portuguesa padrão..., mas continua atuante no português não-padrão”.
Paulão, portanto, não tem qualquer problema articulatório que o impeça de pronunciar os encontros consonantais, e não precisa de tratamento fonoaudiológico! Esse personagem de A Grande Família nada mais é do que um legítimo representante dos “brasileiros falantes das variedades linguísticas não-padrão”, e que, por pertencerem a classes sociais desprestigiadas, “que não têm acesso à educação formal e aos bens da elite”, sofrem o preconceito linguístico, advindo do preconceito social: “sua língua é considerada “feia”, “pobre”... quando na verdade é apenas diferente da língua ensinada na escola”. Destaca Bagno: “o que está em jogo não é a língua, mas a pessoa que fala essa língua...”.
Gráucia, Gláucia, Marilda, Marilza, Paulão: pertencemos todos a essa grande família que fala o português!

Do autor Marcos Bagno, leia também: "Nada na língua é por acaso", Parábola Editorial.
E confira o site: marcosbagno.com.br


Voltar

Compartilhe: