15 de Dezembro de 2018


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01/04/2010
Claudia Perrotta
“A maioria das coisas que é genuína é melhor permanecer não dita”

J. D. Salinger

O autor dessa frase é J.D.Salinger, morto em janeiro de 2010, aos 91 anos, mais conhecido pelo clássico adolescente “O apanhador no campo de centeio” (Catcher in the Rye, 1951).
Recluso desde início dos anos 60 do século passado, sua vida sempre despertou a curiosidade da mídia, sendo motivo de grandes especulações, algumas não muito favoráveis a sua biografia, como as supostas declarações de sua filha mais velha de que o pai seria um homem excêntrico, egoísta e violento. Dizemos supostas porque, em se tratando de Salinger, nada pode ser afirmado categoricamente...
Será assim tão necessário obter informações sobre a vida ou o modo de ser desse escritor americano que optou por afirmar seu direito de não ser famoso, seguindo à risca o que diz seu mais conhecido personagem, Holden Caulfield, “Se eu fosse pianista, ia tocar dentro de um armário”? Talvez só o suficiente para apreendermos o alcance de seus escritos e neles reconhecermos traços de suas vivências e interesses.
Sabemos, por exemplo, que ele prestou serviço militar entre 1942 e 1946, participando então da II Guerra Mundial, presenciando momentos cruciais, como Dia D, libertação de Paris e as crueldades dos campos de concentração. Por causa das experiências dolorosas vividas na guerra, acabou sendo internado em uma clínica psiquiátrica. Dedicou-se também, e com intensidade, ao zen budismo e, mesmo tendo parado de publicar após 1965, continuou escrevendo com disciplina e assiduidade.
Ao menos é o que consta na vasta correspondência trocada com um ex-colega de exército, atualmente guardada na Biblioteca e Museu Morgan, em Manhattan. Trata-se de Werner Kleeman, um judeu alemão que chegou a ser levado para um campo de concentração, mas conseguiu fugir para Nova York, onde se alistou no exército americano. Kleeman descreve o amigo como “emotivo, caloroso e muito humilde”. Ambos registraram nas cartas as tristes marcas deixadas pela vivência no front, os amigos que perderam, como outro escritor americano de renome, Hemingway , também combatente e que se suicidou em 1961 - enfim, toda uma cumplicidade entre ex-combatentes, que só é capaz de entender quem viveu experiência semelhante: “Nós dois passamos pelo inferno”, afirma Kleeman, “Isso une as pessoas”. Na última carta, de 23 de fevereiro de 1969, Salinger diz ao amigo que não deseja mais “voltar para lugar algum em carne e osso”. Sobre uma das raras visitas ao amigo em Cornish, pequena cidade em que Salinger morava, Kleeman relata: “Ele me mostrou o quarto no qual guardava todos os seus manuscritos”. Isso enche seus leitores de esperança (e a indústria editorial também) de logo ter em mãos livros e outros escritos inéditos de J. D. Salinger. Após sua morte, especula-se que o autor tenha deixado por volta de 15 livros não publicados, mas nada ainda foi confirmado por seus herdeiros (ref.: http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/der/, Der Spiegel, Marc Pitzke -Nova York (EUA), 20/03).
Também leitores assíduos de sua obra, que, além do clássico que o tornou consagrado em todo o mundo, até o momento se resume a Nove Histórias (1953), Franny e Zooey (1961), Pra Cima com a Viga, Moçada (1962), Seymor: Uma Introdução (1963) e Hapworth 16, 1924 (de 1965, ainda não publicado no Brasil), vamos comentar em breve alguns de seus contos aqui no Ifono.
Isso porque, como muitos que se deliciaram com o talento e a sofisticação deste autor, também nos sentimos muitas vezes ansiosos por visitar a família Glass - trocar ideias sobre a vida com Buddy (considerado alter ego do escritor), acompanhar as angústias e o lirismo de Seymour, ouvir as conversas dos irmãos Franny e Zooey. Estes e outros personagens de suas histórias transpuseram os limites da literatura e se tornaram muito reais.
Não há dúvidas de que todo o mistério que envolve a vida de Salinger acaba instigando e despertando a curiosidade de todos. Mas talvez devêssemos nos dedicar (e deleitar) lendo e relendo inúmeras vezes seus escritos e prestar mais atenção nesta declaração paradoxal vinda desse autor tão intenso, hábil e perspicaz na forma de atingir seus inúmeros leitores de todo o mundo: "Publicar é uma terrível invasão à minha privacidade. Eu gosto de escrever, amo escrever, mas escrevo só para mim mesmo e para meu próprio prazer"(The New York Times, 1974).


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